O Ceará promete ter um papel relevante na estratégia de campanha dos políticos da direita que já lançaram seus nomes na disputa para a Presidência da República. Dos quatro pré-candidatos desse espectro político que estiveram no estado em 2026, todos eles exploraram a temática da segurança pública tendo o contexto local de crise como mote.
Um levantamento do PontoPoder mostra que estiveram no estado, em diferentes compromissos, Flávio Bolsonaro (PL), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD).
Além dos mencionados, o Ceará ainda não recebeu os demais pré-candidatos identificados com a direita para agendas públicas. Não marcaram presença em eventos ou não fizeram outras aparições no estado os políticos Cabo Daciolo (Mobiliza), Joaquim Barbosa (DC) e Heró Bezerra (PRTB).
Renan Santos
No final de janeiro, o paulista Renan Santos foi o primeiro a desembarcar em território cearense para uma incursão por diversas cidades. Fortaleza, Morada Nova, Sobral e Santa Quitéria foram alguns dos municípios por onde ele passou.
Na cidade de Santa Quitéria, a liderança do Movimento Brasil Livre (MBL) prometeu uma intervenção federal por conta dos indícios da intervenção do Comando Vermelho (CV) nas eleições de 2024, apurados pela Polícia Federal numa investigação envolvendo o ex-prefeito Braguinha (PSB), e o potencial de extração de urânio da região.
Entre outras movimentações, Renan Santos produziu conteúdos criticando o atraso na conclusão das obras da Ferrovia Transnordestina — que liga o Ceará aos estados de Pernambuco e Piauí —, foi ao povoado de Uiraponga, em Missão Nova, e realizou um ato com apoiadores na Praia de Iracema, localizada na capital cearense.
E, em junho, ele prometeu, ao lado do pré-candidato do Missão ao Governo do Estado, Delegado Huggo Leonardo, a construção de um mega presídio com capacidade para 50 mil detentos. Segundo ele, as dimensões do equipamento, capaz de dobrar a população carcerária estadual, se justificaria porque o Ceará seria "o estado que mais apresenta a tal da tomada territorial por parte de facções".
O nome da unidade penitenciária, voltada para o encarceramento de membros do crime organizado, disse o político, deverá homenagear a cozinheira do destacamento da Polícia Militar de Saboeiro, Antônia Ione, que foi assassinada em outubro do ano passado após recusar a proposta de integrantes de um grupo criminoso para envenenar policiais militares.
Ronaldo Caiado
Em junho, foi a vez do ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, visitar o Ceará. Ele esteve em uma agenda em Fortaleza e em Maracanaú, na região metropolitana da capital. A primeira parada do político foi no Centro de Eventos do Ceará, onde participou de um evento do agronegócio e comentou sobre assuntos como as arrumações para a formação do palanque no estado, assim como criticou a gestão da segurança pública.
Ao ser questionado por jornalistas sobre o assunto ser seu "mote de campanha", ele negou. De acordo com ele, esta seria "uma realidade" que conseguiu superar no estado que governou. "As quatro cidades mais violentas no país eram em Goiás, no entorno de Brasília. Então, eu conheço a violência, a realidade que as pessoas, principalmente as mais humildes, viviam ali escravizadas pelo narcotráfico", disse.
"Penitenciária, faccionado só conversa com Deus. Lá não tem visita íntima ou visita com advogado que não seja gravada. Existe um sistema de inteligência artificial de combate ao crime. Nossos batalhões são 100% especializados", listou o pré-candidato ao mencionar as alterações promovidas pela sua equipe de governo durante o período que comandou o Palácio das Esmeraldas.
Conforme alegou Ronaldo Caiado, "segurança pública é condição de governabilidade" e que não existe Estado Democrático de Direito sem que haja uma gestão efetiva nesta área. "Não vai ficar um palmo de terra ocupada por faccionado, sob o comando do crime no Brasil", prometeu.
Romeu Zema
Já o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, viajou ao Ceará no início deste mês. Ele participou de eventos partidários focados na pré-campanha e reforçou o palanque ao lado do senador Eduardo Girão, pré-candidato do partido Novo ao governo estadual.
Ele aproveitou a visita para gravar vídeos em Fortaleza e em Caucaia. O roteiro de localidades em que gravou conteúdos incluiu o bairro Vila Velha, o terreno da Universidade Federal do Ceará (UFC) na Praia de Iracema — onde seria construído o Acquario Ceará — e o Mercado de São Sebastião.
Um dos temas explorados foi a expulsão de moradores por organizações criminosas na periferia da capital alencarina. "Desde 2024, as facções criminosas já expulsaram moradores de 49 bairros daqui de Fortaleza. Uma família deixando a casa a cada três dias. Isso não é normal", criticou o partidário.
Em Caucaia, Zema destacou a informação de que Caucaia é a segunda cidade mais violenta do país "há seis anos seguidos". "São 72 homicídios a cada 100 mil habitantes, quase quatro vezes a média do Brasil — o que já é um absurdo", frisou o político, que também falou sobre o volume de feminicídios registrados em território cearense. Nas palavras dele, a culpa seria da gestão estadual comandada pelo governador Elmano de Freitas (PT).
Flávio Bolsonaro
E, entre os pré-candidatos ao Palácio do Planalto da direita, o último a desembarcar no Ceará foi o senador fluminense Flávio Bolsonaro, na última sexta-feira (10). Ele participou de um evento no bairro da Maraponga, em Fortaleza, que oficializou a pré-candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes (PL) ao Senado Federal.
Em seu discurso, Flávio reforçou críticas à segurança pública e indicou que o combate ao crime organizado será uma das principais bandeiras de sua campanha para presidente da República. "Quero dizer para as facções criminosas que vocês têm até 31 de dezembro para meterem o pé do nosso país ou serão presos ou neutralizados", falou.
"Dá uma tristeza saber que o Ceará está entregue aos 'narcoterroristas'. Ao mesmo tempo, isso nos dá mais força para enfrentar esses marginais e devolver as ruas para o povo trabalhador", completou.
Flávio também criticou o presidente Lula ao comentar a articulação que fez para que facções criminosas brasileiras fossem classificadas como organizações terroristas pelos Estados Unidos. "Quando fui aos Estados Unidos pedir que essas facções fossem classificadas como terroristas, o PT e o Lula foram para lá pedir que isso não acontecesse", disse.
Especialistas explicam o Ceará como apelo da direita
A reportagem do PontoPoder conversou com pesquisadores em segurança pública para compreender por que o Ceará se tornou um destino interessante para o discurso de segurança pública da direita nacional.
Segundo César Barreira, doutor em Sociologia e coordenador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), o estado possui uma especificidade geográfica. "Ele é um ponto de, de certa forma, uma intersecção muito forte com a África, com a Europa. Então, se tornou um ponto estratégico de tráfico de, principalmente, tráfico de drogas", explicou o pesquisador.
Barreira também apontou o fator político como um atrativo para a oposição, frisando que "o governador e o prefeito da capital são do PT". Para ele, isso gera a "possibilidade de fazer críticas à administração que é comandada pelo partido de esquerda". Além da localização, a dinâmica territorial das facções ajuda a explicar a escalada da violência explorada nos discursos.
Já Artur Pires, doutor em Sociologia e também pesquisador do LEV/UFC, destacou que, por uma década, o Ceará "teve altas taxas de homicídio e de violência patrimonial, provocada sobretudo pela nova configuração das facções, ocupando as periferias do estado".
No entanto, Pires alertou que a recente queda nos índices de criminalidade não reflete necessariamente o sucesso do poder público. "O Comando Vermelho tem se tornado hegemônico no estado do Ceará, sobretudo na região metropolitana de Fortaleza, e isso fez com que o índice de homicídios caísse consideravelmente", pontou.
Ao analisarem as propostas dos pré-candidatos presidenciais — que incluem a construção de mega-presídios pelo Missão, o corte de visitas íntimas sugerido por Ronaldo Caiado e o combate ao "narcoterrorismo" defendido por Flávio Bolsonaro —, os especialistas disseram enxergar superficialidade nas medidas.
Sobre a promessa de encarceramento em massa, Pires foi categórico: "O presídio não resolve a questão da violência. Essa é uma resposta superficial". Ele pontua que "todas as facções brasileiras nasceram dentro das penitenciárias", indicando que a medida pode agravar o problema.
Em relação às medidas de restrição de direitos nas cadeias, o pesquisador defendeu uma abordagem mais ampla. "Se ao invés de negar direitos básicos, como por exemplo, visita íntima, o Estado oferecesse aos presos oportunidades esportivas, educacionais e culturais durante o tempo em que essas pessoas estão sob a custódia do Estado, a gente tenderia a transformar subjetivamente essas pessoas, tenderia a humanizá-las", refletiu.
Por fim, a adoção de um tom de guerra e a promessa de "neutralizar" o que políticos da direita classificam como "narcoterroristas" também foram fortemente criticadas. Artur Pires esclareceu que as facções possuem uma "ideologia puramente econômica, no sentido de lucrar", o que as distancia do conceito de terrorismo.
"Esse tom de guerra, essa estratégia beligerante, ela é puramente superficial. E ela não resolve em absoluto a questão da violência", concluiu o sociólogo, que defendeu políticas de segurança vinculadas com ações sociais. Já a expulsão de moradores por facções, tema explorado por Romeu Zema, foi mencionada por Pires como "um atestado de incapacidade do Estado para garantir a segurança e a proteção dos seus cidadãos".