Quatro acusados de participar da morte do policial penal José Wendesom Rodrigues de Lima, em Fortaleza, em 2025, vão a júri popular, segundo decisão da Justiça cearense. O grupo criminoso, que contém integrantes do Pará, teria se unido para tentar resgatar dois líderes do Comando Vermelho (CV) que estavam presos no Complexo Penitenciário de Itaitinga, mas o plano foi descoberto pelo policial morto, que integrava uma célula de Inteligência.
Segundo decisão publicada no último dia 30 de julho, há indícios de que os quatro réus cometeram crimes de homicídio qualificado e organização criminosa e, por isso, eles foram pronunciados, ou seja, serão submetidos ao Tribunal Popular do Júri. Eles ainda serão julgados pela tentativa de homicídio de um segundo policial penal, Dyerlan Nunes de Almeida, que, no dia do crime, revidou e feriu um dos réus.
O crime ocorreu em janeiro de 2025, quando policiais penais da Coordenadoria de Inteligência (Coint) da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização do Ceará (SAP) estavam monitorando um grupo do CV que estava hospedado em uma pousada na Praia de Iracema. Comparsas dos criminosos perceberam a chamada "campana", na linguagem policial, feita pelos agentes e chegaram atirando contra o carro descaracterizado.
Conforme documentos obtidos pela reportagem, o policial penal sobrevivente do ataque criminoso relatou à 11ª Delegacia do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) que chegou a visualizar um veículo Volkswagen T-Cross se aproximar e dois suspeitos saírem.
Os investigadores estavam prontos para filmar os criminosos, mas não esperavam ser alvejados. O depoente ainda conseguiu revidar e balear um atirador.
Os réus pronunciados são:
- James Heyller Gola Souza, 'Lorim Dinamite'/'Louro'/'Bodão': contratado como 'explosivista' para detonar a muralha do presídio; no dia do crime, dirigiu o veículo T-Cross usado na ação e na fuga.
- Will Pessoa da Silva, o 'Davi'): desceu do carro e atirou diretamente contra os policiais; feriu-se ao ser baleado pela vítima sobrevivente; liderança do CV no Pará.
- Rafael Brasil da Silva, conhecido como 'Rafinha': identificou o veículo descaracterizado da polícia e deu apoio logístico a bordo de outro carro (Toyota SW4), ordenando o ataque aos ocupantes do Onix.
- Francisco Gleydson Rodrigues da Costa, o 'Americano': aparece em imagens de câmeras de segurança circulando com Rafael Brasil no condomínio de hospedagem do grupo, associado à logística/organização da ação.
Outro suspeito, que chegou a ser denunciado pelos crimes, mas não estará no banco dos réus, pois o processo foi suspenso contra ele é Roberto Júnior Pereira Proença. O homem foi considerado réu à revelia, e teve de ser citado por edital, pois não foi localizado.
O Diário do Nordeste tentou contato com as defesas de Will, Rafael e Francisco Gleydson. A defesa de James não foi localizada. O espaço segue aberto.
Plano de explodir muralha de presídio
Segundo as investigações, o grupo fez uma espécie de "consórcio" entre integrantes do CV do Ceará e do Pará para resgatar os custodiados Gutielio da Silva e Fabrício Mendes de Moraes. Esse último, inclusive, também estaria por trás da autoria intelectual do plano, junto ao irmão Fabrício Mendes de Moraes.
Os policiais penais, alvos dos tiros, já investigavam os criminosos. A suspeita é que o plano era para explodir a Unidade Prisional Professor José Jucá Neto (UP-Itaitinga 3).
A explosão ficaria por conta do réu James Heyller Gola Souza, conhecido pelas alcunhas de 'Louro' ou 'Lorim dinamite', pois ele seria ex-militar do Exército Brasileiro, e teria "supostas habilidades explosivas", que seriam usadas a serviço do CV. Ele receberia R$ 250 mil para o "serviço".
O plano envolveria supostamente 25 faccionados armados com fuzis, além de um drone equipado para lançar granadas durante o resgate.
Tais circunstâncias revelam o elevado grau de periculosidade dos acusados, bem como o fato de estarem supostamente envolvidos em incidente de tentativa de fuga de outros custodiados, evidenciando o risco concreto de suas próprias fugas, sendo temerária a sua permanência em unidade prisional convencional que, em tese, não possui condições de abrigar um recluso dessa envergadura, consequentemente colocando em risco a ordem pública, fazendo-se necessária a sua transferência à unidade prisional de segurança máxima.
Crime desencadeou operações e confrontos letais
O assassinato do policial, que estava em pleno serviço, mobilizou as Forças de Segurança e desencadeou uma série de operações que terminaram com prisões e até confrontos letais entre policiais e suspeitos.
Minutos após o crime, duas prisões foram efetuadas no Centro de Fortaleza. O paraense Isaac Lucas Oliveira de Azevedo, de 29 anos, foi localizado e preso em uma pousada com 10 kg de cocaína, maconha e mais de 500 munições (inclusive de fuzil). No mesmo bairro, Nonato Lopes dos Santos, 31, natural do Amazonas, foi detido com munições e uma pistola 9mm com numeração raspada. Os dois foram autuados por tráfico e porte de arma; mas a polícia apurou que eles não participaram diretamente do homicídio do policial penal.
A terceira prisão ocorreu no bairro Bonsucesso, também na capital cearense, no dia 28 de janeiro do ano passado, quando James, natural do Pará, foi abordado na posse do veículo utilizado na morte do policial, o qual ele estaria dirigindo. Ele foi autuado em flagrante por homicídio e o automóvel foi apreendido.
Will Pessoa da Silva, também natural do Pará, foi preso em um flat na Avenida Beira Mar, na manhã de quarta-feira (29). Ele seria um dos atiradores do ataque criminoso aos policiais penais, motivo pelo qual foi autuado em flagrante por homicídio.
As buscas continuaram no bairro Moura Brasil, um dos redutos do CV, e usado como refúgio pelos suspeitos. A forte presença policial gerou denúncias de truculência e invasões de domicílio por parte de moradores, que realizaram um protesto em 30 de janeiro. Entretanto, à época, a Polícia Militar informou que atuou "dentro da legalidade".
Na noite do mesmo dia, a operação culminou em um confronto no bairro, em que três suspeitos que teriam resistido à abordagem foram mortos. São eles:
- Wellison Gonçalves da Silva, o 'Pica-Pau': liderança do Comando Vermelho no Pará e apontado como um dos atiradores do policial penal;
- Luan Henrique Bezerra de Souza, 'Bochecha': também vindo do Pará para o plano do resgate do presídio;
- Uma mulher não identificada: suspeita de integrar a organização criminosa.