Lázaro Ramos, premiado em Gramado, fala sobre a trajetória no cinema brasileiro

Ator construiu no cinema, teatro e televisão uma carreira sólida, marcada pela constante reinvenção de si e pela diversidade dos personagens. Aos 40 anos, o baiano se prepara para outro desafio na carreira: dirigir o seu primeiro filme

Legenda: Lázaro Ramos no tapete vermelho do Festival de Cinema de Gramado, que acontece na Serra Gaúcha
Foto: Foto: Cleiton Thiele / Agência Pressphoto

Era uma vez um menino que aguardava ansiosamente o fim da aula. Dali, era correr para casa e depois ter como destino a bilheteria do antigo Cinema Arte 1, em Salvador. Àquela época, a experiência cinematográfica era bem diferente do atual modelo dominante das salas multiplex. Com um ingresso era permitido assistir a mesma sessão várias vezes. Com um mesmo bilhete era possível perder a noção do tempo naquele escuro. Somente a luz da projeção era bússola naquele universo fascinante. Cinema era uma coisa inatingível, era uma coisa somente para assistir, sonhar e imaginar.

Décadas se passaram. Aquela criança tomou atrevimento e gosto pelas coisas da arte. Ingressou no teatro itinerante aos 12. Aos 15, abraçava a iniciativa Bando de Teatro Olodum. Os primeiros filmes eram para pagar as contas. Nada daquilo iria durar, estipulava. Veio a televisão, outras peças e projetos. Fez família, conheceu outros mundos e vivências. Projetou a voz e foi generoso com a dos próximos.

Aos 40, Lázaro Ramos é agraciado no 47º Festival de Cinema de Gramado pelo conjunto da obra. Recebeu o troféu Oscarito, honraria historicamente destinada a grandes atrizes e atores do cinema brasileiro. A homenagem na Serra Gaúcha, palco de uma das mais relevantes iniciativa em prol do audiovisual brasileiro acontece em meio a um importante momento de transição na carreira. Além de ator, escritor, apresentador e dublador, ele encara o apaixonante desafio de trabalhar atrás das câmeras. A estreia de "Medida Provisória", seu primeiro longa-metragem está cada vez mais próxima. O baiano pouco esconde a felicidade no olhar.

Horas antes de adentrar o Palácio dos Festivais, palco da reverência, Lázaro conversou com jornalistas presentes no Festival. Veio a Gramado na companhia do pai, Ivan Ramos. O Oscarito simbolizou momentos de reflexão. Estava ali, tanto a criança outrora fascinada pelo escurinho do cinema, como o homem que crê na constante reinvenção como fonte de nutrição artística.

"Até hoje falo de Madame Satã"

De cara, assume um começo de carreira marcado pela desconfiança. Ser ator seria o ideal na vida? Repercutia na cabeça. Achava que em algum momento algo ia dar errado e voltaria para casa. Ao se entender enquanto empreendedor e que poderia oferecer sua mão-de-obra, algo mudou. Situa o início dos anos 2000 como um tempo de virada.

O investimento de vários diretores, a possibilidade de encarnar papéis muito fortes é algo decisivo na filmografia. Se assume um privilegiado pelo apoio e investimento de cineastas oriundos de regiões distintas do País. Ter sido protagonista em "Madame Satã" (2002), dirigido pelo cearense Karim Aïnouz, possui valor inestimável pelo ensinamento e por, ao mesmo tempo, ter mostrado a capacidade do ator para o mundo. "Até hoje viajo e as pessoas chegam para falar do filme. Juro por Deus, uma vez por mês eu falo desse filme ainda hoje", disse na coletiva.

Legenda: Lázaro com o troféu Oscarito, no Festival de Cinema de Gramado
Foto: Foto: Agência Pressphoto

Projetos diferentes e uma preocupação com as escolhas. Buscou pessoalmente não ser decifrado com tanta facilidade. Vai da comédia para os filmes alternativos ou mais populares. Foge da tendência de qualquer ator de ser enquadrado num só tipo de personagem. É chegado em personificar criaturas que não estão na história oficial brasileira. São vivências periféricas. A carreira, acredita, foi construída assim. Em dar vida a figuras ausentes dos livros de história do Brasil. Seres marginais seduzem mais o ator.

Se seguiram "Carandiru" (2003), "O Homem do Ano" (2003), "Cafundó" (2005). "Ó Pai, Ó" (2007), "Saneamento Básico, o Filme" (2007). Resgata as parcerias Jorge Furtado e Hector Babenco (1946-2016). Em paralelo, nas telinhas aconteceram "Sexo Frágil", "Cobras & Lagartos", "Mister Brau", entre outros. O programa "Espelho", na TV fechada é outra força, dessa vez como apresentador e entrevistador.

Do teatro arriscou de peças infantis ao imponente "A Máquina" (2000), onde atuou ao lado de Gustavo Falcão, Wagner Moura e Vladimir Brichta. Dirigiu "Namíbia, não!" em 2011. Do texto criado pelo ator e dramaturgo Aldri Anunciação surgiria outro recomeço decisivo, a direção de um longa-metragem.

Medida Provisória

Lázaro enxergou potencial nas telonas. Conversava com realizadores, alertava para a força cinematográfica, para as possibilidades do elenco. Percebeu que já estava "filmando" sem querer. "Ah, então vou assumir. Vou dirigir". Daí em diante foram seis anos de dedicação. O tempo foi necessário para a viabilização financeira da empreitada.

Outra necessidade era estudar os macetes da direção, lentes, enquadramento. Conhecer a fundo os profissionais da área. Um processo exaustivo. No momento de filmar já estava exaurido, a empolgação tinha até diminuído. Nesse intervalo, a chegada de nomes conhecidos (e de confiança) resgatou a paixão.

O diretor de arte Thiago Marques, Adrian Teijido para a fotografia. Os atores presentes deram outro ânimo (Renata Sorrah, Taís Araújo, Adriana Esteves e Seu Jorge são alguns dos nomes). O tesão retornou. "Foi uma das experiências mais incríveis que tive na minha vida", confessou aos jornalistas.

"Medida Provisória" segue em fase construção da trilha. Quem assina a empreitada é a porrada chamada Rincon Sapiência. Faltam alguns retoques na edição e uma consulta aos amigos é super válida neste momento, entende o cineasta. O filme tem previsão de estreia para o primeiro semestre de 2020.

Bate-Papo com Lázaro 

Legenda: Ator em bate-papo durante o Festival de Cinema de Gramado

Cito a figura de Aldri Anunciação que é uma parceria sua nos últimos anos. Ele me concedeu entrevista dias após a premiação no Festival de Brasília e, entre outros temas, dividiu a questão do negro brasileiro ter que contar sua própria narrativa. Você poderia apresentar um pouco desse autor? 

Aldri é um jovem talento baiano que escreveu o primeiro texto “Namíbia, não!”, que se transformou no ‘Medida Provisória’, meu filme. Depois disso ele escreveu vários textos, têm projetos muito interessantes. E ele, você sabe que ele era assistente de ópera na Alemanha, né?. Então é muito legal que ele trás uma coisa para a dramaturgia dele que é esse tom operístico e isso acaba indo para o filme também.

Como o filme "Medida Provisória" se encaixa nesse Brasil 2019?

Se enquadra num movimento muito interessante que acontece de vários cineastas negros brasileiros que estão se apropriando do poder de suas narrativas e criando histórias como “A Ilha”, “Café com Canela”, tem a Yasmin Thainá (‘Kbela’), que inclusive está aqui como  jurada. Tem a Juliana Vicente. Tem uma turma de cineastas mais jovens do que eu que eu comecei a ficar de olho. Eu disse: ‘eu quero fazer parte desse movimento também’. Então eu fui para trás das câmeras. O filme dialoga diretamente com isso”.

Como é contar essa própria história? 

Agora, acho que tem outra coisa importante a falar. Acho que esses filmes todos, essas pessoas (ainda citando artistas nacionais) nesse momento, elas dão um salto por que muitas vezes quando falamos dessa coisa assim de ‘cineastas negros com a câmera na mão, contando sua próprias história’, às vezes, pela falta, acabamos criando histórias que partem da demanda, da falta, e não das possibilidades narrativas. Então, meu filme não é exatamente sobre isso, mas ele contribuiu muito para isso, pois subverte a lógica de contar uma história que é só uma denúncia. 

É um filme pop, tem ação, comédia, mistura gêneros, se propõe a entreter, sim. Inclusive uma das questões que eu tenho é que assim: como eu vou lançar esse filme? Como vou chamar ele, qual gênero vou enquadrar. Se ele é um filme de festival ou tem logo que ir para o cinema. Acho que isso é um salto importante e Jordan Peele tem feito, né. O Spike Lee acabou de fazer com ‘Infiltrado na Klan’. 

Estou tentando beber disso também, me influenciando com um movimento que é desse tempo e que eu acho que é muito saudável, porque ele junta a famosa palavrinha que está na moda e que está desgastada que é ‘representatividade’ com o poder da criatividade de inventar histórias que você quiser, para entreter as pessoas. 


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