Do Brasil ao Japão, "Midnight Diner: Tokyo Stories" é como transporte em tempos impossíveis

Produção da Netflix tem duas temporadas, e a última foi lançada no catálogo em outubro do ano passado

Legenda: O "mestre"é o personagem central da trama
Foto: Foto: divulgação

Sem tanta inspiração assim nos últimos tempos, me encontrei pensando em como filmes e séries se tornaram importantes no meu cotidiano e como, de repente, escrever sobre isso tem sido difícil agora. Antes do mundo entrar em "suspensão" ou do medo ser tão onipresente, as tardes no cinema eram parte da minha rotina. Já contei isso por aqui, inclusive. Elas se tornaram experiências e me contaram histórias, das que guardo nessa memória tão falha.

Durante os dias, que teimam em passar rápido, uso os filmes e as séries para fazer o que mais gosto: pensar no mundo que aguarda. Este, por enquanto tão distante de ser alcançado, se abre nos meus sonhos para dar lugar a milhões de histórias. E foi pensando nisso que encontrei "Midnight Diner: Tokyo Stories", uma série dessas que ficam escondidinhas na Netflix, um espaço tão do "mainstream", capaz de encobrir as mais diversas produções. Mas assim como muitas coisas nessa vida, isso também precisa de um contexto.

Do conhecer

Pouco menos de um ano atrás, comecei a sonhar com passeios pelas ruas de Tóquio, com os letreiros incompreensíveis para mim, com as comidas únicas, com a mistura entre a tradição e o novo. Com o planejamento da ida, a expectativa de embarcar em uma viagem tão longa até quase o outro lado do mundo seguiu em crescente e se aninhou na maioria dos meus pensamentos. Algo digno da vontade grande por desbravar o desconhecido. 

No fim das contas, como para muitos, 2020 se tornou o mestre da frustração e hoje fico aqui, no aguardo de conhecer as histórias de Tóquio e senti-las chegarem até mim, de uma forma ou de outra. Por acaso, encontrei-as nesta série. 

Legenda: Na série, os alimentos se unem às histórias dos personagens
Foto: Foto: divulgação

"Midnight Diner: Tokyo Stories" traz crônicas contadas em um dos restaurantes apertados de ruazinhas escondidas de Tóquio, as quais eu mesma esperava ouvir passeando por lá, mesmo sem entender muito do idioma – absolutamente nada, te confesso –. E não é isso que as telas têm proporcionado agora? O embarque, que gosto de delimitar como temporário, até os lugares ou pessoas nas quais colocamos os sonhos de conviver e conhecer pessoalmente?

Foi nesse tal embarque o local de encontro para mim entre meu sonho e o que é possível nesse momento. Se não se pode estar fisicamente, assistir a série e viajar por meio das histórias da mesma, ainda que elas não sejam reais, virou momento de afago ao coração, assim como as produções audiovisuais e da cultura no geral têm sido para muita gente nesse momento tão complicado.  Se você está achando isso tudo "açucarado" demais, é essa a verdade: tenho acreditado nas séries até mesmo como espaços de teletransporte, capazes de me levar além do que se pode alcançar com o corpo.

Do entender

Em "Midnight Diner", por exemplo, a trama é bem simples, mas não menos grandiosa. A cada episódio vemos o dono do pequeno restaurante Meshiya, interpretado pelo japonês Kaoru Kobayashi. O mestre, como o personagem é chamado, é o responsável por administrar o local que atende clientes entre meia noite e sete da manhã. O horário, um tanto incomum, vira um espaço-tempo para que histórias se entrelacem e se transformem diante dos olhos do cozinheiro.

Ao longo dos dez episódios, baseados no adaptação do mangá Shinya Shokudō, de Yarō Abe, conhecemos novos personagens, ao passo em que nos apegamos aos poucos à figura do mestre. Quase como um espectador de tudo que acontece na bancada do restaurante, ele é a figura central do roteiro e traz bons momentos quando interfere no curso de vida dos personagens que o cercam. Por meio dele, conseguimos adentrar histórias melancólicas e divertidas, daquelas que são possíveis de encontrar em qualquer lugar do mundo.

Temas que são tabus no Japão, inclusive, estão lá, quando o assunto da transsexualidade é mostrado de forma tão delicada pela produção.

As dicas de culinária ao fim do episódio, os planos abertos das ruas de Tóquio e até mesmo a fotografia mais escura pelos becos que circundam o restaurante. Tudo isso concede um ingrediente na mistura da série. Até mesmo a delicadeza dos nomes dos pratos, que dão significado às histórias mostradas, deixa quem assiste ansioso por conhecer um pouquinho mais desses japoneses, transitando em tela por cerca de vinte minutos a cada conto.

No fim das contas, se você veio por aqui esperando alguma resenha sobre os lançamentos mais recentes da Netflix, vou sentir muito ao te decepcionar. Hoje deu vontade de refletir como é possível usar a arte para alcançar minimamente os nossos sonhos, mesmo em um cenário de incertezas e escuridão. Em momentos como o vivido agora, o que talvez nos traga leveza são os conteúdos capazes de servir como certeza de que sempre vai ser possível sonhar. E tá tudo bem assistir, ler e sentir tudo aquilo que te fizer muito bem.