Dentro do mar tem a ponte. Famosa, celebrada por locais e turistas. Para além da ponte, há a comunidade – ainda mais importante que a estrutura, mas dividida: metade afeto, metade desamparo, metade persistência.
É a realidade da Ponte Metálica e do Poço da Draga, respectivamente. Ambos completam 120 anos de existência neste 2026, e têm história ainda mais antiga, conforme pesquisadores. Remetem ao século XIX.
“Eles estão ligados ao Atracadouro Espigão Hawkshaw, datado de 1875. Ainda existem esses atracadouros. Há uma foto num cartão-postal em que há um senhor sentado em um”, contextualiza Sérgio Rocha, o Serginho, geógrafo, professor e guia do Poço. Morador do lugar desde o nascimento, conecta ponte e comunidade com embasamento histórico.
Segundo ele, a Ponte Metálica foi inaugurada em 26 de maio de 1906. Tinha assoalho de madeira, pilares de metal e recebia apenas cargas, não pessoas. Assim, um projeto foi concebido para restaurá-la com revestimento de concreto armado e uma marquise – para que visitantes não ficassem sob o sol.
“A estrutura original que está agora é de 24 de janeiro de 1928, e ganhou o nome de Viaduto Moreira da Rocha – mesmo nome da nossa rua principal. Por isso entendemos que nós, do Poço da Draga, somos uma espécie de extensão desse viaduto”. Por isso também compreendem ser a data de aniversário da Ponte, 26 de maio de 1906, a mesma da comunidade. Espécie de espelhamento entre estruturas, ainda que as diferenças gritem.
Nos 120 anos de um dos territórios mais tradicionais e pioneiros de Fortaleza, o Diário do Nordeste mapeia vivências, desafios e potencialidades do Poço da Draga, em movimento de convite para um mergulho profundo sobre as principais questões do lugar.
Desafios e potencialidades do território
O tempo tratou de dar forma própria ao Poço, com todas as belezas e complexidades do território, e o fez único. A singularidade perpassa a fala de todos os que residem lá. Caso de Ivoneide Gois, por exemplo, ou do próprio Sérgio Rocha. A primeira – artesã, escritora e bordadeira – diz que a área é privilegiada. Gosta tanto dela que empreendeu projeto.
Tem um acervo de fotografias responsável por salvaguardar o espírito da comunidade, e um livro, “Territórios da memória”, com santinhos das pessoas do Poço que faleceram, mas deixaram história. “Também retratei cantos da comunidade em ponto-cruz. Esse trabalho ficou exposto na Pinacoteca do Ceará ao longo de um ano”, sublinha.
“É importante assegurar a memória do Poço porque é um lugar de luta e resistência. Nossa comunidade completa 120 anos e continuamos aqui, resistindo a tudo e a todos”. Não à toa, quando evoca o sentimento, trata de destacar: o maior desafio das pessoas do lugar é a permanência nele. Variáveis sensíveis incidem sobre a questão.
A ausência de saneamento básico é uma. A ameaça da especulação imobiliária, outra. Ivoneide é crítica o suficiente para tecer comentários inclusive sobre uma relevante obra no lugar – caso do prédio do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará. Acredita ser “maquiagem”. “Para enganar a população dos trilhões que foram gastos na obra do Aquário que não vingou”, diz.
“Eu não concordo com essa obra pelo fato de não ter tido diálogo com a comunidade. Desde a construção do Aquário só tivemos modificações negativas. A primeira foi toda a areia que tiraram da obra e jogaram na nossa praia, modificando a paisagem, acabando com os picos de surf e com a vida marinha dos recifes; a segunda foi o pó da construção que o vento levou pra comunidade, causando problemas de saúde”.
Mais: “Há mais de 10 anos, o Poço se tornou uma Zona Especial de Interesse Social (Zeis) [segundo a Prefeitura de Fortaleza, são porções do território, de propriedade pública ou privada, destinadas à promoção da regularização urbanística e fundiária dos assentamentos habitacionais de baixa renda existentes, estando sujeitas a critérios especiais de edificação, parcelamento, uso e ocupação do solo]. E nosso maior desejo é termos o papel da casa, que garante nossa moradia. É isto: lutar pela urbanização e permanência no lugar. Nosso futuro está incerto, são muitos equipamentos no nosso entorno, e como já sofremos o medo de remoção, esse medo ficou maior ainda”.
De fato, também conforme a Prefeitura, a Zeis Poço da Draga pertence à Regional 12 e tem área de 34.502,02 m². A população é de 1.026 habitantes, conforme a última atualização da plataforma.
O Instituto de Pesquisa e Planejamento de Fortaleza (Iplanfor) destaca que o conselho dessa Zeis “se reúne frequentemente para discutir sobre as atividades a serem desenvolvidas pelo Plano Integrado de Regularização Fundiária, desenvolvido pela Universidade Federal do Ceará”.
E são muitas, conforme observa Sérgio Rocha. Além de saneamento, ele aponta melhoria urbanística das casas, sobretudo no que diz respeito à pavimentação; e políticas públicas voltadas para sociedade, cultura e economia, a nível de comércio e turismo. Lutar contra estigmas é outra urgência.
“Ainda chamam aqui de ‘Baixa Pau’. E é pejorativo porque, quando você diz que mora em determinado lugar, principalmente se tratando de uma comunidade periférica, a alcunha já vem junto. Além disso, tem uma questão importante: nas adjacências daqui, na Rua Boris, na entrada do Poço da Draga, tem um acúmulo de lixo que não é nosso, mas dos restaurantes e das casas noturnas. Isso cria uma estética desfavorável para a nossa comunidade”, sinaliza.
“Quem realmente entra aqui vai ver que, pelo contrário, as pessoas limpam as próprias calçadas. Gostam muito de plantas, e aquela entrada muitas vezes impede que os transportes por aplicativo entrem porque acham que aqui é tudo degradado. A questão estética tem esse papel negativo pra nós”.
O que dizem os órgãos públicos
Procurada sobre as políticas públicas realizadas nos últimos anos no Poço da Draga e outras questões pertinentes ao território, a Prefeitura de Fortaleza, por meio da Secretaria Municipal da Infraestrutura (Seinf), afirma em nota que entregou, em abril de 2025, a revitalização do Pavilhão Atlântico.
Esta estrutura trata-se de um coreto anteriormente chamado da Praça Marquês de Herval, transferida para a zona portuária a fim de servir como local de espera para as embarcações, e que hoje é equipamento cultural da Praia de Iracema.
Nas palavras da pasta, o equipamento passou por “ampla requalificação, com melhorias nos pisos e paredes, recuperação das estruturas de madeira e pilares, substituição de telhas e calhas e instalação de um novo sistema de iluminação”. Na ocasião, ressalta, “também foi inaugurada uma nova Areninha para atender a comunidade”.
Igualmente salienta que as intervenções executadas pela Seinf incluíram a urbanização do entorno do equipamento a partir da construção de um novo calçadão, áreas de praça e instalação de mobiliário urbano, a exemplo de bancos, lixeiras e jardineiras.
Também foram construídos banheiros, um posto de salva-vidas e um novo estacionamento, além da pavimentação em piso intertravado nas vias próximas ao Pavilhão Atlântico.
“Outra melhoria foi a urbanização do espigão da comunidade, com pavimentação e um mirante contemplativo voltado para a apreciação da paisagem e do pôr do sol. As intervenções somam investimento de aproximadamente R$3 milhões, com recursos viabilizados pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF).
A comunidade igualmente recebe, conforme a Secretaria, ações do projeto Atleta Cidadão com dois núcleos em funcionamento: um de futebol, na Mini Areninha do Poço da Draga, e outro de duathlon, com atividades realizadas na faixa de areia em frente ao equipamento. “Além disso, há um núcleo do Atleta Cidadão Lutas na Areninha do Moura Brasil, ampliando o atendimento às comunidades da região”, completa.
Por sua vez, ao ser questionada sobre a falta de saneamento básico no local, sublinhada por moradores, a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) informa que já realizou estudos técnicos e visitas à comunidade com o objetivo de viabilizar um projeto de cobertura de esgotamento sanitário na região.
“A área será contemplada com obras de implantação do sistema de coleta e tratamento do esgoto executadas pela Ambiental Ceará, parceira da Cagece na operação do serviço por meio de Parceria Público-Privada (PPP)”. As intervenções fazem parte do conjunto de ações voltadas à universalização do saneamento básico, conforme as metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento, até 2033.
Por fim, o Instituto Cultural Iracema (ICI), em parceria com Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor), diz que tem ampliado a atuação junto à comunidade, “incorporando o território às suas políticas e programações culturais”.
Entre as ações desenvolvidas, a pasta cita trilhas urbanas promovidas pelos projetos Rolê na PI e Feirinha do Poço, além de inserção do território na programação do Festival Bora Fortaleza. “Em 2025, o Poço da Draga foi escolhido para sediar a abertura do evento, recebendo apresentações musicais no pavilhão local”, situou.
Por fim, a Universidade Federal do Ceará considerou, em nota, que, desde a concepção do Campus Iracema, "tem buscado construir uma relação de diálogo permanente com as comunidades vizinhas, especialmente o Poço da Draga e a Vila dos Almirantes".
Conforme a instituição, representantes dessas comunidades participaram de atos institucionais relacionados à implantação do campus e vêm acompanhando esse processo por meio de diferentes espaços de interlocução.
Igualmente explica que a implantação da nova sede do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) se dará a partir de uma edificação pré-existente, correspondente ao antigo empreendimento Acquario Ceará, cuja infraestrutura construída foi integralmente aproveitada.
Essa decisão, destacam, "reduz significativamente" a necessidade de novas intervenções estruturais e respectivos impactos ambientais, uma vez que não haverá demolição da edificação, apenas adaptações para atender às necessidades acadêmicas e científicas da Universidade.
"Como todas as obras realizadas no âmbito da administração da UFC, foram realizados os devidos estudos, projetos executivos, licenciamentos e demais etapas da obra em conformidade com a legislação vigente e as exigências técnicas aplicáveis a empreendimentos dessa natureza".
Ademais, a UFC enfatiza dois pontos: a perspectiva de conexão da Universidade com o entorno do Labomar; e o desenvolvimento de "ações concretas" no Poço da Draga, a exemplo de projetos como UFC nas Periferias e Favelab Laboratório Criativo, bem como a atuação de pesquisadores da casa na construção do já concluído Plano Integrado de Regularização Fundiária da Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) do Poço da Draga.
A Universidade recebeu uma estrutura para o Labomar correspondente a aproximadamente 35% do empreendimento originalmente projetado.
Mediante avanço das intervenções executadas sob responsabilidade da UFC, que atualmente representam cerca de 5% de execução da obra, o empreendimento alcança aproximadamente 40% da estrutura total prevista.
Origem do nome e primeiros anos
Nesse movimento, cabe também relembrar marcos do Poço. São muitos, a começar pela peculiaridade do nome. Sérgio Rocha explica. “Foi devido a um cartão postal do arquivo do Nirez [o jornalista e historiador Miguel Ângelo de Azevedo], datado de 1930”, introduz.
“A comunidade era uma baía fechada por trás do Espigão, onde hoje está a indústria naval do Ceará. Tinha água um pouco profunda, que lembra um poço. E, lá, ficavam as dragas – embarcações que retiram areia do fundo do mar. Elas iam ao Mucuripe para fazer o ‘calado’, como se chama aquela profundidade de 14 metros para receber navios na costa, já que o nosso porto não recebia esse tipo de embarcação. Ficavam afastados, de 300 a 500 metros, e as alvarengas, as balsas, levavam e traziam os produtos. O marco do nome é esse”.
Em complemento, sem-número de trabalhos dimensionam outros aspectos do local. Num deles – o relatório “Diário de Campo: Visita à Comunidade do Poço da Draga”, realizado por uma turma de estudantes do Centro Universitário 7 de Setembro em 2017 – é possível saber que a área conhecida hoje como Praia de Iracema era conhecida como Poço da Draga.
Em 1926, contudo, devido a uma crise de tuberculose, os médicos da época recomendaram banho de mar e, assim, as pessoas abastadas da cidade começaram a frequentar a praia do Poço da Draga. “Esse nome, porém, não era muito atrativo, e remetia à pobreza, já que a comunidade de pescadores tinha o mesmo nome. Logo, foi mudado de nome de Poço da Draga para Praia de Iracema”, explica o trabalho.
Em outro projeto – a dissertação intitulada “Possibilidades e Desafios de Práticas Insurgentes - O caso da comunidade Poço da Draga, Fortaleza, Brasil”, de Amanda Máximo Alexandrino Nogueira, defendida em 2019 e disponível no Repositório Institucional da Universidade Federal do Ceará – lê-se:
“Localizado na faixa litorânea entre o bairro Centro e a Praia de Iracema, o Poço da Draga é o retrato cruel das desigualdades de Fortaleza: a comunidade centenária está inserida em uma área de grande potencial turístico, que concentra diversos equipamentos culturais e de lazer, tais como o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, mas segue sem saneamento básico”.
Conforme apurado pela estudiosa junto a moradores, o território “é feito ferida nas imagens turísticas estéreis da Praia de Iracema, do Meireles e da Aldeota”. Ela também localiza a comunidade.
Amanda descreve que o Poço da Draga “está ‘escondido’, a oeste, atrás das instalações de grandes dimensões longitudinais da Indústria Naval do Ceará (Inace); a leste, atrás da Caixa Cultural de Fortaleza e dos antigos galpões na Av. Almirante Tamandaré; e, a nordeste, atrás das obras do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da UFC.
A sinuosa rua característica do local desenha o espaço que sobrou entre o antigo trilho de trem, saindo da ponte velha em direção à antiga Alfândega (atual Caixa Cultural), e a Inace.
“As edificações herméticas [do território] provocam o isolamento da comunidade em relação ao entorno, limitando o acesso físico e a visibilidade. Tal isolamento acentua-se ainda devido à área onde se encontra a comunidade ser de baixa cota altimétrica, separando-a do centro histórico, de cota mais elevada”.
Por fim, no mesmo trabalho, a autora destaca que, embora, em 2009, a comunidade tenha se tornado Zona Especial de Interesse Social, por meio do Plano Diretor Participativo de Fortaleza, o Poço da Draga ainda aguarda o processo de regulamentação do instrumento e continua em situação de irregularidade fundiária e urbanística, o que compromete a segurança jurídica da posse de seus moradores.
Riquezas do lugar e futuro à vista
Quando o assunto são prerrogativas para o futuro, Sérgio Rocha e Ivoneide Gois retornam. Para olhar para a frente, gostam de encarar um passado que ainda persiste no coração: a formalização da primeira associação do Poço da Draga por um morador, seu Valmir Mesquita de Melo, nos anos 1970; o início do serviço de água na comunidade, nos anos 1980; o registro de mais 100 casas da comunidade, nos anos 1990, também por uma moradora, dona Rocilda; o Clube Rota e a escolinha tocada pelas irmãs josefinas.
“Precisamos comemorar nossa resiliência e o fato de fazermos parte da história da cidade enquanto uma das primeiras localidades a ter o mar como espaço de moradia. Os primeiros moradores do Poço vieram da Seca do 15 [referente à grande estiagem que atingiu o Ceará em 1915], ou seja, passamos a morar num bairro à beira-mar antes do bairro Praia de Iracema”, contextualiza Sérgio.
“Por outro lado, o que a gente lamenta é a ausência de políticas públicas que nos consolide cada vez mais como um bairro importante e histórico para a cidade, a nível de gerar também uma rampa para o progresso da cidade quando falamos de turismo local. Não somos uma pedra no sapato; na verdade, somos rampa”.
Ivoneide Gois pensa o mesmo. Diz que ama o Poço e as pessoas dele – Isabel, Noélia, professor Manuelzinho, Douglinhas, Cássia, Álvaro, dona Iolanda e tantos, tantos outros. Vizinhos, parceiros, amigos. Família.
“Somos hospitaleiros, cheios de afeto, amor, união e solidariedade. Minhas melhores lembranças são da infância, o banho de mar era sagrado e tínhamos a Piscininha, que era o lazer da comunidade. Agora não tem mais, nos foi tirada. Tínhamos também tradições, como Judas, na Semana Santa; Reisado, passando nas casas… Era muito bom aquele tempo”.
Para a frente, arremata Serginho, esperança. “Que as gerações de agora tenham o mesmo entusiasmo que as três gerações até aqui têm ao se tratar de identidade e pertencimento”.