Aliados de Lula querem reduzir abstenção e virar votos nulos para aumentar margem no 2º turno no CE

Em termos gerais, a ideia é regionalizar a estratégia e trabalhar assuntos práticos com potenciais eleitores.

08 de Outubro de 2026 - 06:00
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Legenda: Lula tem reunido lideranças do Nordeste, como o governador cearense Elmano de Freitas (PT), o senador Camilo Santana (PT) e os senadores eleitos Cid Gomes (PSB) e Luizianne Lins (Rede).
Foto: Ricardo Stuckert.

O presidente Lula (PT) trabalha para ampliar a vantagem na campanha de segundo turno no Ceará com a adesão de eleitores ausentes ou que optaram por anular o voto no primeiro turno. Essa é a estratégia da base do mandatário a nível estadual, conforme relatos de aliados próximos à cúpula petista. 

No Ceará, o presidente obteve 63,29% do apoio do eleitorado, com 3.555.263 votos, enquanto o principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), alcançou 1.756.850 eleitores (31,27%). Em compensação, houve 103.295 votos brancos e 189.362 nulos, totalizando 4,95% dos cearenses que compareceram às urnas nesse domingo (4).

Já a abstenção alcançou o patamar de 15,52% do eleitorado apto ao voto, com 1.086.074 pessoas faltantes. Ainda que o volume seja inferior ao registrado em 2022 (1.190.122 pessoas não foram votar, equivalente a 17,45% dos eleitores), a vantagem de Lula também reduziu no Estado nesse quadriênio. No primeiro turno daquele ano, ele conseguiu 65,91% dos votos no Estado, enquanto o pai de Flávio, Jair, recebeu apenas 25,38%. 

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Foi a queda da vantagem de Lula sobre os Bolsonaros no Ceará, entre 2022 e 2026.

Para o deputado estadual cearense e vice-presidente nacional do PT, De Assis Diniz, é evidente a necessidade de focar na redução da abstenção. 

“Tirar aí um ou dois ponto das abstenções, ampliar (a vantagem) no Nordeste – que é estratégico –, mantendo um percentual (mais próximo) ao que foi em eleições passadas e garantindo um percentual de 70% a 75%, e ter como centralidade a disputa de São Paulo e Minas Gerais”, detalhou.

O senador reeleito, Cid Gomes (PSB), aprofundou a análise sobre o caso cearense e apontou que o eleitor de menor renda, que mora mais afastado dos centros urbanos, é o potencial eleitor de Lula, mas o mais suscetível a se abster.

“Uma informação importante – não pela questão eleitoral, mas pela legitimação do processo – é de que o voto serve como prova de vida para todos aqueles que têm benefícios dos programas sociais de aposentadoria e de BPC. Em vez de você ficar naquela humilhação de ir às vezes em uma agência do INSS na cidade vizinha, você pode ir muito mais perto de casa, em uma seção, e votar para servir como prova de vida”, destacou o político do PSB. 

Para ele, a virada no segundo turno é possível devido ao afunilamento de opções para votar diante da urna. Cid lembra que o índice de anulação é maior em eleições de primeiro turno do que em segundo turno devido ao número de dígitos necessários na votação, que também retarda as filas nas seções eleitorais.

“Nesta eleição, você tinha que digitar quatro (números para deputado) federal, cinco para estadual – já são nove –, com mais seis dos dois senadores são 15, com mais quatro (de presidente e governador) já são 19 números. E seis vezes a tecla confirma. Agora vão ser só dois números e a tecla confirma”, ressalta.

Em outra frente, segundo De Assis, o partido deve reforçar o elo com “os influencers e as redes sociais, trazer a intelectualidade e o campo progressista e fazer o quadro comparativo de quem é quem nesse processo”, complementa.

Está marcada para esta quinta-feira, às 17h, uma Marcha das Juventudes em Fortaleza, com concentração na Avenida da Universidade, ao lado da Concha Acústica. 

Reunião de alinhamento no Alvorada

Ainda no domingo (4), em discurso de vitória, o governador reeleito Elmano de Freitas (PT) adiantou a intenção de aumentar os votos válidos de Lula da faixa de 63% para ao menos 70%. O plano local inclui manter o ritmo da militância e mobilizar prefeitos e deputados (eleitos e não eleitos) no Ceará para ir às ruas para convencer quem votou em branco, nulo ou se absteve.

A expectativa, em termos absolutos, é conseguir mais 500 mil votos, segundo Chagas Vieira (PDT), em postagem nas redes sociais. Ele é suplente da senadora eleita Luizianne Lins (Rede) e coordenador da campanha de Lula no Ceará.

No dia seguinte, eles embarcaram em comitiva à Brasília, a fim de participar de reunião com a direção nacional da campanha petista no Palácio da Alvorada. As tratativas seguem desde então, com o objetivo de moldar a comunicação para massificar uma análise comparativa entre o legado bolsonarista e lulista em políticas públicas nos estados.  

Também participaram do encontro o ministro José Guimarães (PT), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), a coordenação nacional da campanha, representantes de MDB, PSB, PT, PCdoB, PSOL e PV, além de deputados, senadores, governadores, dirigentes da Executiva Nacional do PT e o próprio presidente Lula.

Acompanharam a delegação cearense, ainda, os senadores eleitos Cid Gomes e Luizianne Lins, além do senador e ex-ministro Camilo Santana (PT). Este deve dividir a coordenação nacional da campanha com o presidente do PT, Edinho Silva, que concentrava a direção dos trabalhos eleitorais.  

Agora, segundo De Assis, Lula deve ter agendas no Nordeste, com uma já confirmada no Rio Grande do Norte, onde o candidato petista, Cadu de Lula, disputa o segundo turno ao governo estadual contra Allyson Bezerra (União). Há também a expectativa de passagens por Ceará, Maranhão, Piauí, Bahia e Pernambuco, e “manter presença em São Paulo e Minas Gerais”. 

“Lula vai falar para as regiões, centrar nas ações. Não é aquilo que pode, não, é aquilo que foi feito e o que nós vamos fazer daqui para frente”, resumiu o dirigente e deputado.

Desafios e potencialidades da campanha no Ceará

O desempenho de Lula também pode estar relacionado ao avanço do eleitorado conservador na Região Metropolitana de Fortaleza, que concentra maior parte dos votantes cearenses e onde a disputa foi mais acirrada. Em 14 municípios, incluindo Fortaleza, Caucaia e Maracanaú, Lula obteve menos de 60% dos votos em 2026.

Nessa mesma linha, as eleições deste ano consolidaram lideranças competitivas de direita em Fortaleza, a exemplo de André Fernandes (PL), forte cabo eleitoral bolsonarista. Ele recebeu mais de 600 mil votos na campanha a deputado federal, sendo mais de 300 mil somente na capital. 

Soma-se a isso o gargalo da Segurança Pública no Ceará, cujos efeitos políticos respingam negativamente sobre Lula e Elmano. Esta é uma das pautas mais exploradas pela oposição a nível local e nacional.

Por outro lado, o petista tem potencialidades nas quais pode trabalhar. O grupo governista local se fortaleceu com a reeleição de Elmano em primeiro turno e a eleição de dois senadores aliados. Além disso, o Executivo Estadual manteve maioria na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), com uma base de 34 a 37 deputados estaduais que podem ser arregimentados para a campanha-.

Apesar de ter vantagem levemente reduzida em relação a 2022, Lula venceu Flávio Bolsonaro nos dez maiores colégios eleitorais do Ceará no primeiro turno, registrando votações expressivas no Crato (76,98%) e em Iguatu (76,26%).

O atual presidente também conta com um portfólio de obras federais no Estado, com a entrega ou avanço de grandes projetos de infraestrutura e políticas sociais em andamento para exibir no horário eleitoral.

Regionalmente, o petista ainda dispõe de forte atuação de correligionários reeleitos governadores em primeiro turno na Bahia, Piauí e Ceará, atuando como peças-chave para ampliar a margem de votos na região.

Diálogo prático

O diagnóstico do PT sobre a campanha digital no primeiro turno é que o trabalho nas redes de Lula foi pífio, possibilitando o avanço de Flávio nessa seara, até mesmo no exterior. Por isso, o presidente quer “mudar tudo” para conseguir se aproximar dos jovens, das mulheres e do espectro ideológico de centro. O marqueteiro Otávio Antunes foi chamado para reforçar esse setor. 

É principalmente nesse caminho que a equipe vai reforçar assuntos mais palpáveis para o eleitor, como o fim da escala 6x1 de trabalho e os feitos do Governo Lula, focando em um trabalho regionalizado.

“O debate ideológico, nós até podemos fazer, mas para falar com as pessoas é preciso mostrar o que estamos fazendo. [...] Temos que apostar fortemente na comparação de entregas à população entre o nosso governo e o Governo Bolsonaro. Obra por obra, estado por estado, para mostrar às pessoas que as entregas do presidente Lula são importantes para a vida delas”, disse Elmano ao colunista Inácio Aguiar.

Outro tema que ganhou mais força nessa reta final de eleição foi a reforma do Judiciário. No início da semana, Edinho Silva deu entrevistas a veículos do Sudeste afirmando que Lula está estruturando uma reforma do Judiciário para o próximo mandato.

“Ele está querendo e vai ouvir outros juristas, evidentemente, mas é uma ideia que ele tem e ele quer ouvir mais gente para dar uma posição. Ele mesmo disse: ‘Por que o presidente da República tem que indicar ministro do Supremo? Por que a sociedade civil não pode ser chamada para opinar nessa indicação? Por que um presidente tem que ter tanto poder sobre um ministro do Supremo?’”, revelou o dirigente à CNN.

A recente crise do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF) acabaram sendo debitadas pela população na conta do Governo Federal, na avaliação do partido. 

“A sociedade interpretou dessa forma, de que, em toda essa crise, o presidente Lula é o maior represente do Estado brasileiro e, portanto, jogou sobre ele uma responsabilidade que não é dele. E se criou um imenso movimento de mudança, e nós também temos consciência disso. Portanto, não estamos negando o diagnóstico; estamos em cima dele, organizando nossas ações”, complementou.

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