Local que foi chamado de 'cidade fantasma', o pequeno distrito de Uiraponga, em Morada Nova, interior do Ceará, tem se reinventado após ser assolado pela "guerra" entre facções criminosas. Há exatamente um ano, em julho do ano passado, moradores tiveram de deixar suas casas após um homicídio em praça pública, seguido de uma série de ameaças.
Desde o último dezembro, algumas famílias começaram a voltar, e, neste ano, o movimento de retorno aumentou, apesar de ainda haver muitas ruas vazias. O policiamento agora é 24 horas, pois há uma base da Polícia Militar e um destacamento da Corporação em construção, a ser inaugurado nos próximos dias, segundo a Prefeitura de Morada Nova.
Até julho do ano passado, cerca de 230 famílias moravam na sede do distrito e parte das pessoas deixou o local por conta das ameaças. Antes disso, já havia movimento de saída de Uiraponga por outros motivos, segundo o relato de moradores do vilarejo.
é o número de famílias que já retornaram à Uiraponga
Nas últimas semanas, o povoado foi centro de um embate político, que começou como um problema de segurança pública. Durante a inauguração de novos equipamentos no distrito, a presença do governador Elmano de Freitas (PT) fez o deputado federal André Fernandes (PL) gravar um vídeo em Uiraponga na semana passada, mostrando ruas e casas vazias à noite, classificando o local como uma "cidade fantasma" e acusando o governo de contratar "atores".
O Diário do Nordeste foi ao local, a cerca de 189 quilômetros de Fortaleza, esteve presente durante a manhã, a tarde e o início da noite e conheceu o cotidiano de uma comunidade que há 1 ano sofre com as sequelas do conflito entre grupos armados, mas que tem se reerguido.
O que a reportagem viu foram idosas se exercitando na praça principal, crianças brincando, pessoas nas calçadas de casa conversando e bebendo no conhecido Bar do Cleto. É uma nova realidade, mais pacata, com menos moradores, mas há vida no distrito.
'Se for cidade fantasma eu sou um deles', diz moradora
A auxiliar de serviços gerais, Cíntia Paula Silva Oliveira, nascida e criada em Uiraponga, é uma das habitantes que voltou a morar no distrito, mas passou meses afastada com medo, após ameaças de facção. Ela já retornou em março, junto a outras famílias, e garante que o local não é uma cidade fantasma.
"Se for fantasma, eu sou um deles, porque eu estou aqui desde março", disparou.
Cíntia pontua, porém, uma nova realidade: "Nos primeiros dias, a gente sentava na calçada e não via ninguém, mesmo, mas nunca deixou de ter morador. Antes eram poucos, você não via esse 'trânsito' de gente que vemos hoje, que é outra realidade".
A dona de um dos apenas dois mercadinhos existentes no vilarejo, que pediu para não ser identificada por questões de segurança, nunca deixou o distrito, mesmo com a situação de insegurança que se criou em julho de 2025.
O portão constantemente trancado foi a única 'segurança extra' da idosa, além de "Deus", segundo ela. O comércio nunca fechou, pois, segundo ela, "não tinha pra onde ir". Ela mora em Uiraponga com o marido e um dos filhos.
"Tudo que a gente tem é aqui, tudo que a gente fez, produziu, plantou e construiu é aqui. Como que a gente ia sair daqui de repente?", aponta.
Na contramão, há ainda quem ainda tenha medo de retornar, como a dona Mazé do Nascimento, que atualmente está na casa de uma familiar passando alguns dias: "O pessoal pergunta se eu vou voltar, eu não sei. Não vou dizer que não volto mais, porque eu nasci e me criei aqui. Mas eu não esqueço [a violência]. Agora não, sei não. Deus que sabe".
Recomeços
A prefeita de Morada Nova, Naiara Castro, enfatizou que a localidade vive um processo de recomeço e esperança após o período de insegurança que causou o êxodo de moradores.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, a prefeita rebateu críticas sobre a suposta omissão da prefeitura e afirmou que a administração municipal agiu "prontamente" para amparar as famílias que foram forçadas a deixar suas casas. Entre as medidas implementadas, Naiara Castro citou a concessão de aluguel social, distribuição de cestas básicas e o suporte contínuo por meio do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS).
Na área da educação e saúde, a estratégia foi garantir que o atendimento não fosse interrompido. "Nós criamos rotas escolares para que a gente não pudesse deixar esses alunos se espalharem. A gente queria que os alunos de Uiraponga ficassem juntos", afirmou.
"A verdade cabe em todo lugar", declarou Naiara pontuando que respeitou o sofrimento dos moradores e preferiu focar na busca por soluções junto ao governo estadual em vez de alimentar "palanques políticos".
Para a gestora, Uiraponga deve ser vista como uma potência cultural e econômica composta por cidadãos de bem que merecem ter sua dignidade e paz devolvidas.
Serviços essenciais retomados
Afetados pela crise de segurança pública que se instaurou no distrito, os serviços essenciais, como escolas e posto de saúde, também já foram retomados nos últimos meses. Atualmente, a Unidade Básica de Saúde dispõe de um médico, um enfermeiro, um técnico de enfermagem e um dentista.
À reportagem, uma funcionária relatou que o posto de saúde não chegou a "fechar". O movimento teria caído, por consequência do êxodo de moradores, mas os profissionais de saúde permaneceram assistindo à comunidade, tanto na sede do distrito quanto nas localidades rurais mais afastadas.
A Escola Francisco Galvão de Oliveira, que fechou as portas e transferiu alunos para uma instituição improvisada na sede de Morada Nova, voltou a receber alunos em 2026. A escola chegou a servir de base para policiais militares (PMs).
A Prefeitura de Morada chegou a decretar "situação anormal e emergencial" na localidade, devido ao agravamento da situação. Um decreto de agosto de 2025 autorizou o Município a tomar medidas excepcionais, como reorganizar o serviço público essencial.
O decreto permitiu:
- Reorganizar, especialmente, educação, saúde, transporte escolar, assistência social, limpeza urbana, abastecimento de água, iluminação e infraestrutura.
- Transferir temporariamente estudantes para escolas em localidades consideradas seguras.
- Alterar rotas e contratos do transporte escolar para atender à nova realidade.
- Remanejar atendimentos de saúde para outras unidades.
- Substituir ou transferir temporariamente profissionais que se recusem a atuar na região por questões de segurança.
- Ajustar contratos de serviços públicos essenciais mediante termos técnicos ou aditivos.
- Implementar ações humanitárias, incluindo transporte, apoio psicossocial e atendimento às famílias afetadas.
Guerra entre TCP x GDE causou insegurança
O deslocamento em massa da população se deu após integrantes da facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP) tomarem controle da região e ordenarem a expulsão de membros da Guardiões do Estado (GDE). O estopim, segundo relembram moradores, foi quando um homem foi executado a tiros na praça central do distrito.
Documentos aos quais o Diário do Nordeste obteve acesso apontam que foi instituída na região "uma violenta disputa territorial entre facções criminosas que resultou em um estado de terror generalizado, homicídios brutais e, de forma mais contundente, na expulsão forçada de dezenas de famílias, gerando um verdadeiro êxodo e a completa desarticulação da vida social e dos serviços públicos na comunidade".
Grupo liderado por José Witals da Silva Nazário, o 'Playboy', articulador do TCP, era quem ordenava os crimes em Uiraponga. Ele foi preso em São Paulo em 28 de julho de 2025.
Os episódios fizeram a Polícia Militar passar a estar 24 horas na localidade, em uma força-tarefa para tentar devolver à população a sensação de segurança.
Desde julho de 2025, o distrito não registra homicídios
As informações mais recentes da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) dão conta de que o distrito segue com policiamento fixo, o que foi comprovado pela reportagem no local. "A região conta com policiais militares lotados no Policiamento Ostensivo Geral (POG) e no Comando de Prevenção e Apoio às Comunidades (Copac) da Polícia Militar do Ceará (PMCE)", informou a pasta, em nota.
O distrito também conta com cinco câmeras de videomonitoramento e rondas de equipes do Batalhão Especializado em Policiamento do Interior (Bepi) e Comando de Policiamento de Rondas e Ações Intensivas e Ostensivas (CPRaio).
As ofensivas contra os criminosos que causaram dano e incitaram violência na região resultaram em 13 pessoas capturadas, conforme a SSPDS.
Créditos
Matheus Facundo, Repórter | Emerson Rodrigues, Supervisor de Jornalismo | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | Louise Dutra , Arte | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo