Pesquisadores descobrem nova espécie de ave que só existe no CE e 'mais anda do que voa'

Feito o soldadinho-do-araripe, a tovaca-de-baturité só pode ser encontrada no Estado.

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
07 de Agosto de 2026 - 06:00
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Legenda: De difícil observação, espécie vive principalmente no solo das florestas, em áreas mais densas e de pouca luz.
Foto: Fábio Nunes.

Na parte mais fechada e escura da Serra de Baturité, em meio às copas interligadas das árvores, um canto irrompe no início do dia. É sinal de que ali tem bicho, coisa viva e sonora. Esse canto é único e de espécie genuinamente cearense, recentemente descoberta por pesquisadores: a tovaca-de-baturité, como foi batizada. Junto ao soldadinho-do-araripe, agora é a segunda espécie endêmica do Ceará, ou seja, com ocorrência exclusiva no Estado.

De difícil observação, a tovaca vive principalmente no solo das florestas, em áreas mais densas e de pouca luz. Costuma cantar mais no começo das manhãs, quando ainda está um pouco escuro, o que dificulta ainda mais observá-la. “Ainda não sabemos quase nada sobre os hábitos de vida dela”, introduz Marco Aurélio Crozariol.

Biólogo e curador da coleção de Aves do Museu de História Natural do Ceará Professor Dias da Rocha, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), o estudioso explica que a espécie é comum nas regiões sul e sudeste do País, mas apresentava populações também no Ceará. Com o tempo, foi observado que essa população em solo cearense possuía cor diferente na testa e também canto distinto daquelas com ocorrência no centro-sul do Brasil. 

A partir disso, pesquisadores estudaram variações na coloração e no canto, e identificaram que a população do Ceará era particular, diferente de todas as outras conhecidas. Não à toa, o título agora de “nova espécie”.

“Apesar disso, ainda não temos uma análise molecular/genética pra dizer a quanto tempo ela está isolada no Ceará e se separou das populações do sudeste e sul do Brasil”, considera Marco.

Fato é que cientistas acreditavam que a espécie era nova já há alguns anos. Contudo, conforme Marco, são necessárias análises cuidadosas para descrever algo tão raro assim. Exige tempo e recurso – algo reforçado por Vagner Cavarzere, professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.

Segundo ele, a existência da população da tovaca em Baturité também não era desconhecida. Havia espécimes no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, o Mzusp, coletados no início da década de 1940. No entanto, essa população era considerada exatamente igual à população do restante da Mata Atlântica, a tovaca-campainha. 

Como a espécie foi descoberta?

“Um grande ornitólogo, o estadunidense Edwin O. Willis – professor na Unesp em Rio Claro – nos alertou para diferenças morfológicas dos espécimes cearenses ainda em 1992. Mas foi apenas a partir de 2024, quando um aluno meu começou a investigar as vocalizações ao longo de toda a distribuição da tovaca-campainha na Mata Atlântica, que a diferença vocal tornou-se evidente”, detalha Vagner. A partir daí, série de ações foram realizadas para confirmar a teoria.

Análises vocais tradicionais e com auxílio de aprendizagem de máquina demonstraram que o grau de diferenciação entre as populações da tovaca-campainha era enorme.

“Com isso, meus alunos – um de graduação, outro de mestrado, e eu – demos um nome científico inédito à tovaca-de-baturité. Até então, ela recebia o mesmo nome científico da tovaca-campainha, a qual ocorre ao sul do rio São Francisco, desde o sul da Bahia até o Rio Grande do Sul, Argentina e Paraguai”, completa o pesquisador.

Pouco mais de 100 espécimes na natureza

Ainda não se sabe o tamanho da população. A espécie acaba de nascer para a ciência, e há muito mais a descobrir do que a dizer. Nas palavras de Marco Aurélio Crozariol, porém, ela foi encontrada em apenas duas áreas da Serra de Baturité, entre Guaramiranga e Pacoti. Isso faz com que os cientistas não acreditem haver muito mais que 100 indivíduos na natureza. 

“Mas é especulação. São necessários estudos aprofundados para afirmar isso. De qualquer forma, sabemos que é uma das espécies mais raras do Brasil e até do mundo, já que a maior parte da população parece estar quase totalmente restrita a uma única área da Serra”.

Para saber exatamente há quanto tempo esse canto está isolado nas montanhas de Baturité ainda é preciso fazer uma análise genética capaz de estimar há quantos milhões de anos a população se isolou das demais populações de tovaca da Mata Atlântica.

Por outro lado, existe uma justificativa para a descoberta da espécie ter ocorrido somente agora – apesar de o conhecimento sobre ela ser antigo: o estudo taxonômico, que trata das diferenças nas classificações e dá nome ao grupos de animais, foi conduzido de forma detalhada somente a partir de janeiro de 2025.

Como a ave vive na natureza

Uma das curiosidades mais interessantes da ave é que ela é cursorial – ou seja, mais que voar, caminha sobre o solo da floresta. A característica a faz ter pernas compridas, com plumagem marrom no dorso e estrias longitudinais da mesma cor ao longo do ventre, que é esbranquiçado. Também possui sobrancelha esbranquiçada bem evidente, com cauda curta.

Tovaca-de-baturité é cursorial – ou seja, mais que voar, a espécie caminha sobre o solo da floresta.
Legenda: Tovaca-de-baturité é cursorial – ou seja, mais que voar, a espécie caminha sobre o solo da floresta.
Foto: Fábio Nunes.

Em geral, procura insetos e outros itens alimentares na serrapilheira. O que mais se destaca nela, contudo, conforme Vagner Cavarzere, é mesmo a já mencionada vocalização.

Esta é constituída por sequência de centenas de notas ascendentes, que terminam num conjunto de notas aceleradas, semelhantes a um coaxo. 

O que muda com a descoberta da espécie

Uma vez a tovaca-de-baturité ser endêmica do Ceará, o que muda é que, agora, o Estado tem o dever de protegê-la por ser uma riqueza apenas daqui.

“Se isso for aproveitado de forma inteligente, será possível conseguir recursos para pesquisas; conhecer melhor as áreas relevantes para conservação do próprio espaço geográfico; utilizar para o turismo (obviamente bem estruturado, para não prejudicar a espécie) etc”, analisa Marco.

É, realmente, algo muito único e nosso, não à toa a necessidade de viabilizar esses pontos. “Ela não ocorre em outras áreas por questões históricas e evolutivas – o que comprova que, no passado, existiram conexões florestais até mesmo nas áreas atualmente áridas do Nordeste”, completa o estudioso.

Por sua vez, Vagner Cavarzere elenca dois pontos para prospectar novos rumos de análise científica da espécie.

Uma vez a tovaca-de-baturité ser endêmica do Ceará, o Estado tem o dever de protegê-la por ser uma riqueza apenas daqui.
Legenda: Uma vez a tovaca-de-baturité ser endêmica do Ceará, o Estado tem o dever de protegê-la por ser uma riqueza apenas daqui.
Foto: Fábio Nunes.

“O desejado é que a espécie seja estudada, pois inexistem informações precisas sobre a população. É necessário estimar quantos indivíduos há na natureza e qual o nível de ameaça que ela pode sofrer em termos de caça e perda de hábitat, bem como a demanda dela por qualidade ambiental, para que seja determinado o status de conservação. É provável que, por ocorrer em área extremamente restrita, possa ser considerada ameaçada de extinção”.

Igualmente, espera-se que a descoberta seja amplamente popularizada, uma vez que observadores de aves costumam ir atrás de espécies raras e que ocorrem em áreas restritas. Isso, segundo o pesquisador, traz benefícios diretos para a conservação da espécie ao colocar a Serra de Baturité como destino desejado por observadores de aves e, assim, possível rota de desenvolvimento sustentável para a região.

Urgência de preservação

A soma de todos esses detalhes acende alerta vital: qualquer tipo de problema ambiental ocorrido no local poderá fazer a tovaca-de-baturité desaparecer completamente. Não sem motivo, a urgência de um plano de manejo para proteger a área, pertencente ao Parque Estadual do Pico Alto – algo ainda inexistente, de acordo com os pesquisadores.

Em outro cenário, a boa notícia é que o Museu de História Natural do Ceará Professor Dias da Rocha e a Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis) possuem base de pesquisa na Serra de Baturité, bem como algumas observações sobre ela. 

“Temos pessoas prontas para trabalhar e conhecimento, mas não temos dinheiro para executar as pesquisas – que, embora não sejam caras, não nos permite realizá-las”, diz Marco. “Existem muitas informações importantes a serem descobertas sobre a espécie. Mas, no momento, o mais importante é conseguir preservar as áreas de ocorrência dela na íntegra. Salva no próprio ambiente, teremos tempo para estudá-la”.
Marco Aurélio Crozariol
Biólogo e curador da coleção de Aves do Museu de História Natural do Ceará Prof. Dias da Rocha

Entre os riscos que se impõem a essa preservação, está a especulação imobiliária, apontada como problema na região. Uma vez a espécie ser fotofóbica, ou seja, evita ambientes com muita luz, qualquer árvore cortada onde haja ocorrência da tovaca faz com que ela não sobreviva mais naquele local devido à entrada de luz na floresta. 

Devido ao desmatamento avançado na serra e abertura de estradas para construção de casas, a espécie acaba não tendo pra onde ir. Esperamos um incentivo do Estado para que, com nosso conhecimento, possamos indicar as principais áreas de proteção e os conhecimentos básicos para evitar a extinção dela”.

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