'Disseram que iam me esquartejar', relata vítima sequestrada após pedir 'corrida por App' em Fortaleza

A passageira compartilhava o link da corrida com a mãe, mas o compartilhamento foi apagado pelos criminosos.

Escrito por Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
13 de Julho de 2026 - 12:51
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Legenda: A vítima pediu a corrida quando saía de um restaurante no bairro Meireles, na última sexta-feira (9).
Foto: Shutterstock.

A mulher de 27 anos, vítima de um sequestro-relâmpago em Fortaleza na última quinta-feira (9), concedeu entrevista ao Diário do Nordeste e contou detalhes dos momentos de terror vividos dentro do carro e no cativeiro para onde foi levada pelos criminosos.

A vítima, de identidade preservada, disse ter ficado "encapuzada todo o tempo" e que recebia ameaças de morte por parte dos sequestradores: "diziam que iam me matar, matar minha família, meus cachorros, disseram que iam me esquartejar se eu denunciasse".

Cinco pessoas foram presas em flagrante pelo crime, sendo três homens e duas mulheres. Após audiência de custódia, quatro tiveram a prisão convertida em preventiva e um teve liberdade provisória.

Um dos suspeitos pelo sequestro e extorsão é o motorista de aplicativo Matheus Bandeira Fontoura, de 31 anos, que conduzia o veículo solicitado pela vítima por meio do aplicativo Uber.

Os advogados Alysson Moura Arruda e Karla Celeste Silva de Araújo, que representam a defesa do suspeito, afirmam que "o motorista, longe de integrar a atuação criminosa narrada na investigação, também foi vítima da situação que deu origem aos fatos" (Veja no fim da matéria a nota na íntegra).

'APAGARAM O COMPARTILHAMENTO DA MINHA CORRIDA'

A passageira embarcou no veículo quando saía de um restaurante no bairro Meireles, zona nobre de Fortaleza.

A vítima contou à reportagem que havia pedido uma corrida na 'Categoria Comfort' e que o motorista era bem avaliado no aplicativo.

Logo após embarcar no carro, o motorista teria dito a ela que tinha perdido a conexão de internet e pedido que a passageira o orientasse com qual melhor caminho até o destino final dela.

Instantes depois, Matheus teria alterado deliberadamente o percurso e reduzido a velocidade em um determinado ponto da cidade, permitindo a entrada de mais duas pessoas no carro.

Em seguida, os criminosos ameaçaram a vítima com um simulacro de arma de fogo, no bairro Montese, utilizado como cativeiro.

"Eu tive todas as precauções possíveis para ter uma corrida segura e, infelizmente, isso não aconteceu. Eu sempre fui muito cuidadosa ao pegar Uber, olhava a nota, olhava tudo. Essa pessoa em questão era bem avaliada na Uber e era Uber Comfort. Eu compartilhei a corrida com a minha mãe, mas, como eles estavam em posse do meu celular, eles apagaram o compartilhamento".

EXTORSÕES E SAQUES DURANTE O TRAJETO

Durante o período em que a vítima foi feita refém, os criminosos fizeram diversas transferências via Pix, contrataram um empréstimo de R$ 7,5 mil e efetuaram "compras" com os cartões dela em uma maquineta.

Um dos beneficiados pelas transferências foi Matheus, o motorista da corrida por aplicativo, que recebeu R$ 600.

A passageira diz que "pareceu uma eternidade" o tempo no qual ela ficou como refém do bando.

"Eu não sei para onde me levaram, não sabia endereço, não sabia de nada... Quando eles me soltaram perto da minha casa, no mesmo bairro, mandaram eu não gritar, não alarmar que era um sequestro, esperei pra poder correr. Foi quando um porteiro de um prédio me ajudou e eu consegui entrar em contato com os meus pais", disse a vítima.

Em nota enviada à reportagem, a Uber lamentou o caso e informou que o motorista teve a conta desativada da plataforma. Além disso, declarou que "permanece à disposição das autoridades para colaborar com as investigações, na forma da lei".

Segundo a empresa, todas as viagens são cobertas por um seguro e, em parceria com o MeToo Brasil, conta com um canal de suporte psicológico, que foi disponibilizado à passageira. A vítima segue cobrando responsabilização por parte da Uber.

Grupo planejava outros sequestros

No interrogatório policial, Cláudio Natan Barros da Silva, conhecido como "Sorriso", apontado como um dos principais articuladores da ação criminosa, afirmou que a ideia do sequestro partiu de Matheus.

Segundo o preso, que estava entre os dois que embarcaram no veículo durante a corrida e que é companheiro de uma das mulheres presas pelo crime, o comparsa costumava sugerir vítimas para "futuros sequestros", incluindo alvos específicos, como a ex-esposa dele, que é médica "e ganha bem", e uma enfermeira.

Já Matheus, que disse estar adquirindo um bar na Capital e ser dono de uma empresa de engenharia e energia solar em João Pessoa, na Paraíba, alegou que agiu sob coação.

À Polícia, ele afirmou ser usuário de cocaína e que comprava droga de Natan. Nesta versão, o traficante é quem o teria convidado para participar do assalto.

Outros presos pela ação criminosa são Otavio Joas Martins de Castro e Ana Karolina da Silva Horta.

A Polícia apreendeu joias da vítima, uma arma falsa, dinheiro em espécie, além de porções de maconha e cocaína.

Os suspeitos foram autuados em flagrante pelos crimes de roubo majorado, extorsão qualificada pela restrição da liberdade da vítima, associação criminosa e tráfico ilícito de drogas.

NOTA DA DEFESA DE MATHEUS:

"Os advogados Alysson Moura Arruda (OAB/CE nº 54.548) e Karla Celeste Silva de Araújo (OAB/CE nº 55.402), constituídos para a defesa do motorista apontado nas investigações recentemente divulgadas pela imprensa, vêm a público prestar os seguintes esclarecimentos: O processo criminal encontra-se em sua fase inicial, estando a persecução penal ainda em estágio embrionário, razão pela qual os elementos produzidos até o momento possuem natureza investigativa e ainda serão submetidos ao crivo do contraditório e da ampla defesa perante o Poder Judiciário. 

A Defesa esclarece que os fatos não ocorreram da forma como constam dos elementos colhidos na fase inquisitorial e sustenta que, ao longo da instrução processual, ficará demonstrado que o motorista, longe de integrar a atuação criminosa narrada na investigação, também foi vítima da situação que deu origem aos fatos. Todos os esclarecimentos e elementos probatórios pertinentes serão apresentados no momento processual oportuno, em respeito ao devido processo legal e às regras que regem o processo penal brasileiro. 

A Defesa reforça que o investigado é pessoa sem antecedentes criminais, sempre exerceu atividade lícita e jamais respondeu a processo criminal, circunstâncias que também serão devidamente consideradas durante a instrução. Por fim, a Defesa reafirma sua confiança no Poder Judiciário e no devido processo legal, convicta de que a verdade real será plenamente esclarecida com a produção das provas em juízo, oportunidade em que ficará demonstrada a efetiva dinâmica dos fatos".

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