Envolvido em extorsão e expulsão de moradores em Uiraponga é absolvido

Márcio Jailton da Silva, o 'Piolho', foi apontado como um dos comparsas de 'Playboy', o líder do Terceiro Comando Puro (TCP) na região.

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
04 de Agosto de 2026 - 06:00
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Legenda: Márcio Jailton da Silva, o 'Piolho', estava preso desde julho do ano passado.
Foto: Reprodução.

Um dos principais envolvidos na expulsão de moradores e na transformação do distrito de Uiraponga, em Morada Nova, em "território fantasma", foi absolvido do crime de integrar organização criminosa. Márcio Jailton da Silva, o 'Piolho', foi condenado a apenas um ano de prisão por ter sido flagrado em posse ilegal de arma de fogo. Como estava detido preventivamente desde o ano passado na Unidade Prisional de Quixadá, a Justiça entendeu que ele já cumpriu a pena e expediu o alvará de soltura do custodiado no último dia 27 de julho.

'Piolho' foi apontado durante as investigações da Polícia Civil, conforme documentos obtidos pela reportagem, como um dos comparsas e executores diretos das ordens de José Witals da Silva Nazário, o 'Playboy', considerado o principal responsável pelo clima de terror e caos instaurado na região no ano passado. Ele teria participado de homicídios em série e contribuído para as extorsões, ameaças e expulsões que marcaram a "guerra" por território.

Mesmo assim, foi solto, porque o Colegiado da Vara de Delitos de Organizações Criminosas da Comarca de Fortaleza entendeu que as provas juntadas aos autos não eram suficientes para condená-lo por integrar organização criminosa. No entanto, por ter sido flagrado pela Polícia escondendo um revólver debaixo da cama na casa onde morava, em Quixadá, foi condenado apenas pela posse ilegal de arma de fogo de uso permitido.

Falta de provas

Na decisão que absolveu 'Piolho', a Justiça reforçou que as informações colhidas durante a investigação foram apenas de natureza inquisitorial e não conseguiram ser confirmadas por provas autônomas produzidas em Juízo. Além disso, a perícia nos aparelhos celulares apreendidos com 'Piolho' não apontou elementos que o associassem a organizações criminosas.

Os magistrados da Vara de Organizações Criminosas também consideraram que não foi feita a perícia de confronto balístico para ligar a arma apreendida em poder do investigado aos homicídios praticados em Uiraponga no primeiro semestre de 2025.

Como começaram os conflitos em Uiraponga?

Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) à Justiça, a disputa por território em Uiraponga começou quando 'Playboy' se desentendeu com um antigo aliado, Gilberto de Oliveira Cazuza, o 'Mingau', então líder da facção Terceiro Comando Puro (TCP) na região.

Com a ajuda de 'Piolho' e de outros do bando, 'Playboy' encabeçou uma campanha de extrema violência para derrubar o domínio do adversário e tomar o poder. Só que não se limitou a atacar os integrantes da facção rival, e se voltou deliberadamente contra toda a população da localidade, expulsando cerca de 230 famílias e impondo o medo como estratégia de dominação.

Uiraponga é um pequeno distrito de Morada Nova, na região do Vale do Jaguaribe.
Legenda: Uiraponga é um pequeno distrito de Morada Nova, na região do Vale do Jaguaribe.
Foto: Thiago Gadelha.

O Diário do Nordeste teve acesso a documentos da denúncia apresentada pelo MPCE à Justiça contra 'Piolho'. Embora 'Playboy' tenha sido apontado como braço direito antigo de 'Mingau' no TCP, não fica claro, no processo, se o criminoso seguiu na facção após o rompimento com o ex-patrão. Há indícios, contudo, de que ele tenha articulado parcerias com a Guardiões do Estado (GDE) e com o Primeiro Comando da Capital (PCC) para se fortalecer e tentar tomar o comando de Uiraponga. Ele foi preso em São Paulo, para onde fugiu.

Homicídios em série, ameaças e extorsões

Contra 'Piolho', especificamente investigado por integrar organização criminosa e posse ilegal de arma de fogo, a Polícia descobriu uma teia de crimes graves envolvendo ao menos oito homicídios só no primeiro semestre do ano passado, além de extorsões contra criadores de camarão, ameaças, roubos e tráfico de drogas na região do Vale do Jaguaribe.

Relatórios técnicos obtidos pelo Diário do Nordeste também sugeriram que ele contava com uma rede de apoio que o informava sobre diligências policiais e possíveis "emboscadas".

Além disso, consta em registros antigos no sistema da Administração Penitenciária que o homem já havia se identificado como pertencente à GDE, mas que teria trocado de facção após se aproximar do TCP em Uiraponga.

Depoimentos de delegados em documentos obtidos pela reportagem também mencionaram 'Piolho' como integrante de uma facção local denominada "Cangaço", que teria sofrido um racha interno, gerando dois outros grupos que se aliaram a facções maiores, como TCP e GDE, para disputar o comando do distrito de Morada Nova.

Volta de moradores ao distrito

Um ano depois, moradores que abandonaram suas casas por medo da guerra entre facções pelo domínio de Uiraponga voltaram a se sentir minimamente seguros para se acomodar de novo no distrito — especialmente após a instalação de uma base da Polícia Militar no local.

O Diário do Nordeste foi à localidade no último mês de julho e se deparou com uma rotina pacata, com idosos se exercitando na praça principal, crianças brincando e pessoas conversando na calçada de casa. À reportagem, à época, a Prefeitura de Morada Nova garantiu que amparou as famílias afetadas pelo êxodo, ofertando aluguel social, cestas básicas e suporte contínuo pelo Centro de Referência de Assistência Social (CRAS).

A administração municipal também afirmou que retomou serviços essenciais no distrito, como escolas e posto de saúde. 

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