A cearense Fabyanna Souza de Oliveira, de 31 anos, sonhava desde cedo em conhecer o mundo. Nascida em Lavras da Mangabeira, no Interior do Estado, ela viu o desejo se tornar realidade longe do Brasil, anos depois de ter se mudado para a Alemanha, passado por um processo de transição de gênero e se tornado comissária de bordo em uma companhia aérea. "Sempre sonhei com a aviação desde pequena, achava tudo muito chique", brinca em entrevista ao Diário do Nordeste.
Recentemente, ela resolveu utilizar as redes sociais para compartilhar mais sobre a rotina no trabalho, incentivando quem tem o mesmo sonho. "Onde estão as pessoas trans além da prostituição, além das manchetes policiais?", questiona em um dos vídeos do perfil, que já chegou a 32 mil curtidas.
"Desde criança, eu via aquela aeromoça nos filmes, via o pessoal andar de avião. Ficava fascinada. Só que a gente vai crescendo, vai vendo que não é tão fácil assim. Tem prova da Anac, tem um processo seletivo muito rígido no Brasil", explica.
E foi ainda muito cedo que Fabyanna percebeu que a língua seria importante para realizar o sonho de conhecer o mundo. O inglês virou o primeiro idioma aprendido por ela e foi o responsável por levá-la a trabalhar em um cruzeiro, local de trabalho onde conheceu o atual marido.
Apaixonada, deixou Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, para viajar à cidade dele na Alemanha, onde vive até hoje. A mudança, inclusive, ocorreu em um momento delicado: em meio à pandemia de Covid, em 2020. Na época, antes mesmo de deixar o Brasil, ela já estava decidida a seguir com a transição.
"Eu já tinha começado a deixar o cabelo crescer, comecei a ficar bem mais feminina", diz. Quando chegou à cidade de Erkelenz, na região sudoeste de Mönchengladbach, Fabyanna contou ao marido sobre o processo e recebeu todo o apoio necessário.
"Já estava realmente fora do Brasil, não tinha mais por que esconder ou não viver a minha verdade. Aqui na Alemanha é tipo isso, as pessoas não estão nem aí para quem você é, para como você parece, e eu pensei que não podia mais perder tempo", continua. Com a família cearense, enraizada nos ensinamentos evangélicos, a situação foi mais difícil. Ainda assim, ela convive de forma harmoniosa e parceira com os entes queridos.
O período de isolamento, inclusive, foi importante no processo de transição. Fabyanna diz ter experimentado na própria aparência e buscado, acima de tudo, se reconhecer na nova identidade de gênero. "Fazia até vídeos de humor na época, colocava peruca e fazia uma maquiagem", relembra.
"Foi uma época em que realmente usei para falar: ‘Essa é a Fabi que vai vir, que vai ser feminina e tem cabelo longo'. É uma das coisas que mais amo em mim".
Vivência na Alemanha
Já ambientada em solo alemão, país onde recebeu apoio de familiares e amigos do atual marido, a cearense resolveu, então, buscar a realização do próprio sonho. Por saber da dificuldade para se tornar comissária no Brasil, ela até pensou que nada seria possível.
O marido, entretanto, teve papel importante ao incentivá-la, pontuando que o processo na Alemanha é mais simples. "Cheguei na Alemanha e já aprendi o alemão, já era desenrolada. Aí ele falou: "Você tem que tentar uma vaga para comissária". Eu trabalhei lá em rede de fast-food, como cuidadora de idosos, mas ele me disse que seria possível", relata.
Não demorou para que recebesse uma proposta. "Aqui é dessa forma: você se inscreve na internet, manda currículo. Se eles gostarem de você, você faz a entrevista. Se passar, eles te dão curso, te dão uniforme, material para trabalhar. Então, assim, realmente aqui você tem um caminho mais fácil", conta ela, que já acumula três anos de experiência na função.
Apesar da distância, ela faz questão de lembrar do Ceará, das vindas ao Brasil no período de férias e da saudade de coisas simples. “Um cuscuz e uma tapioca”, brinca, citando as comidas preferidas e como aproveita nas passagens para visitar os familiares.
O sonho de morar no Brasil no fim da carreira também é outro detalhe que a conecta às origens. “São nossos planos para o futuro. Se a gente pudesse, eu e meu marido, já estávamos era morando aí, numa casinha na praia e tudo”, finaliza, já pensando no que o trabalho poderá proporcionar mais à frente.