Oscar: o que a moda comunica com roupas repetidas, 'barriga marcando' e 'cabelo afro'

Tapete vermelho do Oscar 2020 foi uma passarela de narrativas de causas diversas 

NOMES
Natalie Portman protestou sobre a falta de mulheres na categoria Melhor Direção AFP

Já tem algum tempo que o tapete vermelho deixou de ser um espaço de ostentação de grifes para se tornar uma oportunidade de passar uma mensagem com o que se veste. Nessa edição do Oscar 2020, não foi diferente. 

No Globo de Ouro, Natalie Portman protestou sobre a falta de mulheres na categoria Melhor Direção. Ao anunciar os cinco cineastas indicados, a atriz disse: "Aqui estão todos os candidatos masculinos". No Oscar, manteve o mesmo discurso mas, dessa vez, por meio da moda.

A atriz bordou o nome de diretoras não indicadas para a premiação esse ano.

Afinal, se as câmeras de TV ainda fazem "raio x" dos looks usados pelas mulheres no tapete, indo de baixo a cima, que esse ângulo então seja aproveitado para trazer visibilidade a esses nomes. 

JANE
Casaco de Jane Fonda AFP

Jane Fonda subiu ao palco vestindo o mesmo casaco que usa quando vai a protestos pela causa ambiental (nos quais, aliás, costuma ser presa). Mas não foi só o casaco. Também na temática, a atriz optou por um vestido que ela já havia usado em outra premiação, mantendo sua opção de não comprar mais nenhuma peça de roupa.

E essa proposta foi seguida por outras artistas que optaram por roupas repetidas ou vintage, chamando a atenção para um consumo mais consciente, com roupas não-descartáveis. Nada de furor por "últimas coleções".

Roupas repetidas

Assim como Fonda,  Saoirse Ronan optou por um vestido que ela já havia usado no Bafta; Margot Robbie desfilou pelo tapete com um Chanel de 1994; A figurinista Arianne Phillips reutilizou o vestido que usou no Oscar de 2012 com algumas alterações. 

Não só as mulheres escolheram passar mensagens com suas roupas. Joaquin Phoenix, além dos discursos com mensagens políticas necessárias e importantes, vem usando o mesmo smoking em todas as premiações que compareceu por conta de "Coringa".  Roman Griffin-Davis, de Jojo Rabbit, também repetiu pela terceira vez seu terno.  A mensagem é a mesma: roupas não devem ser usadas e descartadas como lixo. 

Scarlett Johasson
Scarlett Johasson e a barriga real. AFP

Outra que chamou a atenção foi Scarlett Johasson. A loira estava, como sempre, deslumbrante.

Mas um detalhe: o vestido marcava a barriga da atriz revelando que ela é normal, como cada uma de nós, mortais.

E lembrei de todas as milhares de vezes em que fiquei me matando em calcinhas ultraapertadas para que não marcasse qualquer sugestão de barriga em qualquer roupa para qualquer ocasião. E Scarlett estava lá, não menos belíssima, com um vestido estonteante, com sua barriguinha marcando. 

Houve ainda quem, pelas suas escolhas do que vestir, reverenciasse sua própria história e luta. America Ferrera, em um longo vermelho, homenageou seus ancestrais hondurenhos.

"Hoje à noite, trago comigo meus antepassados guerreiros, a tribo indígena Lenca de Honduras", disse a atriz, filha de pais vindos de Honduras nos anos 1970. A líder indigena brasileira Sônia Guajajara, convidada pela diretora Petra Costa, também ostentou orgulhosa o seu cocar junto com a equipe de "Democracia em Vertigem" que concorreu ao prêmio de Melhor Documentário.

Cabelos negros

E como não se emocionar com o convidado DeAndre Arnold, garoto negro suspenso da formatura do ensino médio nos Estados Unidos por usar dreadlocks, chamado pelos diretores do vencedor como melhor curta de animação "Hair Love" para estar com eles no tapete vermelho.

Matthew A. Cherry
Diretor Matthew A. Cherry e seu convidado DeAndre, garoto negro suspenso da formatura do ensino médio nos Estados Unidos por usar dreadlocks AFP

"Precisamos normalizar o cabelo negro", disse a diretora Karen Rubert Tolive. Os diretores também usaram dreads em suas produções para a premiação, reforçando a importância do penteado como uma forte representação da cultura negra.

O que cada um desses e outros artistas faz quando escolhe cada peça de roupa ou penteado, consciente da mensagem que elas passam, é usar o espaço de privilégio para dar voz a uma causa, para chamar a atenção para um assunto que consideram mais importante do que responder apenas sobre qual grife está vestindo.

Ou ainda mesmo sem nem falar, apenas por andar e ser filmada e fotografada naquele ambiente hipermidiático. A roupa fala.

Esse espaço ter deixado de ser um lugar para "certo ou errado", "bonito ou feio", "bom gosto ou mau gosto", para se tornar uma passarela de narrativas é saber que a moda comunica muito. E é urgente passar algumas mensagens.