Vilões e heróis das finanças pessoais

Crédito pode abrir caminho para a aquisição de bens, mas muitas vezes é responsável por levar brasileiros ao descontrole financeiro. Saiba a melhor forma de utilizar

Dívidas em bolas de neve são uma realidade comum para muitos brasileiros que perderam o controle no uso do crédito - seja por conta do cartão, do rotativo ou do cheque especial... Idealmente, porém, se utilizado com critérios e planejamento, todas estas opções que temos para comprar podem ajudar as pessoas a alcançarem objetivos - como o da casa própria, de um carro, uma viagem ou qualquer outro bem ou serviço - e até a manter o equilíbrio das contas do lar.

O problema, na avaliação da economista Ione Amorim, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), é que a maioria das pessoas acaba utilizando linhas de crédito sem garantias e com juros muito elevados (como os juros rotativos do cartão de crédito e o cheque especial) como forma de complementar a renda e suprir os gastos básicos do dia a dia.

"Esse é um uso indevido do crédito, mas que reflete a situação econômica do País", aponta. Ferramentas de compras como estas devem ser usadas em casos de emergências, quando o orçamento estoura e é preciso fazer uma compra, contratar um serviço, como médico, remédio, danos da casa. O alerta é que não pode ser usado como parte da renda mensal.

Ela pondera que, embora o instrumento possa ser um aliado diante de um projeto de vida, não deve ser um fator determinante para a elaboração do orçamento pessoal ou familiar.

"O planejamento financeiro deve levar em consideração a adequação das despesas conforme o nível de renda. Gastar de acordo com o que se ganha. Não existe mágica, não dá para viver com gastos de R$ 2 mil mensais, ganhando apenas R$ 1 mil por mês", observa.

O economista Ricardo Coimbra, presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), aponta que gastos com bens de consumo, como alimentação, combustível e vestuário, por exemplo, não deveriam ser parcelados. "Há consumidores que vão ao supermercado e compram R$ 200. Parcelam esse valor e só daqui a dois meses que vai terminar de pagar um consumo de dois meses atrás, e acumula, gera uma bola de neve".

De acordo com os especialistas, o comprometimento da renda - isto é, a parte dos ganhos mensais destinados ao pagamento de parcelas - recomendável é de até 30%. "E deve ser priorizado para aquisição de bens e serviços que irão contribuir para o bem estar social, como adquirir uma casa, fazer um curso de capacitação profissional, uma reforma de um imóvel, investir em uma atividade", aponta Amorim.

Nesses casos, que envolvem um endividamento por investimento, Coimbra aponta que as pessoas devem se atentar aos outros custos atrelados. "No caso da compra de um veículo, por exemplo, não é só a parcela do carro. Tem manutenção, combustível, seguro, impostos, licenciamento, estacionamento... Na hora de adquirir, é preciso levar tudo isso em conta, na ponta do lápis", destaca.

Cuidados

Para evitar danos ao orçamento, a economista recomenda pagar o valor total da fatura do cartão de crédito no vencimento - fugindo do rotativo, uma das modalidades mais caras de crédito - e evitar parcelar. Já o cheque especial só deve ser acionado em casos de emergência, segundo Ione Amorim.

"É para utilizar somente por alguns dias e evitar integrar o limite como complemento de renda", alerta a economista do Idec. Quanto ao crédito pessoal consignado (com desconto direto na folha de pagamento), ela aconselha a não fechar nenhum contrato por impulso, estabelecendo objetivos sólidos para os recursos e evitando o parcelamento de longo prazo.

"Os juros são baixos, mas expostos ao longo prazo encarecem a dívida também", alerta a economista, que ainda orienta ainda mais cuidado com as opções sem consignação, mas com garantia de imóvel ou veículo.

Consumo

Historicamente, aponta a economista, o consumo no País sempre foi pautado para o crédito para a aquisição de qualquer produto ou serviço, dado o baixo nível de poupança pela população. Até pela relação entre pessoas com mais e menos dinheiro e bens caros, o Brasil sempre teve nos financiamentos e créditos os principais recursos para se ter um bem.

A casa própria, por exemplo, é alvo de financiamentos específicos e tem em um banco público, a Caixa Econômica, uma das suas principais linhas de empréstimo ao cliente. E, apesar de todas as vantagens apresentadas, ainda se constitui em uma das operações nas quais o consumidor passa mais tempo pagando para poder adquirir o bem.

"É preciso inverter a lógica de uso de crédito, de que primeiramente compra parcelado e depois paga, e sim para primeiro juntar o recurso e depois comprar à vista, com mais poder de barganha, obtendo descontos e evitando o endividamento", aconselha a economista, mais uma vez, reforçando a ideia de é que preciso mudar o perfil de consumo para poder lidar com as formas de pagamento disponíveis.

 


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