A bancada do Ceará na Câmara dos Deputados terá pelo menos quatro mudanças na próxima legislatura. Luizianne Lins (Rede), Júnior Mano (PSB), Eunício Oliveira (MDB) e José Guimarães (PT) não estão entre os deputados que tentarão renovar o mandato na Câmara.
Os quatro chegam ao fim desta legislatura depois de movimentos diferentes, mas que se cruzaram durante a montagem da chapa governista para as eleições deste ano. Em momentos distintos, Luizianne, Eunício, Guimarães e Júnior Mano estiveram envolvidos nas articulações pelas duas vagas ao Senado na chapa do governador Elmano de Freitas (PT).
No fim, Luizianne conseguiu uma delas. Júnior Mano entrou na chapa como primeiro suplente de Cid Gomes (PSB). Eunício ficou fora da disputa após meses de articulação para viabilizar a candidatura e enfrentar problemas de saúde. Guimarães, que também pretendia concorrer ao Senado, mudou os planos após aceitar o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para assumir a articulação política do Governo Federal.
Maioria fica no jogo
Enquanto os quatro parlamentares seguiram outros caminhos, os demais 18 deputados federais em exercício pelo Ceará registraram candidatura à reeleição. Isso significa que 81,82% da atual bancada tentam permanecer na Câmara.
Os dados foram conferidos pelo PontoPoder a partir dos registros de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ao todo, 292 registros de candidatura foram apresentados para as 22 vagas do Ceará na Câmara. O número final de registros deferidos, porém, ainda pode mudar, já que os pedidos passam pelo julgamento da Justiça Eleitoral.
Por trás das quatro saídas já definidas, houve meses de negociações. A formação da chapa governista para o Senado passou por mudanças, disputas internas e rearranjos que só foram fechados perto das convenções.
Planos mudaram
José Guimarães passou boa parte do período pré-eleitoral com o nome colocado para o Senado. O agora ministro defendia a candidatura e trabalhava para ocupar uma das duas vagas na chapa majoritária de Elmano de Freitas.
Os planos mudaram em abril deste ano, quando o presidente Lula chamou Guimarães para assumir a Secretaria de Relações Institucionais (SRI), responsável pela articulação do Palácio do Planalto com o Congresso. Para aceitar o convite, o cearense precisou deixar de lado o projeto eleitoral.
Na época, ao falar sobre a decisão, Guimarães admitiu que a mudança envolveu um sacrifício político. O petista vinha construindo o caminho para disputar o Senado, mas disse ter atendido a um apelo de Lula para assumir a função no Governo Federal.
A ida para o ministério também fechou a possibilidade de Guimarães tentar mais um mandato na Câmara. Ele assumiu a SRI em abril, quando já havia passado o prazo de desincompatibilização para que ministros pudessem concorrer nas eleições deste ano.
Mesmo fora das urnas, Guimarães continuou participando das articulações eleitorais no Ceará. Na reta final da montagem da chapa governista, o ministro esteve em parte das conversas com Lula sobre a definição dos nomes para o Senado que definiu a indicação de Luizianne para a chapa do governador.
Virada com Cid
Júnior Mano também passou boa parte do período pré-eleitoral olhando para o Senado. Durante as articulações, Cid Gomes trabalhou para que o deputado fosse o nome do PSB para uma das duas vagas.
Naquele momento, Cid dizia que não pretendia disputar um novo mandato e defendia Júnior Mano para ocupar o espaço do partido na chapa. O deputado, então, passou a trabalhar para entrar na disputa majoritária em vez de buscar mais quatro anos na Câmara.
O cenário mudou perto do fechamento das alianças. Cid, que até então resistia a concorrer novamente, acabou entrando na disputa pela reeleição ao Senado.
A mudança também alterou os planos de Júnior Mano. Em vez de ser o candidato do PSB ao Senado, o deputado passou a integrar a chapa como primeiro suplente de Cid.
O próprio senador relatou que Lula participou dessa costura e fez um apelo para que Júnior Mano aceitasse a suplência.
O arranjo foi fechado na reta final das articulações e manteve os dois na disputa: Cid como candidato ao Senado e Júnior Mano como suplente. Depois dessa articulação só restava mais uma vaga na chapa e muita gente na disputa por ela.
Eunício tentou até o fim
Eunício Oliveira foi um dos que passaram meses trabalhando para voltar ao Senado. O deputado colocou o nome à disposição, buscou apoio político e tentou garantir ao MDB uma das vagas da chapa de Elmano.
A movimentação ganhou força ao longo do primeiro semestre. Eunício reuniu manifestações de apoio de prefeitos e lideranças municipais e manteve publicamente a intenção de disputar o cargo que ocupou entre 2011 e 2019.
O projeto continuou mesmo depois de o parlamentar precisar se afastar temporariamente das atividades políticas. Em junho, Eunício informou que havia sido diagnosticado com anemia profunda e que passaria por tratamento. Naquele momento, ainda reafirmou a intenção de concorrer ao Senado.
Durante o afastamento, aliados continuaram movimentando as redes sociais em defesa da candidatura. Após receber alta, o deputado voltou às atividades políticas e permaneceu nas negociações por espaço na chapa governista.
A desistência veio apenas na reta final. Na convenção estadual do MDB, em agosto, Eunício anunciou que não disputaria as eleições e relacionou a decisão às condições de saúde após o tratamento.
Com a decisão, Eunício ficou fora da disputa pelo Senado e não tentou renovar o mandato na Câmara.
Luizianne na chapa
Foi nesse cenário de mudanças que a candidatura de Luizianne Lins ao Senado acabou se consolidando. A movimentação da ex-prefeita, porém, havia começado meses antes e ainda dentro do PT.
Em abril, depois de 37 anos de filiação, Luizianne deixou o PT e se filiou ao partido Rede. A mudança de partido, no entanto, não significou um rompimento com o grupo governista no Ceará. A deputada manteve o apoio a Elmano e continuou trabalhando para levar sua candidatura ao Senado para dentro da chapa.
As definições vieram na reta final. Com Guimarães fora das urnas, Cid de volta à disputa pelo Senado, Júnior Mano acomodado como suplente e Eunício fora da eleição, Luizianne foi enfim confirmada como o segundo nome da chapa governista para o Senado após interferências do presidente Lula na montagem da chapa no Ceará.
A confirmação encerrou uma movimentação que passou pela saída do PT, a filiação à Rede e meses de negociação para permanecer no mesmo campo político, mas agora na disputa por uma vaga na Casa Alta.
Com os quatro movimentos, as cadeiras hoje ocupadas por Luizianne, Júnior Mano, Eunício e Guimarães necessariamente terão novos titulares em 2027. Nas outras 18, porém, estar na cadeira hoje não significa estar nela em 2027, afinal, a composição final dependerá do resultado das urnas.