Documentos da Polícia Federal (PF) indicam que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, tinha participação ativa num suposto esquema de tráfico de influência, mas era preservado pela lobista Roberta Luschsinger. "Fábio não faz nada. Ele só entra em campo quando precisa. Tem que se preservar", diz mensagem da lobista Roberta em novos detalhes da apuração da PF revelados pela revista Veja nesta quinta-feira, 20.
Segundo relatório da PF, Fábio Luís é citado em mensagens encontradas no celular de Roberta como o "beneficiário indireto" das negociações com empresários que tinham interesses em contratos do governo federal. "As comunicações indicam que Fábio é mencionado por Roberta Luchsinger como referência decisória nos projetos discutidos. Ele foi indicado como beneficiário indireto das articulações conduzidas por terceiros em seu nome", diz o relatório, revelado pela Veja.
Não há, no entanto, referência a negócios que o Lulinha e Roberta tenham efetivamente fechado com o governo federal. A defesa de Lulinha sustenta que ele tem sido investigado há anos e nunca foi encontrado nada que o desabonasse. O advogado Marco Aurélio de Carvalho tem reiterado reclamações sobre vazamento das investigações.
De acordo com a revista, a PF aponta que Roberta, Lulinha e Fernando Kalil, sócio do filho do presidente, atuavam de maneira combinada. Os três compartilhavam um grupo de Whatsapp chamado Musaranhos, onde Roberta era a musa, e Lulinha e Fernando os musos. Ali, eles trocavam mensagens sobre os negócios que tentavam emplacar junto ao governo federal.
Um deles envolve a tentativa de convencer o Ministério da Saúde a adquirir produto à base de canabidiol, um dos empresários beneficiados seria o Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS". Como revelou o Estadão/Broadcast, Roberta aparece em conversas dizendo que ela e Fábio eram uma coisa só. "Eu sou o Fábio", escreveu a lobista.
Nas mensagens de celular, Roberta ainda conta como atuava junto ao governo federal. Roberta explica o caminho que ela trilhava para driblar os problemas: "Eu trabalho a política via Palácio. Eu sou boa de costura política".
No caso do canabidiol, havia necessidade de convencer o Ministério da Saúde a adquirir o produto. Entrou então na articulação o então chefe de gabinete de Lula, conhecido como Marcola. Ele teria atuado para marcar reunião de Roberta com o então secretário-executivo da Saúde Swedenberger Barbosa, o Berge.
Segundo a revista, a reunião na Saúde só ocorreu por interferência direta de Lulinha. "Pousei. Vou lá no Berge", escreveu Roberta em mensagem direcionada a Lulinha em março de 2024. "Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo (beijo) pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou", brincou o filho do presidente Lula. "Precisamos 100% do Berge", respondeu Roberta.
Ainda segundo a Veja, a PF registra a atuação de Lulinha e sua amiga Roberta em outro setor do governo, a Telebras. Em conversas, eles reclamam na atuação de Kalil Bittar, irmão de Fernando, que estaria usando o nome de Lulinha para obter negócios facilitados na estatal. "Kalil vendendo vc e a grande influência dele para o presidente da Telebras. Quase fechando um negócio gigante", escreveu Roberta em mensagem para Lulinha. "Vendendo facilidades, Telebras contrata ele, plataforma dele, coisas que ele indicar", completou a lobista. Segundo a revista, Lulinha teria respondido para que ela desmentisse que ele havia autorizado o uso de seu nome para essa negociação.
A investigação da PF faz parte dos inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal. Nesta quinta, apesar do conteúdo do relatório policial, o Ministério Público enviou um parecer ao ministro André Mendonça, relator de dois dos três inquéritos que envolvem Lulinha, solicitando que o caso seja remetido a outra instância judicial. O MPF sustenta que não há autoridade sob investigação para manter o inquérito no Supremo.
A revista revela ainda conversas entre Roberta e Lulinha indicando que a lobista era responsável por pagar despesas do filho do presidente da República. Há menção a uma viagem para a África, organizada por Roberta, e que custaria US$ 20 mil por pessoa. "A gente tem grana pra bancar essas coisas? Vc que cuida das minhas finanças", escreveu Lulinha. Em outra conversa, o filho do presidente fala sobre a possibilidade de um novo negócio que ambos tratavam. A revista Veja não especifica que negócio seria esse. "Coisa boa paporra", comenta Lulinha por mensagem.
Cargo no governo Lula
Em outro trecho de conversa recuperada pela PF a lobista aparece gabando-se de que o presidente Lula teria lhe oferecido um cargo no governo. Segundo a Veja, Roberta rejeitou a oferta e explicou o motivo a um empresário com quem trocou mensagens pelo celular em 2024.
"Fui das poucas pessoas que o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. (...) Eu disse: aonde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando." "Tô em cargo nenhum e ando onde quero".
Ela ainda resume como é sua relação com Lulinha e o sócio dele Fernando Bittar: "Fefe (Bittar), Fábio e eu somos uma coisa só. Se um fala vai, todos vão. A gente é mesmo irmão".