Rachaduras, buracos, concreto desgastado, acúmulo de pedras, lixo, entulho e descartáveis espalhados pelo entorno. O cenário atual da pista de skate do Parque Estadual do Cocó, em Fortaleza, contrasta com a história do equipamento, que já recebeu algumas das principais competições nacionais e internacionais da modalidade e foi referência para atletas brasileiros e estrangeiros.
O Diário do Nordeste esteve no local nos dias 19 de junho e novamente nesta segunda (6), quando constatou que os problemas permanecem. Além do desgaste natural provocado pelo tempo, a estrutura apresenta rachaduras e buracos em diferentes obstáculos, comprometendo a prática esportiva e aumentando o risco de acidentes.
Nos arredores da pista, também foram encontrados entulho, embalagens descartáveis, garrafas, pedras e outros resíduos.
Inaugurada em março de 2010 pelo Governo do Estado, a pista foi apresentada como uma das mais modernas do País. Com cerca de 1.200 metros quadrados, o skatepark reúne obstáculos voltados às modalidades street, rampa e banks, permitindo diferentes tipos de manobras.
O equipamento integra o complexo esportivo do Parque do Cocó, que também conta com campo de futebol, quadra de vôlei de praia, espaço para bicicletas e áreas destinadas à caminhada.
Estrutura deteriorada dificulta prática do esporte
Carlos Henrique “Muskito”, 26, fazia o trajeto Caucaia-Aerolândia para utilizar a pista pelo menos três vezes na semana, há 15 anos, quando começou a praticar assiduamente o esporte. Ao acompanhar o estado do espaço, destaca o quão “revoltante” é.
“Uma pista que já foi palco de grandes campeonatos como mundiais, recebendo vários nomes de skatistas do mundo todo, está nessa situação agora.”
A desatenção à pista de skate é percebida pelos atletas frequentadores anos a fio. Fortalezense que vive em São Paulo, Cibely Cavalcante, 26, morava na região da Aerolândia durante a infância e tomou gosto pelo esporte ao acompanhar as idas dos pais para o polo de lazer.
“Às vezes, eu ia lá brincar, aí pegava o skate emprestado da galera. Até que eu ganhei um skate e comecei a andar. Eu acho que durante uns seis anos eu fui para lá todos os dias. Com um ano de skate, eu já comecei a competir”, lembra ao trazer as memórias da pista.
A skatista destaca que o abandono sempre existiu e que os próprios atletas locais se responsabilizavam pelas manutenções recorrentes.
“Eu lembro que, quando era criança, aqueles buracos já existiam. Todo mês juntava ali os skatistas locais, faziam a ‘cotinha’ pra gente comprar massa plástica e tampar os buracos. Mas não durava muito tempo, né? Porque era bem improvisado”, lembra Cibely.
A intervenção do poder público, segundo a jovem, só acontecia quando havia campeonatos mundiais, de modo a dar uma “maquiada”, já que logo os buracos eram abertos novamente.
Para Henrique “Muskito”, o desgaste por fatores climáticos, negligência do poder público e descaso da comunidade têm grande impacto para as crianças e adolescentes que, por não terem acesso a esse espaço, ficam mais vulneráveis às telas e ao sedentarismo.
“Pra molecada, é super importante. Seria um lugar bem mais movimentado e tiraria bastante pessoas da zona de conforto, das telas principalmente, que é uma das piores causas para questão de depressão e ansiedade.”
De palco mundial ao abandono
O estado atual da pista chama atenção principalmente pelo histórico do equipamento. Logo após a inauguração, o skatepark passou a receber etapas da World Cup Skateboarding (WCS), circuito mundial da modalidade, reunindo alguns dos maiores nomes do street skate internacional.
Em 2010, Fortaleza sediou a primeira etapa do Circuito Mundial de Street Skate Profissional. Nos anos seguintes, a competição retornou ao Parque do Cocó, consolidando a capital cearense como uma das referências do calendário internacional da modalidade.
Em 2011, 2012 e 2013, atletas de diversos países voltaram a disputar a etapa cearense da WCS, enquanto o público acompanhava, além das competições, oficinas de grafite, hip hop, modelagem de shape e outras atividades ligadas à cultura do skate.
A pista também recebeu etapas do Circuito Brasileiro de Street Skate Profissional. Em 2017, o equipamento voltou a ser destaque ao reunir nomes consagrados da modalidade e marcar a estreia de uma nova geração de skatistas profissionais brasileiros.
Como é feita a manutenção da pista?
Procurada pela reportagem, a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema), responsável pela administração do Parque Estadual do Cocó, informou que a manutenção do skatepark já integra o cronograma de ações prioritárias da pasta.
Segundo a secretaria, uma equipe técnica realizou vistoria no local para avaliar a situação, mapear os danos e projetar as obras de reparo. Contudo, não forneceu cronograma para a execução das intervenções.
A gestão afirmou ainda que reforça o compromisso com o incentivo ao esporte e com a segurança da comunidade que utiliza o equipamento.
*Estagiária supervisionada pelos jornalistas Dahiana Araújo e Nícolas Paulino.