Inserção de IA nas campanhas em 2026 é mais sofisticada que na última eleição, aponta especialista

Segundo Carla Rodrigues, doutora em Comunicação Política pelo PósCom/UFBA e co-coordenadora do Observatório IA nas Eleições, em 2024 houve um uso mais "experimental" da tecnologia.

Escrito por Bruno Leite bruno.leite@svm.com.br
30 de Agosto de 2026 - 13:00
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Legenda: Relatório de iniciativa aponta que nível de desinformação no último pleito foi inferior ao esperado.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

A utilização dos mecanismos de inteligência artificial na campanha eleitoral em curso tem demonstrado um nível de aprimoramento, quando comparada com a inserção desse tipo de tecnologia nas eleições municipais de 2024. Se naquele ano houve um volume de conteúdos que apostavam numa experimentação, agora há uma apropriação mais agressiva que desafia regras impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A constatação é de Carla Rodrigues, doutora em Comunicação Política pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia (PósCom/UFBA) e co-coordenadora do Observatório IA nas Eleições. Ela foi a entrevistada do quadro TechPolítica Eleições*, na Verdinha FM e TV Diário, na última quinta-feira (21).

Uma prova disso é que, antes do pleito municipal de 2024, havia uma expectativa de que as inteligências artificiais provocariam uma avalanche inédita de desinformação. Contudo, um balanço do Observatório pontou que esse uso em massa de IA para desinformar não se confirmou naquele ano, de uma maneira que o impacto foi mais reduzido do que o previsto.

"O que salvou, vamos dizer assim, foi porque a IA naquele momento era muito mais experimental e pontual do que a gente está vendo hoje em dia. Então, não houve essa explosão generalizada como a gente esperava dos conteúdos sintéticos que são capazes de produzir esses cenários extremamente fantasiosos dos quais a gente encontra hoje nas redes sociais", comparou, dando conta do grau de sofisticação atual.

Ao que declarou a especialista durante a entrevista, o Observatório IA nas Eleições aponta que "naquele momento político, nas eleições municipais de 2024, tanto os políticos quanto os partidos ainda estavam testando a possibilidade das tecnologias das IAs generativas". "A gente está falando de deepfakes, da utilização de jingles, para produzir músicas", listou.

Segundo ela, essa experimentação foi "uma forma de introduzir todas as pessoas na discussão de uma forma mais característica das redes sociais", por meio de brincadeiras e danças, "trazendo um pouco dessa alegria que é bem comum do brasileiro". Cenário que difere do observado nesta corrida eleitoral.

Pontos positivos e negativos das IAs nas campanhas

Indagada sobre a possibilidade da inserção da inteligência artificial ter democratizado as campanhas ou ter aberto espaço para abusos que são difíceis de fiscalizar pela Justiça Eleitoral, a entrevistada foi contundente: "as duas coisas aconteceram".

"Tanto nas eleições municipais quanto agora nessa pré-campanha também. Porque a inteligência artificial reduz, querendo ou não, os custos e barreiras para a produção de conteúdo — como as músicas dos próprios jingles, as narrações, as imagens que são geradas para os vídeos e também para as próprias fotos e panfletos que são entregues nas ruas", iniciou.

E continuou: "por outro lado, mostra que essa tecnologia desafia não somente o TSE, mas também a nossa capacidade crítica de entender, enquanto um Estado Democrático, como essa ferramenta pode ir além, a partir do momento que pode ser utilizada para produção de deepfakes e deepnudes para atacar ou justamente para inferir no processo de campanha de candidatas mulheres, por exemplo". 

De acordo com a resolução baixada pela Justiça Eleitoral para a disputa deste ano, dentre outras vedações, é proibido o uso da inteligência artificial para a geração de conteúdo de violência política contra a mulher, sobretudo quando envolva cenas de sexo, nudez e pornografia.

Descumprimento da obrigação de rotulagem

A obrigação da sinalização de uso de inteligência artificial ao difundir conteúdos sintéticos é uma obrigação desde última disputa por cargos no âmbito municipal. Episódios apontam para a recorrência de candidaturas que compartilharam materiais, a exemplo de vídeos e jingles, gerados por IA sem os rótulos exigidos.

Ao que indicou Carla Rodrigues, "a sinalização existe justamente para permitir que o eleitor saiba que aquele conteúdo foi fabricado ou manipulado por uma tecnologia de inteligência artificial". "Então, [a ausência da rotulagem] não deveria ser tratada como um simples erro burocrático", pontuou. 

A ausência da informação pode ter impacto direto na maneira como o eleitor irá formar sua opinião, conforme frisou. "Justamente quando essa informação ela é omitida, o público ele perde o elemento importante e central do qual nós temos, que é justamente avaliar criticamente aquilo que está se vendo. E principalmente quando a gente fala sobre voto", disse. 

"O próprio Observatório mostra que a rotulagem é uma obrigação, justamente por conta da própria resolução do TSE prevista. A ausência dessas sinalizações é uma questão de transparência sobre a própria natureza do conteúdo do qual nos preocupamos", completou.

Em abril, candidatos ainda eram recomendados

Além disso, todo sistema que utilize inteligência artificial deve se recusar a recomendar candidaturas, ainda que solicitado pela usuária ou pelo usuário, a fim de impedir a interferência algorítmica no processo decisório de definição do voto. Contudo, testes realizados pelo Observatório IA nas Eleições em abril mostraram que os cinco principais chatbots gratuitos do mercado descumprem as diretrizes do TSE. 

As testagens apontaram que ferramentas chegaram a atribuir notas e adjetivos como "mais qualificadas" ou "mais radicais" para propostas em temas como Economia, Segurança Pública e Educação, assim como recomendaram candidatos ideais de forma com base no perfil de gênero, região e espectro ideológico simulado pelo usuário.

Segundo Carla Rodrigues, os testes mostraram uma "distância entre a regra estabelecida pelo TSE e o comportamento efetivo dos sistemas de inteligência artificial". Para a pesquisadora, um ranqueamento feito por uma IA "introduz um viés" para que o eleitor seja direcionado a um candidato. 

*Voltado para discussões sobre a influência da inteligência artificial na dinâmica do pleito deste ano, o TechPolítica Eleições é exibido semanalmente durante a corrida eleitoral, às quintas-feiras, na Verdinha FM e na TV Diário.

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