Enquanto a legislação penal não acompanha o avanço da tecnologia, a criminalidade se adapta a ela constantemente. Mesmo sistemas sofisticados de segurança digital não são capazes de conter os muitos roubos de dados, invasões de dispositivos e golpes que são aplicados todos os dias por mensagens, redes sociais, sites, e-mails e ligações.
Um desses casos é julgado no Ceará e envolve um grupo especializado em golpes cibernéticos contra bancos digitais. O caso chegou para a Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC) no ano passado, quando três instituições financeiras compartilharam informações entre si e descobriram que, supostamente, uma mesma pessoa, residente em Fortaleza, teria utilizado fotos de diversas outras para abrir contas e fazer transações fraudulentas que, somadas, giraram em torno de R$ 180 mil.
Para simular biometrias reais e burlar o sistema de prova de vida dos bancos, os suspeitos teriam utilizado uma tecnologia de inteligência artificial generativa chamada "deepfake", capaz de manipular fotos, áudios e vídeos. A ferramenta, inclusive, foi uma das que mais "deram trabalho" para a DRCC no início da sua atuação no Estado, em 2022.
Antigamente, segundo o delegado Alan Araújo, titular da delegacia especializada, as fraudes eram mais "manuais" e envolviam a manipulação física de um documento de identidade, por exemplo. "Hoje, você consegue usar ferramentas online e fazer isso muito mais fácil. Dificultou, no começo, de fato, a questão da 'deepfake'. Hoje, os bancos têm um algoritmo que consegue prever [o golpe], mas a dificuldade [da investigação] é inerente à tecnologia: ela vai surgindo e vai dificultar o nosso trabalho", admitiu.
Os cinco suspeitos do golpe foram indiciados em março deste ano e denunciados no mês seguinte pelo Ministério Público do Estado (MPCE), pelos crimes de organização criminosa, estelionato digital e lavagem de dinheiro. No entanto, apenas um deles, considerado o "cabeça" da operação, foi preso. Os outros quatro respondem em liberdade.
Suspeitos utilizaram 'deepfake' para abrir contas
Em setembro do ano passado, a DRCC foi comunicada pelos bancos digitais Nubank, Inter e PicPay sobre uma fraude digital com uso de IA aplicada contra as instituições por um homem identificado como José Rilenilson Alves Arruda Filho, de 26 anos, proprietário de uma loja de eletrônicos na Capital.
Segundo investigações internas conduzidas pelos bancos, a fraude consistiu em utilizar fotos de pessoas de alta renda, que tiveram dados e imagens vazados, para abrir contas e realizar transações fraudulentas, como compras com cartão de crédito físico e digital, transferências via PIX, pagamentos de boletos e vendas "inexistentes".
O Banco Inter relatou à Polícia um prejuízo de R$ 100 mil, enquanto o PicPay disse ter perdido R$ 78,4 mil e o Nubank, R$ 379.
Conforme documentos do inquérito policial, o suspeito foi descoberto pelo cruzamento dos sistemas de segurança do Inter e do PicPay, que conseguiram capturar a "selfie" de quem estava por trás da câmera, manipulando os dispositivos. As imagens foram comparadas com as utilizadas pelo suspeito para abrir uma conta legítima e regular no Nubank.
Posteriormente, durante a investigação, os policiais civis utilizaram um sistema específico para fazer a comparação facial entre as imagens enviadas pelos bancos e a foto do cadastro oficial de Rilenilson no Nubank. O resultado foi uma semelhança acima de 99%, confirmando a identidade do fraudador.
Mas, a investigação não focou apenas nas imagens cedidas pelos bancos. A Polícia também vinculou os acessos fraudulentos ao endereço de IP da casa de Rilenilson e à geolocalização da sua empresa, a "R7 Iphones", localizada no bairro Montese.
Fraudadores pagaram R$ 50 por fotos de familiares e vizinhos
A investigação conduzida pela DRCC se aprofundou na fraude e descobriu que, além de Rilenilson, também estaria envolvida no crime a companheira dele, Maria Sabrina Vieira de Moraes, que teria fornecido os próprios celulares para que o fraudador abrisse as contas. Além disso, ela teria sido a responsável por movimentar parte dos valores transferidos.
Já outro indiciado no processo, identificado como Bruno Mota Barbosa, teria sido incumbido da função de fornecer dados de outras pessoas para o grupo, como a própria foto, a da mãe, Ieda Gomes Mota, e a da cunhada, Pamela da Silva Sousa, para abrir contas falsas. As três imagens, inclusive, tinham o mesmo fundo fotográfico de azulejos verdes.
Uma das fotografadas, a manicure Pamela da Silva Sousa, cunhada de Bruno, admitiu em interrogatório que forneceu sua biometria facial para o esquema em troca de R$ 50. Além disso, ela afirmou que outras pessoas do bairro Cais do Porto teriam feito o mesmo movimento em troca do mesmo valor.
Neste mês de julho, a Justiça cearense publicou o recebimento da denúncia do MP e agendou a primeira audiência de instrução sobre o caso. Por enquanto, segue preso pelo crime apenas Rilenilson, que está detido na Unidade Prisional (UP) Itaitinga 4 desde março.
Veja quem são os denunciados e o papel no esquema
- José Rilenilson Alves Arruda Filho: tido como mentor intelectual e principal operador da fraude;
- Maria Sabrina Vieira de Moraes: companheira de José Rilenilson, apontada no processo como coautora e responsável pelo apoio logístico e financeiro;
- Bruno Mota Barbosa: apontado como fornecedor de dados;
- Ieda Gomes Mota: mãe de Bruno, também apontada como fornecedora de dados e receptadora de valores;
- Pamela da Silva Sousa: nora de Ieda e cunhada de Bruno, que admitiu ter fornecido sua biometria e documentos em troca de dinheiro.
A reportagem buscou contato com os advogados que representam os réus.
Segundo Lucas Cruz, que defende Pamela, a cliente seria mais uma vítima do esquema e teria, "por necessidade", vendido sua conta "a terceiros, que a utilizaram de má-fé, para dar golpes e lavar dinheiro". "A defesa declara acreditar na inocência dela, que será comprovada no decorrer da instrução processual. [...] Negamos qualquer participação dolosa em organização criminosa e nos golpes em si", concluiu o advogado.
Já a defesa de Rilenilson e Sabrina, representada pelo advogado Roberto Castelo, pontuou que "ambos são pessoas primárias, sem condenações criminais, possuem residência fixa e sempre estiveram à disposição das autoridades para colaborar com a investigação". "A defesa sustenta a total inocência de José Rilenilson e Sabrina, ressaltando que as acusações ainda estão em fase de investigação e serão devidamente enfrentadas no processo", acrescentou o defensor particular.
A primeira audiência de instrução sobre o caso está marcada para o mês de novembro. A reportagem só não encontrou a defesa de Ieda Gomes Mota.
Investigação envolve cruzamento de dados e uso de sistemas sofisticados
Ao Diário do Nordeste, Alan Araújo, da DRCC, explicou que fraudes a bancos no ambiente digital são investigadas em parceria com as próprias instituições financeiras lesadas.
"Neste caso, o próprio banco ofereceu notícia criminal. A gente requisita dados aos bancos, que fazem uma investigação interna, e a gente também tem o poder requisitório de pedir informações [a outros bancos]. E existem ferramentas policiais, como a comparação, que a gente consegue ter um alto grau de acurácia e provar que é a pessoa, de fato", detalhou.
Na denúncia que deu início às investigações, os bancos garantiram ainda que utilizam tecnologias sofisticadas para identificar possíveis fraudadores. O PicPay afirmou utilizar um sistema que coleta e valida informações para verificar a identidade de cada novo cliente e outro baseado em tecnologia 3D que identifica e previne tentativas de golpe.
Já o Inter relatou que utiliza mecanismos de validação de reconhecimento facial e reforçou que seus sistemas foram suficientes para capturar a foto real do invasor.
Por fim, o Nubank declarou ter equipe especializada para conduzir investigações de possíveis fraudes e disse que seus sistemas também são capazes de capturar a foto dos golpistas. "Trabalhamos com as autoridades para coibir e reprimir a atuação de criminosos no ambiente digital. Também investimos continuamente em tecnologia, inteligência de dados e múltiplas camadas de proteção para prevenir e identificar fraudes cada vez mais sofisticadas, inclusive, golpes que exploram recursos de inteligência artificial e 'deepfakes'", acrescentou o banco, em nota enviada à reportagem.