Pista de skate que recebeu campeonatos mundiais em Fortaleza está abandonada

Complexo esportivo dentro do Parque do Cocó acumula lixo nos entornos e danos estruturais.

Escrito por Ana Alice Freire* ana.freire@svm.com.br
07 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Inaugurada em 2010, a pista era frequentada por referências mundiais do skate.
Foto: Fabiane de Paula.

Rachaduras, buracos, concreto desgastado, acúmulo de pedras, lixo, entulho e descartáveis espalhados pelo entorno. O cenário atual da pista de skate do Parque Estadual do Cocó, em Fortaleza, contrasta com a história do equipamento, que já recebeu algumas das principais competições nacionais e internacionais da modalidade e foi referência para atletas brasileiros e estrangeiros.

O Diário do Nordeste esteve no local nos dias 19 de junho e novamente nesta segunda (6), quando constatou que os problemas permanecem. Além do desgaste natural provocado pelo tempo, a estrutura apresenta rachaduras e buracos em diferentes obstáculos, comprometendo a prática esportiva e aumentando o risco de acidentes.

Nos arredores da pista, também foram encontrados entulho, embalagens descartáveis, garrafas, pedras e outros resíduos.

Inaugurada em março de 2010 pelo Governo do Estado, a pista foi apresentada como uma das mais modernas do País. Com cerca de 1.200 metros quadrados, o skatepark reúne obstáculos voltados às modalidades street, rampa e banks, permitindo diferentes tipos de manobras.

O equipamento integra o complexo esportivo do Parque do Cocó, que também conta com campo de futebol, quadra de vôlei de praia, espaço para bicicletas e áreas destinadas à caminhada.

Estrutura deteriorada dificulta prática do esporte

Carlos Henrique “Muskito”, 26, fazia o trajeto Caucaia-Aerolândia para utilizar a pista pelo menos três vezes na semana, há 15 anos, quando começou a praticar assiduamente o esporte. Ao acompanhar o estado do espaço, destaca o quão “revoltante” é.

“Uma pista que já foi palco de grandes campeonatos como mundiais, recebendo vários nomes de skatistas do mundo todo, está nessa situação agora.”

Pista de skate do Parque do Cocó apresenta estado de abandono, com rachaduras, buracos, acúmulo de lixo e entulho, comprometendo a prática esportiva e a segurança dos usuários.
Legenda: Pista de skate do Parque do Cocó apresenta estado de abandono, com rachaduras, buracos, acúmulo de lixo e entulho, comprometendo a prática esportiva e a segurança dos usuários.
Foto: Fabiane de Paula.

A desatenção à pista de skate é percebida pelos atletas frequentadores anos a fio. Fortalezense que vive em São Paulo, Cibely Cavalcante, 26, morava na região da Aerolândia durante a infância e tomou gosto pelo esporte ao acompanhar as idas dos pais para o polo de lazer.

“Às vezes, eu ia lá brincar, aí pegava o skate emprestado da galera. Até que eu ganhei um skate e comecei a andar. Eu acho que durante uns seis anos eu fui para lá todos os dias. Com um ano de skate, eu já comecei a competir”, lembra ao trazer as memórias da pista.

A skatista destaca que o abandono sempre existiu e que os próprios atletas locais se responsabilizavam pelas manutenções recorrentes.

“Eu lembro que, quando era criança, aqueles buracos já existiam. Todo mês juntava ali os skatistas locais, faziam a ‘cotinha’ pra gente comprar massa plástica e tampar os buracos. Mas não durava muito tempo, né? Porque era bem improvisado”, lembra Cibely.

A intervenção do poder público, segundo a jovem, só acontecia quando havia campeonatos mundiais, de modo a dar uma “maquiada”, já que logo os buracos eram abertos novamente.

Para Henrique “Muskito”, o desgaste por fatores climáticos, negligência do poder público e descaso da comunidade têm grande impacto para as crianças e adolescentes que, por não terem acesso a esse espaço, ficam mais vulneráveis às telas e ao sedentarismo.

“Pra molecada, é super importante. Seria um lugar bem mais movimentado e tiraria bastante pessoas da zona de conforto, das telas principalmente, que é uma das piores causas para questão de depressão e ansiedade.”

De palco mundial ao abandono

O estado atual da pista chama atenção principalmente pelo histórico do equipamento. Logo após a inauguração, o skatepark passou a receber etapas da World Cup Skateboarding (WCS), circuito mundial da modalidade, reunindo alguns dos maiores nomes do street skate internacional.

Em 2010, Fortaleza sediou a primeira etapa do Circuito Mundial de Street Skate Profissional. Nos anos seguintes, a competição retornou ao Parque do Cocó, consolidando a capital cearense como uma das referências do calendário internacional da modalidade.

Em 2011, 2012 e 2013, atletas de diversos países voltaram a disputar a etapa cearense da WCS, enquanto o público acompanhava, além das competições, oficinas de grafite, hip hop, modelagem de shape e outras atividades ligadas à cultura do skate.

A pista também recebeu etapas do Circuito Brasileiro de Street Skate Profissional. Em 2017, o equipamento voltou a ser destaque ao reunir nomes consagrados da modalidade e marcar a estreia de uma nova geração de skatistas profissionais brasileiros.

1ª etapa do Brasileiro de Street Pro, em 2017, que recebia, à época, a nova safra do street profissional brasileiro.
Legenda: 1ª etapa do Brasileiro de Street Pro, em 2017, que recebia, à época, a nova safra do street profissional brasileiro.
Foto: Reprodução/Marcos Hiroshi.

Como é feita a manutenção da pista?

Procurada pela reportagem, a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema), responsável pela administração do Parque Estadual do Cocó, informou que a manutenção do skatepark já integra o cronograma de ações prioritárias da pasta.

Segundo a secretaria, uma equipe técnica realizou vistoria no local para avaliar a situação, mapear os danos e projetar as obras de reparo. Contudo, não forneceu cronograma para a execução das intervenções.

A gestão afirmou ainda que reforça o compromisso com o incentivo ao esporte e com a segurança da comunidade que utiliza o equipamento.

*Estagiária supervisionada pelos jornalistas Dahiana Araújo e Nícolas Paulino. 

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