Das muitas facetas atribuídas ao jeito do cearense levar a vida, costuma-se afirmar que este possui um certo perfil nômade. É possível achá-lo, conta a sabedoria popular, nos mais distantes pontos do planeta. Verdade ou senso comum, encontrar conterrâneos em chão distante é sempre oportunidade de falar sobre a saudade da "Terrinha".
E do longínquo oriente conhecemos uma história de sucesso e superação. Tem cearense brilhando na Coreia do Sul. Antonio Davielson é uma celebridade do turfe no país. Ficou famoso após vencer 82 corridas no intervalo de um ano e chegou a ser eleito, por voto popular, como o "melhor jóquei" do país.
A trajetória do atleta ganhou as telas de cinema. Com direção de Guto Parente e Mi Kyung OH, o documentário "Um Jóquei Cearense na Coreia" desbrava o dia-a-dia e os desafios de Antonio Davielson e sua família vivendo em um país estrangeiro do outro lado do mundo.
"Um Jóquei Cearense na Coreia" está em cartaz no Cinema do Dragão. Sessões nos dias 28/02 (15h), 04/03 (15h30) e 08/03 (14h30).
Em cena, o cotidiano marcado pelas diferenças culturais, a barreira da língua, a distância e o constante processo de adequação aos comportamentos locais. Conversamos com o diretor Guto Parente acerca do processo de filmagem e a experiência de contar a história deste conterrâneo.
Uma estrela do turfe
Cineasta, roteirista, montador e produtor, Guto Parente assina elogiada filmografia de curtas e longas-metragens. Além de "Um Jóquei Cearense na Coreia", codirigiu outros sete filmes, entre eles "Estrada para Ythaca" (2010), "Os Monstros" (2011), "A Misteriosa Morte de Pérola" (2014) e "Inferninho" (2018).
O realizador estreou na direção solo com "O Estranho Caso de Ezequiel" (2016) e seguiu o ritmo com "O Clube dos Canibais (2018), "Estranho Caminho" (2023) e "Futuro" (2024), sendo estes dois últimos inéditos. Em 16 anos de carreira, exibiu seus trabalhos em importantes festivais internacionais como Locarno e Rotterdam.
Foi em uma destas muitas andanças pelo mundo que ele conheceu Antonio Davielson. Em julho de 2018, o cineasta foi à Coreia do Sul como convidado de um festival de cinema para apresentar "O Clube dos Canibais". Lá, a partir do convite da produtora coreana Ellen Y. Kim, foi conhecer uma corrida de cavalos em Seul.
"Ela me apresentou a uma amiga sua que trabalhava no Jóquei Clube, a Mi Kyung OH, que me falou com muito entusiasmo de um jóquei brasileiro que estava sendo o grande destaque da temporada, com o maior número de vitórias no ano. Esse jóquei era o Antonio", resgata.
O primeiro contato ainda é vivo na memória do diretor. "Quando eu olhei para ele senti uma enorme empatia e rapidamente entendi sermos conterrâneos. No final do dia a Mi Kyung OH nos apresentou e saímos juntos para jantar. Foi aí que surgiu a ideia do filme. Três meses depois eu estava de volta à Coreia para filmar", completa.
Perspectivas em Seul
Naquela altura, Antonio Davielson já vivia há quase dois anos em Seul com a esposa Kelly (nascida no Rio Grande do Sul) e a filha deles, Luise. Guto Parente, assim, teve a experiência de filmar em outra nação e registrar o dia a dia de um conterrâneo que vive longe de casa. Em certa medida, durante o processo de filmagem, o próprio diretor também se viu na mesma condição de Davielson. A do estrangeiro em terras distantes.
A minha chegada lá, junto com o Lucas Coelho, que fez o som do filme, fez com que a família tivesse um cotidiano de mais interação, o que dava para sentir que estava fazendo muito bem a eles. Nós nos aproximamos muito, foi uma convivência bastante intensa. Tanto que a gente acabou se tornando também personagens no filme'.
Diante desse processo inusitado de trabalho, a codireção com Mi Kyung OH foi fundamental para os dias de produção. Guto explica que o Jóquei Clube é uma instituição super fechada e rigorosa. Com isso, a participação da colega corena ajudou a obter autorização para filmar as corridas.
Outro fator adicional é o conhecimento aprofundando de Mi Kyung OH acerca do turfe e dos jóqueis. "É um universo que faz parte do dia a dia dela. Simultaneamente, ela só tinha como acessar o Antonio e a família dele através da interlocução que eu e o Lucas, como conterrâneos dele, naturalmente tínhamos. Então o encontro foi só potência. E para além das nossas diferenças culturais, formamos laços muito bonitos de amizade", desreve.
Cearenses pelo mundo
A partir destes laços, Guto Parente conseguiu capturar a rotina da família de Antonio Davielson. Como a vida social destes brasileiros acontece na distante Coreia do Sul, a vida de atleta profissional e rígidos treinos com os animais.
Em suma, as particularidades de uma profissão pouco comum à grande maioria da população do Brasil. Diante das adversidades (e vitórias) do famoso conterrâneo, o realizador ilumina os feitos de um núcleo familiar. Fala sobre saudade, distância e perspectivas futuras.
Em linhas gerais, Guto Parente detalha como a história de Antonio Davielson dialoga ou amplia o debate em torno dessa ideia do cearense espalhado pelo mundo. A oportunidade inspira a pensar outras produções que trabalhem o tema da migração.
"Acho que nós temos uma natureza meio nômade, de desbravadores, aventureiros, sobreviventes. Realmente não existe nenhum lugar que eu já tenha pisado no mundo que eu não tenha esbarrado com algum cearense se destacando em alguma coisa. É impressionante. Após fazer esse filme com o Antonio fiquei com muita vontade de fazer uma série de documentários sobre cearenses nos lugares mais inusitados do planeta, nos trabalhos mais improváveis", finaliza o diretor.