O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumpre agenda no Ceará, nesta quinta-feira (2), para inaugurar mais dois trechos da Transnordestina, indo de Acopiara à Piquet Carneiro (lote 4) e Piquet Carneiro à Quixeramobim (lote 5). Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, por e-email, o chefe do Executivo reforçou o prazo de entrega previsto para a ferrovia, projeto que acumulou atrasos ao longo dos anos.
"Os 998 km do trecho entre Paes Landim, no Piauí, e o Porto de Pecém devem ser concluídos em julho de 2027", declarou o presidente. Ele também pontuou que o lote entre duas cidades piauienses, Paes Landim e Eliseu Martins, será concluído um ano depois.
Segurança pública
Lula respondeu ainda questões relacionadas à segurança pública e ao crime organizado, educação e cenário político.
Questionado sobre a atuação do Governo no campo da segurança pública, o presidente defendeu a sanção da Lei Antifacção e do Programa Brasil Contra o Crime Organizado.
"Nunca, antes de nós, um governo teve a coragem de enfrentar o andar de cima do crime organizado, os bandidos de terno e gravata que transitam na Faria Lima, que ganham com as atividades criminosas e também financiam o tráfico e a violência", afirmou.
Confira a entrevista completa:
Presidente, as obras da Transnordestina estão avançando. O senhor está vindo ao Ceará para inaugurar novos trechos, mas ainda há etapas desafiadoras pela frente. O Governo trabalha com qual previsão de conclusão para o projeto?
A Transnordestina já poderia estar pronta se os governos anteriores se importassem com o desenvolvimento do Nordeste e do Brasil. Não destravaram recursos públicos, nem apoiaram o investimento privado, e a ferrovia ficou praticamente parada. Meu governo resolveu a questão do financiamento e a obra da Transnordestina voltou a avançar.
Atualmente, são quase 3 mil trabalhadores nas obras, e todos os lotes da obra no Ceará estão contratados e em execução ou prontos. Nesta minha visita ao Ceará, vamos entregar 100 km, no trecho entre Acopiara e Quixeramobim. Os 998 km do trecho entre Paes Landim, no Piauí, e o Porto de Pecém devem ser concluídos em julho de 2027. O trecho do Piauí, de Paes Landim a Eliseu Martins, deve ser concluído um ano depois.
É importante lembrar que, desde o final do ano passado, começaram os primeiros transportes de cargas (especialmente soja, milho e calcário), a partir do Terminal de Cargas em Bela Vista do Piauí/PI a Iguatu/CE, com mais de 20 vagões em um trecho de 585 km. Estamos avançando e a Transnordestina está se transformando em realidade. Conseguimos finalizar a Norte-Sul.
Voltamos a investir em portos e ferrovias e o Brasil voltou a ter a infraestrutura de que precisa para continuar crescendo e gerando oportunidades para todos. E o Nordeste voltou a ser enxergado, também graças à luta de governadores como Elmano, um homem trabalhador, dedicado, e que lutou noite e dia junto ao Governo Federal para apressar essa retomada.
Uma ala do Congresso voltou a cogitar a votação do projeto que estabelece o homeschooling, discussão que estava parada há alguns meses. O senhor vetaria esse projeto se for aprovado?
Seguirei o que determinam a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Lugar de criança e jovem é na escola. O caminho para a educação no Brasil passa pelo forte investimento nas escolas públicas e nos professores. É isso que nossa Constituição manda, e é isso que estamos fazendo como nenhum outro governo.
Quando assumimos, em 2023, muitas crianças ainda estavam para trás nos estudos por conta do fechamento das escolas na pandemia. Fizemos o índice de alfabetização na idade certa chegar a 66% em 2025. O Ceará, aliás, tem 84% das crianças alfabetizadas na idade certa – o melhor índice do Brasil. Graças a nossos investimentos, temos hoje mais de 8,8 milhões alunos do ensino médio em tempo integral. E cerca de 4 milhões de jovens recebendo o Pé-de-Meia para conseguirem concluir o ensino médio.
Investimos R$ 8,8 bilhões para conectar 100 mil escolas à internet, beneficiando 24 milhões de estudantes. E, depois de governos anteriores terem deixado por vários anos a alimentação escolar sem reajuste, já aumentamos em 55% o repasse para alimentação que os alunos recebem na escola.
Com isso, estamos mostrando que o melhor lugar para a criança e o adolescente é a escola de qualidade. É por isso que estamos trabalhando todos os dias. E o Ceará pode se orgulhar de ter uma das melhores educações públicas do Brasil, num projeto iniciado com Cid, Izolda, Camilo e agora Elmano. Foi graças a essa política cearense que Camilo chegou ao Ministério da Educação e fez um grande trabalho.
Em abril, o senhor tomou uma decisão de governo que ajudou a resolver uma questão política no Ceará com a saída do deputado José Guimarães da corrida eleitoral, ao assumir o Ministério. A essa altura, a base do governo Elmano ainda não definiu impasses para anunciar a chapa majoritária. O senhor já recebeu algum pedido do governador ou considera agir de novo para contemplar mais aliados no governo federal e destravar os impasses políticos no Ceará?
As chapas têm até o mês de agosto para serem formadas, e acredito que o companheiro Elmano, como candidato a governador, tem todas as condições para dialogar com as forças políticas cearenses durante esse período.
Queremos aumentar a bancada do PT e de nossos aliados não apenas no Estado, mas também na Câmara dos Deputados e no Senado, onde o Camilo está fazendo um ótimo trabalho na defesa dos projetos de lei que tornam o Brasil um país cada vez mais justo.
Quanto ao José Guimarães, é importante reconhecer que ele desempenhou um papel extraordinário como líder de nosso governo na Câmara. E tenho muita gratidão a ele por aceitar a nova missão de assumir a articulação política do Planalto, mesmo em ano eleitoral.
A verdade é que os cearenses são privilegiados por contarem com políticos deste nível. Isso só me traz a tranquilidade de saber que a composição que teremos nas urnas, seja qual for, representará muito bem o projeto de um Brasil e um Ceará cada vez melhores.
O Nordeste é a sua principal base política no Brasil. Nesse contexto, o Ceará está ganhando mais relevância. Aqui, o Ciro Gomes, que já foi seu aliado, lidera uma aliança com partidos de centro e de direita, como o PL. O senhor acha que o embate local entre as forças políticas pode atrapalhar o resultado do PT no cenário nacional?
Tenho muita gratidão ao povo cearense pelo apoio que eu e meu partido sempre tivemos nas urnas. E sei que, nessas eleições que estão chegando, os eleitores poderão comparar o que cada governante entregou ao país.
Quando assumimos em 2023, encontramos políticas públicas desmontadas, investimentos parados. O Brasil, que tinha saído do Mapa da Fome ainda no governo Dilma, tinha sido colocado de volta nessa lista pela ONU. Tiramos o Brasil do Mapa da Fome, nossa economia voltou a crescer numa média acima dos anos anteriores, o Novo PAC está investindo R$ 1,3 trilhão até o fim deste ano. Nunca o desemprego foi tão baixo no Brasil – está em 5,6%, de acordo com os últimos dados do IBGE.
Neste terceiro mandato, seguimos a mesma linha de desenvolvimento, de cuidado com as pessoas, que tivemos em nossas primeiras passagens pelo Planalto, e quem viveu esse período pode reconhecer essa coerência: um governo do lado do povo brasileiro, do lado da democracia.
E não mudamos de lado, não buscamos alianças com quem prega o autoritarismo. Tenho certeza de que o eleitor saberá reconhecer isso. Elmano representa um projeto que cuida do povo, assim como foi com Camilo, Izolda e Cid.
Ciro resolveu se aliar ao bolsonarismo e a pessoas que já fizeram muito mal ao Ceará.
A violência urbana deve ser um dos principais motes da campanha nacional. Aqui no Ceará, o tema tem sido o mais forte nos embates entre base e oposição. Fala-se muito sobre a necessidade de o governo federal entrar mais no embate em apoio aos estados. Qual a avaliação que o senhor faz sobre o que o seu terceiro governo fez neste sentido? E como o senhor avalia as declarações de que a esquerda não possui um plano estruturado para combater a violência e o crime organizado?
Nunca, antes de nós, um governo teve a coragem de enfrentar o andar de cima do crime organizado, os bandidos de terno e gravata que transitam na Faria Lima, que ganham com as atividades criminosas e também financiam o tráfico e a violência. Apenas no ano passado, para vocês terem ideia, a Polícia Federal resgatou R$ 9,5 bilhões das mãos das facções e organizações criminosas, um recorde obtido com muita inteligência policial e cooperação entre as forças de segurança.
Enviamos ao Congresso Nacional a Lei Antifacção, que foi aprovada em fevereiro e já está valendo, com penas de até 80 anos para os faccionados. Depois dela, iniciamos o Programa Brasil Contra o Crime Organizado, que soma os esforços federais com o das polícias estaduais. Além de operações conjuntas, o plano prevê o apoio com equipamentos e tecnologia para levar o padrão de segurança máxima a 138 presídios estaduais, impedindo que os líderes de facções comandem o crime a partir de suas celas.
Mas queremos ir além – e ter uma atuação muito mais presente nos estados. Foi por isso que enviamos ao Congresso a PEC da Segurança Pública, que traz uma nova divisão de competência entre as forças e permite que o Governo Federal faça muito mais do que pode fazer hoje, em cooperação ainda mais forte com os Estados. Quando a PEC for aprovada, vamos ainda criar o Ministério da Segurança Pública, que será responsável por dar ainda mais força à nossa atuação.