A Justiça do Ceará decidiu que três integrantes do Comando Vermelho (CV), acusados de assassinar outro que teria "delatado" traficantes à polícia em agosto de 2025, vão ser submetidos ao Tribunal Popular do Júri. O assassinato de Wanbasten da Silva Rocha, conhecido como 'Cantor', ocorreu no bairro Couto Fernandes, em Fortaleza, quando ele foi perseguido e alvejado com diversos tiros de arma de fogo na cabeça e no pescoço.
O julgamento ocorrerá na 6ª Vara do Júri de Fortaleza e ainda não tem data marcada. A decisão de pronúncia, ou seja, quando é confirmado que os réus serão julgados, foi publicada no último dia 21 de julho. Cabe recurso da decisão.
O trio de réus responde por homicídio qualificado, por motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa, além de organização criminosa.
Os réus são:
- Erick Breno Gadelha, vulgo 'Mistério'.
- Roberlândio Wanderson Canuto de Melo, vulgo 'Calanguinho' ou 'HG'.
- José Cláudio Félix dos Santos.
Segundo a denúncia do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), oferecida à Justiça em dezembro passado, o autor intelectual do assassinato seria José Cláudio. Ele seria um dos traficantes que "comanda a área" no bairro Couto Fernandes.
Em nota, a defesa de José Cláudio informou que as acusações se sustentam, "predominantemente em relatos indiretos e interpretações subjetivas, sem a existência de prova concreta de que José Cláudio tenha determinado, planejado, financiado ou participado do homicídio investigado."
A advogada Larissa Moreira pontuou que vai entrar com recurso contra a pronúncia e disse que tem "convicção" de que não há elementos que condenem o cliente.
Já Roberlândio e Erick seriam os executores diretos. Roberlândio teria iniciado os disparos, seguido por Erick, que teria "finalizado o serviço". Erick admitiu, conforme os autos processuais, que havia ameaçado a vítima anteriormente por uma dívida de R$ 200, relativa a um celular "empenhado".
As advogadas Yvina Cavalcante de Lima e Carolina Linge Elias de Oliveira, que patrocinam a defesa de Roberlândio, informaram que respeitam a decisão, mas já recorreram, pois a instrução processual "não produziu indícios suficientes de autoria".
"Ao longo da persecução penal, não foi apresentado qualquer elemento de prova que vinculasse diretamente o acusado aos fatos investigados, prevalecendo relatos indiretos, baseados em informações de "ouvir dizer", sem confirmação por provas produzidas sob o crivo do contraditório. É justamente essa insuficiência do conjunto probatório que fundamenta o Recurso em Sentido Estrito (RESE) já interposto pela defesa", pontuaram as advogadas.
Erick é representado pela Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPCE), que também defendeu falta de provas para comprovar a autoria do réu. A Defensoria informou que vai recorrer da decisão que determinou que o acusado seja julgado pelo Tribunal do Júri.
"A instituição reafirma seu compromisso com a garantia dos direitos de defesa e informa que adotará todas as medidas previstas na legislação para assegurar o devido processo legal, o direito à ampla defesa e ao contraditório".
O trio possui vasta ficha criminal. O suposto líder, José Cláudio, responde por receptação e já tem passagens por crimes de porte ilegal de arma de fogo. Erick tem condenação por tráfico de drogas e Roberlândio tem uma série de condenações por roubo qualificado em mais de uma vara criminal de Fortaleza.
Vítima teria sido 'decretada'
A vítima, que foi "decretada" para morrer nos moldes do "tribunal do crime", sofreu uma série de ameaças antes de ser morta. No dia do crime, na madrugada de 9 de agosto de 2025, Wanbasten saiu de casa para, segundo a família, levar um amigo ao hospital, mas depoimentos sigilosos contidos na investigação apontam que ele foi enganado e atraído para a morte.
O crime se deu na Rua José Bastos, em um local descrito como "ermo". A emboscada começou após Erick e Roberlândio surgirem no endereço, fazendo a vítima tentar fugir.
Entretanto, múltiplos disparos frustraram a fuga. A perícia constatou sete entradas de projéteis no corpo da vítima, concentradas principalmente no rosto e no pescoço.
A família descobriu a morte por volta das 02h30 daquela madrugada. Ainda segundo a denúncia, que contém informações sobre as investigações, um dos réus passou em frente à casa da mãe da vítima em uma motocicleta.
Cláudio teria parado e feito um deboche: "Quem manda teu filho entregar traficante?".