Centenário é testemunha viva da história mundial

Conhecido como Zé Honório, o produtor rural e servidor público de Iguatu chega aos 100 anos com vitalidade

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Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: José Honório Barbosa viveu a Iguatu de seu tempo. Conheceu Humberto Teixeira e as disputas políticas da época, e resistiu às mudanças no mundo
Foto: FOTO: HONÓRIO BARBOSA

Fortaleza. Em tempos de celebridades instantâneas, da invenção dos mitos, e da espetacula-rização do bizarro, um homem (in)comum se afirma pela sinceridade e pelos valores. José Honório Barbosa vem de um outro tempo, marcado pela retirada das folhinhas do calendário, onde tudo parecia demorar a acontecer. Nasceu a 24 de maio de 1914, no sítio Cruiri, a 3km da cidade de Iguatu.

Reverberavam os ecos da Guerra do Juazeiro. O mundo também estava conflagrado. O trem corria o sertão com seu rastro de fumaça. O algodão movimentava muitas usinas.

Ele foi sempre conhecido por Zé Honório. Surpreende ver aquele homem pequeno e franzino, de andar firme, atravessando ruas e avenidas, circulando pelos shoppings, cafés, supermercados, e "self-services" da Aldeota (a família vive num apartamento da Rua Marcos Macedo, 116), como se não tivesse sido molestado pelo tempo.

O pai, Honório Barbosa, pequeno proprietário (20 tarefas), plantava algodão, milho, e criava umas cabeças de gado, para assegurar o consumo do leite. A mãe Maria da Glória Ferreira Passos tinha uma máquina de costura. Dos filhos do casal, estão vivos: Augusto, Santaninha (Ana Barbosa), Alfredo e Zé Honório, o primogênito.

Aos dois anos, a família foi para a Amazônia, em busca de melhoria de vida, e ficou cinco anos por lá. O pai foi trabalhar como seringueiro. As lembranças são vagas, Zé Honório fala em "muita água, mata, sezão danada". Ele adoeceu gravemente. Chegaram a fazer o caixão para o anjinho. Sobreviveu. A família voltou para o Ceará.

Teve apenas um ano de estudo em colégio, e complementou sua formação com uma professora particular. Casou-se, em 1947, com a prima, Maria Eudócia Pinho Barbosa, hoje com 93 anos. Tiveram dois filhos, Marilena, funcionária pública, que vive com eles, e Alberto, médico, que faleceu em São Paulo, em 1991, ainda hoje, uma perda muito sentida.

Ele começou na agricultura. Depois do casamento, passou a trabalhar na Escola Profissional Batista de Oliveira, até se aposentar e se transferir para Fortaleza, em 1979, onde já viviam a filha e a esposa. O filho se formou em Medicina, no Recife (UFPE), em 1977.

Voltando mais no tempo, "gostava de dançar e tinha raiva de quem bebia". O sítio tinha reisado, cantadores, sanfoneiros, rabequistas, e as festas eram feitas nos terreiros das fazendas. Tanto tempo depois, a casa do sítio Cruiri ainda está de pé.

Zé Honório viveu a Iguatu de seu tempo. Conheceu Humberto Teixeira, relembra as refregas políticas, entre o partido do Doutor Gouveia (PSD) e o do Adahil Barreto (UDN). A cidade tinha festas no Palacete Otaviano e luz até as nove da noite.

Evoca a irradiadora Voz do Progresso de Iguatu (VPI), na década de 1950, e a inauguração da Rádio Iracema, no início dos anos de 1960. Luiz Gonzaga "as vezes, aparecia por lá", principalmente na época das eleições. Em 1954, Humberto Teixeira foi candidato a deputado federal (ficou na suplência e assumiu posteriormente) e Gonzagão fez "shows" para o parceiro.

Lamenta a destruição interna das colunas e altar da Igreja Matriz de Senhora Santana, padroeira do Iguatu: "Deixaram só a fachada e as paredes laterais", constata.

Fala do trem, com saudades: "Vendiam de tudo nas janelas, nas paradas e estações: chapéu de couro (panqueca de milho, leite, ovos e açúcar), pamonhas e frutas".

Zé Honório sempre foi magro, diz que é "calibre". Passou a cuidar da alimentação depois de idoso. Teve um problema de próstata, tratado no Rio de Janeiro. Jovem, tomava café da manhã com tapioca e queijo. O almoço era reforçado: carnes, feijão com toicinho, farinha, pão de milho. O cardápio do jantar tinha carne de porco e baião-de-dois. Não gostava de leite e preferia o queijo de manteiga ao de coalho.

O pai morreu aos 65 anos, de ataque cardíaco, e a mãe atingiu os 93. Ele chega ao centenário. Foi testemunha de um século onde tudo aconteceu: ascensão e queda do comunismo, bomba atômica, Hitler, rock, viagem à lua, mídias, computadores.

Zé Honório teve, no equilíbrio e na falta de estresse, a razão de sua longevidade, comemorada pela família e pelos amigos, do Iguatu, de Fortaleza e do mundo.

Gilmar de Carvalho
Especial para o regional