Culpado sempre é o treinador

Já vi demissão de todo tipo: pelo telefone, através do rádio. Tem também a demissão aérea.

Guto Ferreira com semblante concentrado à beira do gramado
Legenda: Guto Ferreira deixou o Ceará após passagem positiva, com o título da Copa do Nordeste em 2020
Foto: Thiago Gadelha / SVM

Mudança de treinador no futebol brasileiro é algo tão comum que já faz parte do dia a dia do clube. Dormir treinador e acordar desempregado não é novidade para quem vive no mundo desse esporte. E mais: nem sempre os resultados são o termômetro que indicam a temperatura certa do ambiente para comunicar a demissão. No caso de Guto Ferreira, por exemplo, a colocação do Ceará (oitavo na classificação geral) jamais seria motivo para cartão vermelho, acompanhado de uma nota de agradecimento formal, já pronta para todos atos dessa natureza.

Com meus 74 anos de idade e 56 de profissão, já vi demissão de todo tipo. Vi demissão pelo telefone. É aquela em que o dirigente não tem coragem de encarar o treinador, optando por um “Grahan Bell”. Aí usa de eufemismo e manda o cara embora. Tem demissão através do rádio. O dirigente é frouxo. Não quer encarar o treinador. Passa a notícia para o repórter que logo coloca no ar. O técnico está guiando seu carro ou está no táxi, quando sai a notícia. Se o treinador estiver num táxi e for reconhecido pelo motorista, haja constrangimento. Tem também a demissão aérea. Essa é mais difícil de acontecer. Soube de um único caso assim. Explico nos tópicos seguintes.

Punição 

O Ceará tinha perdido para o Remo por 4 a 0. O jogo em Imperatriz no Maranhão, no Estádio Frei Epifânio da Abadia, porque o Remo tinha sido punido e por isso não pôde jogar no Baenão. O Ceará, que não tinha nada a ver com a punição, pagou o pato duplamente: teve de ir de Belém para Imperatriz e ainda sofreu uma goleada. 

Consequência 

No retorno, o voo transcorria sereno, sem turbulência, num céu de brigadeiro. O treinador do Ceará, tranquilo, tinha encarado o resultado com normalidade como acidente de percurso. Aí, a 33 mil pés de altitude, um porta-voz, cumprindo ordem do presidente do clube, comunicou ao treinador a demissão.  

Demissão aérea 

Não cito os personagens porque, quando há algum tempo contei esse episódio, o técnico ficou aborrecido. E disse que não foi assim. Tudo bem. A demissão pode até ter mesmo acontecido de outra forma. E eu respeito qualquer outra versão. Mas, na época, o comentário foi esse. Desculpem-me, mas foi assim que eu soube no voo. A única demissão aérea do mundo.  

Expectativa 

Repete-se a cena de costume: a expectativa sobre o novo treinador do Ceará. A missão, na minha avaliação, não será tão difícil. O time está bem colocado na Série A do Campeonato Brasileiro. É o oitavo. Claro que terá de dar uma sacudida. A oscilação foi um dos motivos da queda de Guto. Jogou bem diante do Flamengo, aplausos; perdeu para o América, rua. Culpado é sempre o treinador.  



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