Quando se pensa em aulas de artes na escola, muitas vezes a imagem que vem à mente é de crianças pequenas, ainda na primeira infância, brincando e desenhando livremente. Apesar de fundamental para a aprendizagem nessa etapa, há outro momento em que a arte-educação se torna essencial para o desenvolvimento integral dos estudantes: a adolescência, em que o ensino de artes pode auxiliar estudantes a aprimorarem a comunicação e as habilidades socioemocionais.
Quem defende esta tese é a professora e pesquisadora Ana Mae Barbosa, pioneira na arte-educação no País, que tem cerca de 70 anos de experiência na área. A educadora concedeu entrevista por telefone ao Diário do Nordeste enquanto se preparava para viagem a Fortaleza, onde será homenageada, nesta sexta-feira (28), no II Prêmio Porto Iracema das Artes. A cerimônia do evento, que reconhece personalidades e instituições de ensino de artes, será aberta ao público e começa às 19h.
Para Ana Mae, o ensino de artes na adolescência faz com que os alunos consigam “entender os seus processos emocionais, que a emoção e o afeto não dominem completamente o raciocínio, que haja equilíbrio entre raciocínio e emoção”.
“A arte naturalmente equilibra esse crescimento emocional junto com o crescimento racional. Se você, nesse turbilhão de emoções e diferentes hormônios, retira a arte, você retira um complemento da capacidade dele expressar seu interior e até de se comunicar”, pontua a educadora.
“É nessa etapa também que deve-se começar a ensinar princípios de filosofia, porque filosofar é isso: tentar dar sentido à sua vida. Eu sei que é fundamental porque eu não tive as duas coisas na escola: filosofia e arte. E isso me falta. Mas a arte eu acho que eu compensei depois, porque fiz muita arte”, completa Ana Mae.
Diretrizes para ensino de arte na educação básica
No último dia 17 de agosto, o Ministério da Educação (MEC) homologou as diretrizes para ensino de arte na educação básica. Na prática, a norma complementa a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e orienta formalmente os sistemas de ensino e escolas em relação a abordagens e linguagens que devem ser utilizadas nas salas de aula.
A mudança ocorre após uma década turbulenta para arte-educadores. Em 2016, um projeto de lei que propunha a reforma do Ensino Médio sugeriu a não-obrigatoriedade do ensino de artes nas escolas, o que foi derrubado pelo Congresso em 2017. Nos anos que se seguiram, apesar de a obrigatoriedade do ensino de artes ter sido mantida, não havia políticas que garantissem, de fato, essa exigência, tampouco um direcionamento para conteúdos e metodologias.
Agora, segundo comunicado publicado pela Pasta, “as diretrizes buscam combater a noção de que a arte é uma atividade secundária, recreativa ou destinada apenas a complementar festas e datas comemorativas” e estabelece “a arte como campo essencial à formação humana”. O ensino de arte foi dividido em quatro pontos principais:
- Arte como prática integradora – Deve ser vista como prática educativa com potencial para integrar experiências dentro e fora do ambiente escolar;
- Processos criativos e reflexivos – O ensino envolve criação, experimentação, apreciação e reflexão crítica, além da técnica e da reprodução;
- Contextualização e análise crítica – Analisar obras em seus contextos históricos, sociais e culturais amplia o repertório cultural dos estudantes;
- Desenvolvimento integral do estudante – O ensino de arte favorece o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social, cultural e estético dos estudantes.
Apesar de a obrigatoriedade do ensino de artes ter sido retomada na atual gestão do Governo Federal, o MEC demorou a tomar a decisão de como garantir a aprendizagem correta utilizando a arte-educação, avalia Ana Mae Barbosa.
“O Ministério da Cultura tem dado espaço para a arte-educação e para pesquisas sobre o tema. Mas eles têm a obrigação de trabalhar com as comunidades, não com a escola formal, entendeu? Então, o trabalho está excepcional no MinC, eu me entusiasmo com o trabalho deles, mas com o MEC, nem tanto. Nós tivemos que enfiar pela ‘goela’ do Ministério da Educação a obrigatoriedade do ensino da arte”, afirma.
Esse processo começou em 2016, após a proposta de reforma do Novo Ensino Médio, e se estendeu ao longo de três gestões federais. A luta pela valorização da arte-educação, no entanto, é histórica, e vem desde pelo menos os anos 1970.
Eu chamo de arte-educação porque ‘educação artística’ é tradução do americano, ‘art education’, e o ‘artístico’ é mero adjetivo da educação. E eu luto pela igualdade, pelo diálogo entre a arte e a educação em termos de igualdade.”
Para Ana Mae, o momento atual, após a homologação das diretrizes para ensino de arte nas escolas, é bastante positivo para o cenário de arte-educadores. “Quando o [novo] Ministério entrou, havia uma lacuna de professores de arte de 50%. Não tinha professor de arte, porque ninguém queria fazer curso de licenciatura em arte, porque não tinha emprego. Houve um boicote no governo do Temer à arte-educação”, lembra a professora. “Melhorou muito agora”, completa.
A arte-educadora, no entanto, relembra que o ensino da arte está sempre em cheque e que ainda há muitos políticos “contra a arte”. “A primeira coisa que eles fazem [ao assumir cargos públicos] é querer cortar a arte do currículo”, avalia.
Educadora utilizou artes visuais como ferramenta de alfabetização
Carioca radicada no Recife (PE), onde passou a morar ainda na infância, Ana Mae começou sua trajetória como educadora na década de 1950, em uma escola pública de estrutura precária na capital pernambucana onde os alunos não tinham nem espaço para lanchar e brincar na hora do recreio.
Nessa época, foi aluna de dois grandes educadores brasileiros: Paulo Freire, patrono da educação brasileira, e Noemia Varela, pedagoga pioneira na arte-educação e fundadora do Movimento Escolinhas de Arte. Ambos ajudaram Ana Mae a ver além das dificuldades impostas pela profissão e focar no poder transformador da educação aliada à arte.
Arte-educação é o contato com a arte, a integração com a arte, a contaminação pela arte de todas as idades, das crianças aos velhos, porque a arte não é só conhecimento, mas é também uma força produtiva que trabalha a cognição, a emoção, os afetos, e isso é muito importante pro equilíbrio mental do indivíduo.”
A partir dos ensinamentos de ambos, ela decidiu que a turma de alfabetização para a qual havia sido designada, considerada difícil por outros professores, seria um laboratório para o ensino da arte-educação.
Na época, segundo ela, ninguém conseguia alfabetizar as crianças. Saindo do “convencional”, partiu das artes visuais e de outras linguagens para ensinar crianças a assimilarem melhor os vocábulos e, na hora certa, todos os pequenos sabiam ler.
“O que eu fiz foi realmente usar a arte como mediadora do mundo e da criança, do mundo vivencial da criança com esse mundo de início de aprendizagem. Então, quase tudo era através da arte”, comenta.
Se na década de 1950 essa possibilidade surgiu como um farol, hoje Ana Mae vê as possibilidades de utilizar a arte para alfabetizar e qualificar a aprendizagem das crianças como ainda mais amplas. “Mudou o mundo. A facilidade que a gente tem para acessar a imagem é fantástica hoje em dia, e isso ajuda muito a inter-relacionar a imagem com a alfabetização letral”, destaca.
Ela explica que, nos primeiros anos, as letras se desenham como imagens para as crianças. Explorar essa característica é fundamental para obter uma aprendizagem que vai além da relação entre letras e imagens, explica.
“A dimensão das imagens com a letra é fantástica, porque, de início, a letra é uma imagem para a criança. E se ela tem hábito de ler imagem, ela vai aprender mais rápido a ler, a transferir a impressão da letra como imagem para a letra no sentido de lê-la diretamente, de não precisar da imagem que acompanha as letras”, pontua.