Segurança

Comerciantes, aposentados e artistas: as pessoas que lutam pra reerguer 'ex-território fantasma'

Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
16/07/2026 - 06:00

Na busca de superar o estigma de "território fantasma" e do vilarejo que foi expulso de casa por facções criminosas, os moradores do distrito de Uiraponga, em Morada Nova (CE), tentam voltar à sensação de normalidade e lutam. Por meio do comércio, da sociabilidade, da arte e da educação, a comunidade tem se unido há meses, desde que o movimento de retorno para casa se intensificou. 

Após um período marcado pelo esvaziamento, o local vê retorno de suas famílias e retomada do comércio, ainda que de forma tímida. O distrito tem atualmente em funcionamento dois mercadinhos e um bar.

Francisco Cleto de Oliveira, dono do Bar do Cleto há mais de 40 anos, havia fechado o estabelecimento em julho do ano passado para se refugiar em Morada Nova. No retorno em março deste ano, ele se surpreendeu: "Já estava melhor do que quando eu estava aqui antes. Estou vendendo mais do que quando eu estava aqui". 

"A nossa esperança é sair essa estrada aí [obra em construção], aí vai botar mais gente ainda, vai melhorar muito. E, no fim de semana, o povo aqui está voltando tudinho (sic). Eles já vêm para o final de semana aqui. Está muito mais seguro, é segurança direto", revela. 

A obra a qual Cleto se refere é a pavimentação em piso intertravado que dá acesso de Morada Nova ao distrito de Uiraponga e tem prazo de 12 meses de conclusão. 

A prefeita de Morada Nova, Naiara Castro destacou que há um investimento total de mais de R$ 20 milhões em parceria com o Governo do Estado. Ela ressaltou que a obra priorizou a geração de emprego local, contratando moradores do próprio distrito para os trabalhos de asfalto e construção de uma areninha. 

Outro exemplo de resiliência é o de Aurino Bento, de 65 anos, que voltou a morar em Uiraponga há cinco meses e abriu um pequeno comércio com o objetivo de atrair as pessoas de volta e "comemorar a vida do Uiraponga".

Seu Arino montou um bar após retornar para Uiraponga.
Legenda: Seu Arino montou um bar após retornar para Uiraponga.
Foto: Thiago Gadelha.

"Esse mês agora é um mês que o pessoal gosta muito daqui, viu? As festas da padroeira aí, todo mundo quer vir aqui, quem tiver fora vem, embora não seja para ficar, mas vem passar os dias aqui, viu?", conta. 

Aurino espera que os dias seguintes sejam de tranquilidade: "Se não houver mais problema com a violência, eu acredito que vai ser bem legal... é o que todo mundo espera". 

Esperança na arte 

A partir deste fim de semana, inclusive, começam os festejos da padroeira da cidade, época mais movimentada do ano na localidade. Junto com esse período chega também uma iniciativa criada para celebrar a vida e o retorno da normalidade em Uiraponga, o Festival Movimenta, promovido pela Associação Sertão Junino de Uiraponga (Aserju) e pela Secretaria de Cultura de Morada Nova. 

Jonh Darley, professor, articulador cultural e integrante da Aserju, defendeu que o sonho dele é que o local onde ele cresceu volte aos seus "dias de glória" e frisou que "Uiraponga vive sim". 

Jonh é um dos articuladores culturais de Uiraponga, e está organizando festejos para movimentar o distrito.
Legenda: Jonh é um dos articuladores culturais de Uiraponga, e está organizando festejos para movimentar o distrito.
Foto: Thiago Gadelha

"Nossa comunidade não está vazia. Pode não ser como antes, porque houve sim um processo de esvaziamento, que é inclusive de antes de tudo isso. [...] A gente nunca quis sair daqui, mas infelizmente precisamos. E quem está se sentindo à vontade para voltar, vai voltar, mas a gente também precisa respeitar quem não quer voltar", diz.

Sobre os próximos eventos, o professor e agitador cultural diz que: "Nós estamos fazendo um festival multicultural esse mês. Como é um mês de festividades da comunidade, a gente tentou englobar tudo, e a gente tem três finais de semana desse festival, que é o Festival Movimenta. Tem oficina de pintura, oficina de teatro, apresentações teatrais, musical vivo, exposição de artesanato, feira gastronômica".

Uma ex-moradora foi ao vilarejo e realizou uma série de intervenções que ajudam a "levantar a moral" dos habitantes. Ela não deu entrevista à reportagem, mas comentou que quer usar seu trabalho de artista para ajudar na retomada das atividades do distrito. 

Distrito se prepara para semana de festividades.
Legenda: Distrito se prepara para semana de festividades.
Foto: Thiago Gadelha.

Expulsão forçada causou traumas psicológicos

Para a maioria dos moradores que tiveram de deixar o distrito no último ano, a decisão foi motivada pelo impacto psicológico da violência

Maria Iracema Bento Timóteo, de 66 anos, relata que ela e o marido chegaram a desenvolver quadros depressivos e nervosismo devido à insegurança.

"Nós não temos estrutura para a violência", afirmou Iracema, que só se sentiu segura para voltar para casa recentemente. Quando a reportagem a encontrou, ela estava na praça central se exercitando, e com muito otimismo. 

Dona Iracema revelou que voltou a se sentir segura em Uiraponga.
Legenda: Dona Iracema revelou que voltou a se sentir segura em Uiraponga.
Foto: Thiago Gadelha.

"Agora já estou [me sentindo] bastante segura. Venho para cá e não tenho medo. Eu estou passando esse mês todinho de julho aqui, eu e o meu marido, e a gente não tem medo porque tá tudo normal, como era antes. Só está faltando retornar o resto das famílias que saíram, mas já voltaram bastante", conta. 

O êxodo em massa foi recordado por José Bento Neto como um efeito de cascata: quando alguns líderes da comunidade decidiram sair, o restante da população os seguiu.

Hoje, na calçada de casa, na praça, no mercadinho ou na mesa do bar do Cleto, os moradores da pequena comunidade, que um dia já teve cerca de 2 mil pessoas morando, seguem com esperança de dias melhores. 

Créditos

Matheus Facundo, Repórter | Emerson Rodrigues, Supervisor de Jornalismo | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | Louise Dutra , Arte | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

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