Irmão e aliados de 'Skidum' teriam usado site de apostas para lavar dinheiro para o CV no exterior

O grupo movimentou cerca de R$ 4,5 milhões em apostas e prêmios na plataforma Blaze, segundo a investigação.

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
29 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: O dinheiro ilícito entrava e saía do Brasil "maquiado" de apostas e prêmios.
Foto: Shutterstock/Wor Jun.

O grupo criminoso liderado por Carlos Mateus da Silva Alencar, o 'Skidum', um dos principais chefes do Comando Vermelho (CV) em Fortaleza, usou uma plataforma de apostas esportivas para "lavar" parte do dinheiro obtido pela facção com o tráfico de drogas. As maiores transações foram operadas por Renan Herbert Alencar da Silva, irmão do cabeça do esquema.

No último 14 de julho, conforme documentos obtidos pela reportagem, a Justiça estadual negou um requerimento da empresa Bazk S.A, que solicitou o desbloqueio bancário de R$ 4,5 milhões movimentados pelo grupo de 'Skidum' na plataforma "Blaze", conhecida pelo "jogo do aviãozinho". À época do crime, entre 2023 e 2024, a "bet" era operada pela empresa Prolific Trade N.V, com sede no exterior.

A Bazk atua como facilitadora de pagamentos internacionais e prestadora de serviços de eFX (Electronic Foreign Exchange). Na prática, segundo a representação jurídica da própria empresa, ela apenas recebe, processa e repassa pagamentos decorrentes de transações realizadas por consumidores brasileiros em sites de e-commerce fora do Brasil.

A decisão que contrariou o pedido da empresa foi proferida pelo Colegiado da Vara de Delitos de Organizações Criminosas da Comarca de Fortaleza. Os magistrados consideraram que o grupo apontado como "operador financeiro" do CV movimentou exatamente o valor bloqueado, o que reforça os indícios de lavagem de dinheiro. Além disso, a Bazk não forneceu aos investigadores a identificação dos responsáveis pelas transações e os destinatários finais dos recursos, que podem ser empresas controladas pela facção carioca no exterior.

Na sexta-feira (24), a Justiça do Ceará determinou ainda que a empresa Foggo Entertainment Ltda, que opera atualmente a Blaze no Brasil, informe à autoridade policial do Estado quem seriam os beneficiários finais do dinheiro supostamente ilícito e detalhe o pagamento de prêmios de apostas no valor de R$ 400 mil a Renan Herbert, irmão de 'Skidum'.

O comunicado foi enviado formalmente à Foggo na última segunda-feira (27). O Diário do Nordeste procurou a empresa para um posicionamento sobre o assunto e questionou se ela adota mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro.

Em nota, a Foggo informou que "não comenta sobre procedimentos administrativos ou processos judiciais em andamento, mas reafirma seu compromisso de atuar em estrita conformidade com a legislação vigente e de colaborar plenamente com as autoridades competentes e o Poder Judiciário sempre que solicitada".

Dinheiro entrava e saía do País 'maquiado' como apostas e prêmios

Em relatório enviado às autoridades cearenses, a Bazk detalhou as movimentações dos quatro supostos principais operadores financeiros do CV e aliados de 'Skidum':

  • Renan Herbert Alencar da Silva: irmão de 'Skidum', teria enviado R$ 1 milhão em apostas e recebido R$ 400 mil em supostos prêmios;
  • Alexandre Xavier de Sousa: suposto "laranja", teria movimentado R$ 1 milhão em depósitos;
  • Kamily da Frota do Nascimento: uma das "companheiras" do líder do CV, teria movimentado cerca de R$ 580 mil;
  • Janaina Gomes de Souza: tida como outra "companheira" de 'Skidum', teria movimentado aproximadamente R$ 359,5 mil.

Outros nomes também são classificados como "operadores financeiros" da facção criminosa no Ceará, mas esses teriam utilizado os cadastros de integrantes do núcleo principal do esquema para realizar pagamentos cruzados na plataforma de apostas. No total, todas as transações, incluindo as de "terceiros", somaram R$ 4,5 milhões.

Nos documentos obtidos pela reportagem, a Delegacia de Combate aos Crimes de Lavagem de Dinheiro (DCLD), responsável pela investigação, aponta que o volume e a frequência das transações levam a crer que o CV constituiu uma pessoa jurídica fora do Brasil, vinculada à plataforma de jogos esportivos, para receber o dinheiro do tráfico e devolver a operadores financeiros do crime no País, quando necessário.

Já a tese do Ministério Público do Ceará (MPCE), ainda conforme os documentos obtidos pelo Diário do Nordeste, é que a facção utilizou empresas facilitadoras de pagamento como uma camada de "difícil transposição" para os órgãos de controle devido à possibilidade de fluição do dinheiro para o exterior por meio de contratos de câmbio, dificultando o rastreamento do beneficiário final.

Em nota enviada à reportagem, a defesa de Renan Herbert, representada pelo advogado Roberto Castelo, informou que não irá se manifestar sobre o assunto e que "eventuais esclarecimentos serão prestados oportunamente, no momento processual adequado, sempre pelos meios legais e com observância ao devido processo legal". Não foram encontradas as defesas dos outros investigados. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

O que alega a empresa facilitadora dos pagamentos?

No pedido feito à Justiça para desbloquear os R$ 4,5 milhões, a Bazk alegou que sua responsabilidade é limitada ao processamento técnico do fluxo financeiro, sem relação direta com os produtos ou serviços oferecidos pelos sites de e-commerce estrangeiros que são seus clientes.

Nesse sentido, a empresa argumenta que as transações ilícitas atribuídas ao grupo de investigados já haviam sido processadas e remetidas ao exterior muito antes do bloqueio judicial, o que prejudicaria beneficiários terceiros, que nada teriam a ver com o esquema. Além disso, a facilitadora afirma ser impossível, para ela, responder aos questionamentos específicos feitos pela Polícia cearense sobre apostas, saldos ou beneficiários finais das transações, uma vez que não gerencia as plataformas de entretenimento.

A reportagem também buscou contato com a representação jurídica da Bazk para repercutir a última decisão judicial sobre o assunto e aguarda retorno.

Quem é 'Skidum'?

Dono de uma extensa ficha criminal envolvendo múltiplos assassinatos, 'Skidum', também conhecido como "Fiel", um dos principais líderes do Comando Vermelho no Ceará, é um dos criminosos cearenses que se escondem nas comunidades do Rio de Janeiro, enquanto segue dando ordens para crimes no Estado onde nasceu.

Legenda: "Skidum" é considerado foragido da Justiça.
Foto: Reprodução.

Ele era pescador no Grande Pirambu, em Fortaleza, e se aproximou do crime em 2014. Já no ano seguinte, foi acusado por um homicídio pelo Ministério Público do Ceará (MPCE). E, em 2021, mais recentemente, se tornou um dos líderes do CV.

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