Segurança

Polícia Federal apreendeu quase duas toneladas de cocaína no Aeroporto de Fortaleza em oito anos

Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
24/08/2026 - 06:00

A existência de rotas diretas para a Europa e a localização geográfica do Ceará fazem do Aeroporto de Fortaleza um dos que mais registra operações de combate ao tráfico de drogas. Somente nos últimos oito anos, desde 2019, quase duas toneladas de cocaína, por exemplo, foram apreendidas tanto no Terminal de Passageiros quanto no Terminal de Cargas do equipamento cearense, segundo dados da Polícia Federal (PF) repassados ao Diário do Nordeste.

1,98 toneladas
de cocaína lideram o ranking de apreensões no aeroporto entre 2019 e 2026

O delegado de Polícia Federal Santiago Fernandes, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da PF, destaca que a localização estratégica do Estado acaba facilitando o "escoamento de cargas legais, mas também de drogas para os continentes europeu e asiático" e "torna o Ceará uma espécie de 'hub' para organizações ligadas ao tráfico internacional de drogas, atraindo cada vez mais esses grupos a operar aqui".

O número das apreensões de cocaína ainda pode aumentar, pois os dados de 2026 ainda serão consolidados. Neste ano, conforme a PF, já foram realizadas apreensões de 12,18 kg de cocaína e 82,3 kg de maconha no aeroporto, até o fim do último mês de julho. 

Hoje Fortaleza tem a quarta maior região metropolitana do Brasil. Isso traz um fluxo de pessoas oriundas dos mais variados lugares e também atrai negócios dos mais diversos tipos. Nesse contingente de pessoas e ambiente de negócios, também se imiscui aí o tráfico de drogas. [...] Em razão de eventos cada vez mais significativos, a PF instalou neste Estado o Grupo de Investigações Sensíveis – GISE, que atua em sincronia com a DRE e qualificou a investigação e a repressão às organizações criminosas voltadas ao tráfico internacional de drogas.
Santiago Fernandes
Delegado da PF

Ainda sobre as apreensões em aeroporto, o delegado da DRE pontuou que a delegacia "realiza frequentes prisões em flagrante no aeroporto de Fortaleza, em sua maioria, de "mulas" aliciadas por organizações criminosas especializadas no tráfico de drogas em aeronaves comerciais, tanto em voos domésticos como internacionais, e transportam droga em suas bagagens, atadas ao corpo, camuflada nas roupas, ou ingerida e transportada no próprio organismo". 

Uma das maiores apreensões da história recente aconteceu em 2021, quando um avião particular foi interceptado pela PF carregando 1,3 tonelada de cocaína. A droga estava em 24 malas pertencentes a um passageiro espanhol. Havia 50 tabletes de droga em cada mala, com um total de 1.200 tabletes de cocaína.

À época, o passageiro espanhol e quatro turcos, membros da tripulação da aeronave, foram conduzidos para a PF para serem interrogados. O espanhol, de 60 anos, e o comandante do avião, um turco de 48 anos, foram presos em flagrante e autuados por tráfico internacional de drogas.

Empresário acusado de liderar tráfico no Mucuripe

Acusado de liderar uma rede de tráfico de cocaína no Porto do Mucuripe, em Fortaleza, o empresário Francisco de Assis Sampaio de Souza Junior teve pedido de liberdade provisória negado pela 11ª Vara Federal do Ceará no último dia 5 de agosto. Ele está preso preventivamente desde fevereiro deste ano, como desdobramento da chamada Operação Palma, deflagrada pela Polícia Federal (PF).

A investigação apura um esquema transnacional de envio de drogas pelo Porto do Mucuripe, descoberto após a apreensão de 435 quilos de cocaína na área portuária em fevereiro do ano passado. Francisco é um dos indiciados do caso, que atualmente está em fase de inquérito policial, conduzido pela PF. 

Os 435 kg apreendidos estavam em uma carga de cera de carnaúba e tinham como destino o Japão, com parada prevista na França. 

Os entorpecentes foram encontrados somente durante um segundo escaneamento, já que, no primeiro, não foram encontrados indícios de contaminação da estrutura de transporte marítimo. Segundo a Receita Federal informou no dia da operação, os criminosos utilizaram o método rip-on/rip-off, no qual o contêiner é aberto sem o conhecimento do exportador, para introduzir ilegalmente a droga.

Porto do Mucuripe tem registrado apreensões signficativas de drogas.
Legenda: Porto do Mucuripe tem registrado apreensões signficativas de drogas.
Foto: Divulgação/Receita Federal e Diário do Nordeste.

O auditor-fiscal chefe da Divisão de Vigilância e Repressão da Receita Federal, Ivanilson de Castro, pontuou que as organizações criminosas têm se aproveitado da cadeia logística de exportação do Ceará. 

 "A estrutura da cadeia logística de exportação do Estado do Ceará, por meio dos portos e aeroportos, proporciona o embarque e transporte de mercadorias do Brasil para todo o planeta. Os traficantes se aproveitam dessa logística de transporte marítimo e aéreo para transportar drogas ilícitas ao mercado consumidor, principalmente europeu e asiático", disse.

O escritório Faustino Costa Advocacia, responsável pela defesa de Francisco de Assis, informou que recebeu "com serenidade e profundo respeito", e informou que os fatos que são objeto da investigação em andamento serão esclarecidos ao longo do devido processo legal. 

"A defesa continuará a exercer seu mister em todos os momentos, principalmente nos autos em momento processual oportuno, deixando de tecer comentários a respeito das imputações que lhe são dirigidas, de modo a desconstituí-las por serem inverídicas, em respeito ao segredo de justiça, bem como face ao seu estado de presunção de inocência", diz nota do advogado Faustino. 

Droga ocultada em materiais de construção

De acordo com as investigações da Polícia Federal (PF) e manifestação recente do MPF, Junior é apontado como uma das principais peças da organização criminosa, por supostamente utilizar a empresa JRT Serviço e Comércio Ltda. para obter livre acesso à área portuária. Ele ocultaria entorpecentes em cargas de materiais de construção e contava com o apoio de prestadores de serviço locais.

A PF também aponta um rápido crescimento patrimonial incompatível com a renda declarada pelo empresário e pela esposa. Entre os indícios citados, estão a aquisição de veículos de alto valor, um imóvel de luxo e movimentações consideradas suspeitas em empresas registradas em nome de familiares, que teriam sido utilizadas para ocultação de bens.

No pedido apresentado à Justiça Federal, o advogado de Junior, Faustino Costa, sustentou que a prisão preventiva é desnecessária e baseada em interpretações parciais das provas reunidas pela investigação.

A defesa questionou ainda o uso de interceptações envolvendo terceiros e contesta a interpretação dada a uma mensagem enviada pelo empresário à esposa por WhatsApp, na qual afirma que iria ao porto "para ver se ganho alguma coisa". Segundo o advogado, a referência diz respeito exclusivamente ao recebimento de valores por serviços de metalurgia regularmente prestados e faturados.

Operações tentam desmanchar tráfico no porto 

A Operação Palma, da PF, cumpriu em junho, no último dia 30 de junho, 20 mandados judiciais contra empresas e prestadores de serviço que atuam no Porto do Mucuripe. A ação policial aconteceu após apurações darem conta de que uma organização criminosa formada seria responsável por tentar enviar a cocaína ao exterior. 

Entre os envolvidos, foram apontadas como suspeitas três empresas com atuação em solo cearense e 14 funcionários e prestadores de serviços vinculados ao Porto do Mucuripe.

Já no começo deste ano, o Porto do Mucuripe foi alvo de outra ação contra o tráfico internacional. Em fevereiro, um trio foi detido após ser encontrado em uma embarcação em alto-mar contendo 1,3 tonelada de cocaína.

Eles foram encontrados no oceano, fora da costa brasileira, e tiveram de ser trazidos ao território cearense para os devidos procedimentos. A apreensão foi feita por uma embarcação militar francesa, após compartilhamento de informações de inteligência ao longo do mês de janeiro. 

Uma equipe da PF embarcou na fragata estrangeira para realizar as formalidades legais e conduzir os detidos à Superintendência Regional. 

A operação reforçou a cooperação internacional no combate ao crime organizado transnacional e a atuação integrada no monitoramento e repressão ao uso de rotas marítimas para o envio de cargas ilícitas.

3,46
toneladas de cocaína apreendidas no Porto do Mucuripe entre 2021 e 2026

Nesses últimos seis anos, o único ano em que não teve apreensão foi em 2024. Isso ocorreu, segundo o delegado de Polícia Federal Santiago Fernandes, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), pois houve o desmantelamento de uma organização criminosa que tinha participação ativa do Coordenador de Movimentação de Contêineres da unidade portuária, que atualmente está preso preventivamente

Os dados repassados pelo delegado ao Diário do Nordeste mostram que, nos últimos anos, tem se apreendido mais cocaína no Porto do Mucuripe do que no Porto do Pecém. Entre 2023 e 2025, o Pecém teve apreensão de 876,7 kg do entorpecente ilegal, e o ano com maior apreensão foi 2023 (712 kg). 

 

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