É tempo de Copa e, independentemente da derrota do Brasil para a Noruega, o amor dos torcedores é tão grande que ultrapassa os campos e chega até a forma de se vestir. O 'brasilcore' é a tendência que vem ganhando relevância mundial desde a Copa de 2022, transformando o país do futebol em produtor de moda.
No exterior, escreve-se "brazilcore"; no Brasil, nunca foi escrito com "z", mas sim com "s". A estética não é algo novo e sempre esteve viva nas blusas de time, chinelos de dedo, biquínis, óculos, músicas, paredes e ruas pintadas: a moda que sempre vibrou nas favelas ganhou um novo nome e passou a ser mais vista.
Segundo a cientista social e CEO da marca Mancuda, Nair Beatriz, o 'brasilcore' nasce e é usado com propriedade pelas periferias brasileiras. "Essa estética sempre existiu. Existe uma estética brasileira; existem várias estéticas brasileiras — sobretudo estéticas periféricas. Mas, em termos de tendência de moda, eu acredito que tenha surgido agora", comenta Nair.
A favela é chique
Para entender melhor sobre o consumo e até que ponto o 'brasilcore' valoriza a cultura da favela, a reportagem conversou com a fotógrafa Flávia Almeida e com a produtora cultural Helen de Sá, do coletivo Princesinha de Favela.
Para Flávia, ao mesmo tempo em que esse espaço ajuda a romper a ideia de que só o que vem dos centros ou da Europa é considerado bonito, o mercado torna essa estética um produto, que pode ser transformado em manobra de massa. "Acredito que o brasilcore, enquanto produto, não é o problema em si; a problemática está muitas vezes quando a estética é retirada do contexto que a produziu", relata Flávia.
Segundo a fotógrafa, a disputa atual não é pela representação, a disputa é pela autoria, pelo poder criativo autêntico que nasce nas mãos da periferia. Já que estilos de mercado como o fast fashion são a produção de roupas iguais em massa.
"Por isso, acredito que a questão não é se o Brasilcore valoriza ou não a periferia. A pergunta é: quem está produzindo essas imagens?"
Dentro do coletivo Princesinha de Favela, iniciado nas periferias de Fortaleza, as produtoras culturais, fotógrafas e outros participantes trabalham justamente para valorizar as diversidades que existem dentro das "quebradas", onde o coletivo atua.
"Nas quebradas há jovens que se identificam com o funk, outros com o forró, o rock, a música eletrônica, o rap, a MPB e tantas outras linguagens", como explica a produtora cultural Helen Sá.
Para contemplar e reivindicar a pluralidade da periferia local, o coletivo organiza um evento multilinguagem: o "Baile do Beco", que nasce para celebrar as várias formas de ser, vestir, criar e ocupar a cidade.
"A gente acredita que o problema nunca foi a bermuda de tactel, o chinelo ou a camisa de time. "O problema é como a sociedade enxerga determinados corpos e territórios"
Brasilcore nas marcas e editoriais
Dentro das marcas, o 'brasilcore' tem ganhado relevância. A Dendezeiro lançou a coleção "Biomas FC", são seis camisas exclusivas, cada uma homenageando a riqueza visual dos biomas brasileiros.
Outra marca bastante forte no uso do brasilcore é a Farm, em que a estética solar e praiana domina o imaginário na moda brasileira. A Lacoste, por exemplo, apresentou versões da tradicional polo da marca em tons de verde e amarelo.
As criadoras de conteúdo também ditaram o ritmo dessa tendência. Um exemplo é Virginia Fonseca, que incorporou o sportswear verde e amarelo nas roupas em seus posts no Instagram, gerando um engajamento estrondoso que superou a marca de 2 milhões de curtidas.
Estagiário sob supervisão da editora Aline conde*