A advogada cearense Cintia Emanuela Daniel Alves, único alvo da primeira fase da operação "Mensageiros do Crime" que ainda estava foragido, foi presa em São Paulo, na última segunda-feira (6). A audiência de custódia da suspeita ocorreu no mesmo dia. No total, a força-tarefa do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público do Ceará (MPCE) prendeu 12 advogados acusados de promover e fortalecer organizações criminosas no Estado.
Nos últimos dias, o Diário do Nordeste tem publicado uma série de reportagens especiais sobre os "Mensageiros do Crime", detalhando como os investigados contribuíram para o fortalecimento local do Comando Vermelho (CV) e como foram essenciais para garantir que líderes do crime organizado continuassem dando ordens aos subordinados de dentro da penitenciária de segurança máxima do Ceará.
Cintia se entregou no 6º Distrito Policial, em Cambuci, região central de São Paulo. Na audiência de custódia, a juíza Stephanie Kodlulovich Perez confirmou a legalidade do cumprimento do mandado de prisão preventiva expedido no Ceará e afirmou que pedidos de conversão da prisão preventiva em domiciliar devem ser feitos perante o juízo competente, embora, em casos de crimes graves como esse, o benefício possa ser negado.
"Ela se apresentou espontaneamente à autoridade policial em São Paulo, onde reside, e permanece", informou a advogada Alanne Nayara Fernandes Martins. A representante da defesa da ré acrescentou que irá comprovar a inocência da cliente e afirmou que, no momento, "não haverá manifestação além dessas informações".
Com a decisão, a advogada ficará recolhida em uma Sala de Estado Maior, conforme previsto no Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e no mandado de prisão. Ela foi encaminhada logo depois ao Instituto Médico Legal (IML) para exames de rotina e o processo será redistribuído para a Justiça cearense, que dará continuidade ao caso.
Quem é Cintia e do que ela é acusada?
Conforme a investigação do Gaeco, Cintia teria ajudado na circulação de informações entre detentos de diferentes alas da Unidade Prisional de Segurança Máxima do Ceará (UP-Máxima), em Aquiraz. Ela também teria sido responsável por intermediar contatos entre presos e lideranças do crime organizado fora dos muros da penitenciária.
Um dos casos mais graves analisados pelos promotores de Justiça à frente da investigação trata da relação entre a suspeita e o detento Fabiano Cavalcante da Silva, conhecido como "Jow", integrante do Comando Vermelho. Em um dos diálogos com a defensora particular registrados por escutas ambientais autorizadas pela Justiça, ele teria dado ordens diretas a ela para que garantisse a transferência de sua companheira da casa da mãe para a dele, pelo meio que fosse necessário.
Além disso, consultas a bancos de dados revelaram que a investigada mantinha um relacionamento pessoal com o ex-detento Paulo Edson Silva Gonçalves, conhecido como "Metranca", apontado como integrante da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC).
Mensageiros do Crime
No último 30 de junho, 11 advogados foram presos na operação "Mensageiros do Crime", deflagrada pelo Gaeco, do MPCE, suspeitos de promover e fortalecer organizações criminosas como Comando Vermelho, PCC e Massa Carcerária, também conhecida como "Tudo Neutro" (TDN). Naquele dia, apenas Cintia não havia sido encontrada.
A denúncia formalizada pelo Ministério Público foi aceita pela Vara de Delitos de Organizações Criminosas, que entendeu haver indícios suficientes de materialidade e autoria para o início da ação penal.
Os investigados são suspeitos, entre outras coisas, de agir na debandada de líderes da extinta Guardiões do Estado (GDE) para o CV, ampliando o alcance da organização carioca no Ceará, e servir de ponte entre diferentes facções e seus subordinados fora do presídio.
Os advogados alvos da operação são:
- Cintia Emanuela Daniel Alves (foragida);
- Raissa Xavier Leitão;
- Agnelo Alexandre de Souza Amorim;
- Francisco Jair Moreira Caetano;
- Debora Marny de Aguiar Parente;
- Francisca Leny Carneiro;
- Aniele dos Santos Moreira;
- Ana Flávia Martins Braga da Silva;
- Carina Brauna Bruno Sales;
- Maria Jakelyne Albuquerque Almeida;
- Tancredo de Lima Araújo;
- Rennier Martins Vasconcelos.
Todos tiveram seus registros profissionais suspensos. Também foi solicitado o bloqueio de R$ 20 milhões das contas de todos os investigados, incluindo 17 líderes de facção. A OAB-CE acompanha o caso para "assegurar a observância da legalidade dos atos praticados e a garantia das prerrogativas profissionais", conforme nota.