Todo filho é filho da mãe: o relato da Lia de Paula

Continuando a série #mãesqueinspiram, a Sisi traz o relato da fotógrafa Lia de Paula, que fez da maternidade solo inspiração para seu projeto autoral de fotografia “Todo filho é filho da mãe”.

Legenda: Lia de Paula, grávida da Lis.
Foto: Arte: Felipe Teixeira (Jamal)/Foto: Acervo pessoal

Lia de Paula 

Fotógrafa e mãe da Lis, de 18 anos

"A maternidade fez nascer uma outra pessoa dentro de mim. Mudei planos, prioridades, crenças.... A Lia antes da maternidade era aventureira, destemida, queria viajar o mundo com uma mochila e uma câmera. A Lia mãe teve que fazer malabarismos entre maternidade solo, estudo e trabalho. Passei a me preocupar com um futuro planetário muito distante, me trouxe uma consciência social maior e uma vontade de fazer algo que importasse. 

Não me contaram que seria tão puxado ser mãe! Não me contaram que 'tudo que acontecer de ruim, a culpa é da mãe e o que acontecer de bom, é muita sorte!'. Não me contaram que um abraço de uma filha é o melhor carinho do mundo. Não me contaram que eu ia ser tão apaixonada e grata pela filha que eu tenho, que vê-la sorrindo e conquistando seus sonhos seria tão maravilhoso. Não me contaram também que eu teria tanto medo. Medo do futuro, de avião, de estrada, de escada... Mãe vira bicho assustado. Não quer morrer. Não é por si, mas pela cria.  

Por outro lado, como mulher, acho que eu me abandonei completamente. Por ter me tornado mãe muito jovem, ainda no começo da faculdade, me separei do pai dela quando tinha um ano e senti muito o preconceito de ser 'mãe solteira' - eu demorei a aprender o termo 'mãe solo'. Tive que decidir tudo sozinha e isso é muito difícil. Inclusive, acho que é tão difícil quanto ter que bancar financeiramente. Mas sempre tive o apoio dos meus pais. Tenho a sorte de ter duas mães e um pai que cuidam de mim e me acolhem sempre que eu preciso. Minha família, minha prima Jô e amigos que moram no meu coração de pijamas e pantufas. Tenho uma boa aldeia e sou eternamente grata. 

Mas o foco e a prioridade da minha vida sempre foram a minha filha. Hoje eu vejo que exagerei. Acredito que eu queria preencher um espaço de ausência, tanto minha, que trabalhava e estudava muito, quanto do pai que morava em outra cidade. Hoje ela tem 18 anos e eu estou começando a entender que eu preciso olhar para mim também". 

Maternidade e Arte 

"Acredito que foi a minha filha que me mostrou o caminho da fotografia. Ela tinha um ano e meio quando eu comecei a trabalhar no jornal como fotojornalista. Eu já era mãe e já era mãe solo! Tive que fazer muito malabarismo para ser aquela mãe exemplar que o mundo te cobra, trabalhar e estudar e lidar com o preconceito da mãe 'jovem e solteira'.  

A maternidade também me trouxe um projeto de pesquisa com entrevistas e fotos com mães solo, que teve sua semente plantada no dia que contei ao meu pai que estava grávida. Ao contar que estava grávida, meu pai me abraçou e falou: 'minha filha, você sabe que todo filho é filho da mãe?'. Anos depois, em 2011, após uma briga por pensão com o pai da minha filha, lembrei dessa frase e comecei o projeto que ainda está em andamento chamado 'Todo filho é filho da mãe(?)', que propõe um diálogo entre presença e ausência e no processo de cuidar".

Fotos: Lia de Paula

Parceria mãe e filha 

"Neste momento de pandemia não está sendo fácil pela situação que estamos vivendo, mas a nossa relação mãe-filha só melhorou. Nos aproximamos muito. Acredito que formamos uma boa parceria. Temos um bom diálogo. 

Eu olho para minha filha com 18 anos e vejo que ela tem um coração enorme. É amorosa, justa, generosa, engraçada, altamente sensível e empática com as questões humanas e do mundo, inteligente, determinada, teimosa. Acredito que ela tenha as ferramentas necessárias para enfrentar esse mundo em constante transformação.  

Não sei se seria um legado, mas espero que ela encare a vida de forma leve, com amor, sem rancor, agradecendo os aprendizados. Desejo que ela voe alto, faça boas escolhas, que saiba reconhecer e aprender com os erros e seja destemida e determinada.  Desejo que ela seja feliz e realizada. 

Ser mãe é... 

"...a melhor coisa do mundo e, ao mesmo tempo, a mais difícil! Vão sempre nos cobrar. Culpa e cobrança andam lado a lado. As mães vão sempre se culpar por mil erros cometidos e, o que eu me falo diariamente para não pirar é: 'eu fiz o que eu poderia ter feito com a informação que eu tinha naquele momento'. Todo dia é um aprendizado e minha filha me ensina muito! 


Assuntos Relacionados