'Emily em Paris' usa atmosfera da capital francesa para sustentar roteiro simples, mas divertido

Série, que foi lançada na Netflix na última semana, também traz Lilly Collins em mais uma comédia-romântica

Legenda: Na história, Lilly Collins faz bem o papel de protagonista encantada e é umas características positivas da série
Foto: divulgação/Netflix

Quando todos os clichês das comédias românticas se unem, o resultado quase sempre é bem parecido: mocinhas se descobrindo, um amor novo e complicado, lugares meio deslumbrantes. Na série 'Emily em Paris', recém lançada pela Netflix, a fórmula segue estes mesmos passos, mas ainda assim consegue prender a atenção dos espectadores admiradores do gênero. Seja pelo figurino impecável ou até mesmo pelo humor meio ácido em relação aos franceses, a série tem alguns pontos positivos, mas peca na rapidez de desenvolvimento e na insistência em diversos estereótipos absurdos.

Porém, se é para analisar a série, que inclusive vem repercutindo nas redes e entre a imprensa, nada mais justo do que contar a história de Emily, interpretada por Lilly Collins. Empregada no setor de marketing em uma empresa de Chicago, a protagonista recebe uma oportunidade de transferência para Paris, logo após descobrir que a chefe dela, destinada para a função, está grávida. De mudança, a jovem chega em território francês com muito pouco: quase zero conhecimento da língua, nenhum amigo na cidade e escassa experiência para lidar com as marcas luxuosas requisitadas pelo emprego. E é justamente a partir daí o ponto no qual os pontos positivos e negativos surgem para se complementar.

Para esta pessoa que vos escreve, como boa consumidora das comédias-românticas mais melosas disponíveis em qualquer catálogo de streaming, a série cumpre o papel básico de entregar todos os ingredientes para uma história engraçada e com personagens cativantes. Emily é descolada – apesar de a série vender a ideia contrária – e possui uma aura diferenciada, como se a confiança que possui fosse o suficiente para ultrapassar todas as barreiras de começar a morar em uma cidade desconhecida. Talvez este seja um dos pontos altos justamente pelo fato de ser possível enxergar nela a capacidade feminina de transformar os mais diversos ambientes. 

Legenda: Outra das jogadas do roteiro é trazer a figura de Emily para a vida real por meio das redes sociais
Foto: divulgação/Netflix

Além dela, também existem outros pontos para integrar a lista do lado bom. Todo o cenário envolvendo “Emily em Paris” é deslumbrante, desde os enquadramentos até as caracterizações. Na verdade, seria até difícil ocorrer o contrário, visto que a série se utiliza das ruas charmosas de Paris, capazes de se mostrar quase encantadas até mesmo para quem já a visitou. São nos restaurantes sofisticados e nas caminhadas pelo Sena onde a personagem encontra as oportunidades necessárias para entender como a “nova vida”, pela qual resolveu optar, pode ser melhor que a anterior. Paris se torna uma espécie de protagonista em conjunto com a Emily de Lilly Colins, o que talvez seja o real propósito do diretor Darren Star, conhecido pelo mesmo artifício em séries como “Sex and the City”.

É nesse meio, em uma cidade na qual tudo é possível, onde Emily aflora. De personagem simplória, passa a ser decidida e até mesmo os casos amorosos nos quais se envolve parecem ser o resultado da nova atitude. Este também pode ser apontado como um ponto positivo. Ainda que a série se venda como comédia-romântica – fazendo com que esperemos por um grande amor na vida da protagonista –, ela lida com envolvimentos complicados, com caras desinteressantes ou esnobes e até mesmo só pelo sexo. Tudo isso como parte da experiência de viver em Paris e, vale lembrar, com looks perfeitos para qualquer ocasião. Nada mal, eu diria. 

Legenda: Entre os interesses amorosos, a protagonista lida com o encantamento pelos franceses, mas sem se deixar aberta a todas as possibilidades
Foto: divulgação/Netflix

Constância

Ainda assim, o balanço com o lado negativo chega a incomodar ao longo da narrativa. Emily é cativante, mas também irrita pela presunção. Ao chegar na capital francesa, não consegue sequer entender a dinâmica do novo lugar, como se o modo americano ao qual já se atinha fosse o único possível. Isso, claro, é culpa do roteiro, que não se poupa de levantar todos os estereótipos possíveis logo nos primeiros minutos do primeiro episódio. Na série, franceses são difíceis de lidar, flertam a todo minuto e fumam em momentos inimagináveis. Difícil de engolir, obviamente, mas as situações em questão geram momentos engraçados a cada tempo de tela.

Soma-se nesta história a pressa para contar tudo, com o roteiro utilizando de resoluções fáceis para os problemas de Emily. Entre as complicações, tudo é simples de finalizar diante da “perspicácia absoluta” da mesma. Desfiles se refazem em um passe de mágica, acordos milionários são selados e relacionamentos se abalam apenas pela presença charmosa da americana, o que às vezes pode causar certa antipatia no espectador. Entretanto, no fim das contas, esses momentos podem até se tornarem dignos de risada, caso quem assiste esteja disposto a “embarcar na onda”.

Com o último episódio da temporada, "Emily em Paris" até encerra com gancho para um novo ano. Enquanto os personagens já parecem estar construídos, os conflitos estão engatilhados e novos questionamentos devem surgir, talvez seja necessário apostar em mais do que simplesmente na aura de Paris. No geral, abandonar alguns dos clichês pode ser até benéfico para conceder fôlego maior ao enredo e deixá-lo ainda mais interessante. 

Ouça o podcast "Diz, Mulher", com Gabriela Dourado:

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