Oscar 2020: em temporada de filmes medianos, 'Parasita' pode entrar para a história e quebrar tabu

Celebrado por crítica e público, "Parasita" pode ser a surpresa da premiação. 

parasita
Filme 'Parasita' concorre ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional Foto: Divulgação

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas indicou 53 filmes em 24 categorias. O longa "1917" e os atores Joaquin Phoenix e Renée Zellweger são os grandes favoritos. Celebrado por crítica e público, "Parasita" pode ser a surpresa da premiação. 

Domingo à noite, quando o tapete vermelho estiver estendido no Teatro Dolby, em Los Angeles, milhões de pessoas estarão novamente atentas a mais uma cerimônia de entrega do Oscar. A festa, mesmo longe de ser unanimidade entre os fãs de cinema, ainda mantém seu status no circuito, tem lá seu charme e impulsiona a carreira daqueles que fazem a mágica da Sétima Arte se eternizar.

A questão é: os filmes que "aclamamos" hoje serão perpetuados como futuros clássicos, ou estamos vendo a hegemonia dos sucessos descartáveis se consolidar a cada nova temporada? Tantas produções medianas são o efeito colateral do streaming? Ou falta genialidade e ousadia para peitar o mainstream?

Seja como for, este ano, é pouco provável que a Academia de Ciências e Artes Cinematográficas nos surpreenda. Embora, vamos combinar que seria sensacional ver o sul-coreano Bong Joon-ho entrar para história da premiação com seu desconcertante "Parasita". Digo isso, porque, na história do cinema, seu filme já tem lugar garantido.

Premiado em Cannes, "Parasita" foi aclamado pela crítica e tem a torcida do público. A produção sul-coreana é vista por muitos como um oásis em meio a tanta aridez de ideias originais

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"1917", de Sam Mendes, levou sete prêmios no Bafta FOTO: REPRODUÇÃO

Sonhar não custa nada. Mas a verdade é que o britânico Sam Mendes deve levar essa e outras estatuetas douradas para casa. Seu "1917" é um bom filme de guerra (que os americanos amam), é falado em inglês e tem direção irretocável com planos sequência dignos de um mestre. Isso é fato! A questão é que a obra é apenas isso. Boa. Não extraordinária como a "Lista de Schindler", "Platoon" ou "O Franco Atirador", títulos do mesmo gênero que foram premiados e nunca serão esquecidos.

Não é fácil criar um clássico. Isso está cada vez mais evidente. Produções como "Green Book", "A Forma da Água", "Moonlight", "Spotlight", "Birdman" indicam uma sequência de cinco anos com filmes que mal foram vistos pelo público e ainda assim ganharam. Desde 2004, com "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei", não vemos um grande (e digno) sucesso levar o prêmio máximo.

Dos filmes indicados em 2020, além de "Parasita", "Coringa" é o que tem mais chances de se manter "vivo" por anos e anos.

Não graças a seu roteiro - que bebe demais em outras fontes de inspiração como "Taxi Driver" e "O Rei da Comédia" -, mas sim pela absurda atuação de Joaquin Phoenix que já levou todos os principais prêmios do ano e merece o Oscar de Melhor Ator.

Da lista de favoritos, a Academia também deve confirmar Renée Zellweger como Melhor Atriz, pelo trabalho apaixonado que fez em "Judy: Muito Além do Arco-Íris". Ela não apenas dá vida à atriz Judy Garland mas também canta (de verdade) no longa que retrata os sofridos últimos anos da estrela. É tão poderosa em cena que conquistou com facilidade todos os 21 prêmios para os quais foi indicada até o momento com esse papel. Renée já pode escrever seu discurso de agradecimento. Na categoria, ela é absoluta.

No quesito atuação, Brad Pitt, por "Era Uma Vez Em... Hollywood", e Laura Dern, no fraquinho "História de Um Casamento", devem cravar vitória como melhores ator e atriz coadjuvantes, respectivamente. São favoritos porque venceram nas principais premiações da temporada. Se ganharem novamente, ambos subirão ao palco do Dolby conscientes de que já fizeram coisa melhor. Mas, um Oscar é sempre um grande troféu a ser exibido. Fazer o que se a maré de grandes filmes está baixa?

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Filme 'O Irlandês' é uma produção Netflix FOTO: REPRODUÇÃO

Correndo por fora e, na opinião de muitos (minha, inclusive) que conseguiram atravessar as mais de três horas de "O Irlandês", Joe Pesci deveria levar a estatueta de coadjuvante. Depois de nove anos longe das telonas, ele volta afiadíssimo na pele de um mafioso que domina a arte da manipulação com sutileza e maestria. E vale lembrar que ele atua sob a direção de ninguém menos que Martin Scorsese, nome que dispensa apresentação.

Quando voltamos nosso olhar para o conjunto da obra, a expectativa - a julgar pelas premiações recentes como Globo de Ouro, SAG, Bafta e Critics' Choice, a sensação é de que não teremos um filme absoluto, ou seja, vencedor em múltiplas categorias.

Basta lembrar que "Coringa", dirigido por Todd Phillips, é o longa com maior número de indicações: 11 no total. "1917" (Mendes), "O Irlandês" (Scorsese) e "Era uma vez em Hollywood" (Quentin Tarantino), concorrem em dez categorias cada. Uma verdadeira briga de cachorro grande.

Por falar em briga...

A cineasta Petra Costa viu a indicação de seu "Democracia em Vertigem", na disputa de Melhor Documentário, acirrar os ânimos ao escancarar a polarização ideológica em que vive o País. Tem torcida e muita crítica envolvidas. 

Fernando Meirelles, diretor de "Dois Papas", deve comparecer à premiação, mas tem poucas chances sair comemorando. Seu longa concorre por Melhor Ator (Jonathan Pryce), Melhor Ator Coadjuvante (Anthony Hopkins) e Melhor Roteiro Adaptado.

E, embora não haja tantas caixinhas de surpresas quanto envelopes no Oscar, a esperança de ver "Parasita" vencer no final anima os fãs do filme depois que o longa levou os prêmios de melhor elenco pelo SAG (sindicato dos atores) e melhor roteiro original pelo WGA (sindicato dos roteiristas). Afinal, eles são muitos e também votam.

Se vencer, a trama sul-coreana que fez a plateia rir, chorar, refletir e se emocionar, não vai apenas atropelar o favorito "1917". De novo: escreverá uma nova página na história do cinema. Com o Oscar na mão, Bong Joon-ho será o primeiro diretor, em 92 anos, a fazer um filme falado em língua estrangeira brilhar mais do que a estatueta dourada.

É esperar e torcer...