Empresário que atropelou e matou motociclista em zona nobre de Fortaleza vai a júri popular

Kauã Oliveira Guedes e seu amigo, Igor da Silva Lima, foram arremessados da moto após uma caminhonete avançar a preferencial. O condutor morreu e o garupeiro ficou com sequelas.

Escrito por Luana Severo luana.severo@svm.com.br
14 de Setembro de 2026 - 08:00
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Legenda: O empresário dirigia o veículo em alta velocidade e possivelmente sob efeito de álcool e drogas, segundo a investigação.
Foto: Reprodução.

Um ano e dois meses após o atropelamento que causou a morte de Kauã Oliveira Guedes em um cruzamento na zona nobre de Fortaleza, o empresário Rafael Elisiário Ferreira, 43, acusado de dirigir embriagado a caminhonete que colidiu com a moto do jovem, foi pronunciado, o que significa que terá seu futuro definido por um júri popular.

Kauã morreu na noite de 18 de junho de 2025, no Meireles. Ele e o amigo, Igor da Silva Lima, trafegavam em uma motocicleta na Rua Oswaldo Cruz quando o veículo dirigido por Rafael avançou a preferencial na Rua República do Líbano e colidiu com a moto, fazendo com que a vítima ficasse presa embaixo do carro, enquanto Igor foi arremessado contra uma árvore.

À época, a Polícia Militar do Ceará (PMCE) informou que o empresário dirigia em velocidade acima da permitida para a via e apresentava sinais de embriaguez. Com ele, que foi preso em flagrante, mas solto 12 horas depois após pagar fiança, foram apreendidos ainda dois papelotes de cocaína, duas latas de cerveja e algumas unidades de comprimidos psicotrópicos.

R$ 15 mil
Foi o valor pago pelo empresário para sair da prisão sob fiança após a prisão em flagrante. Isso foi possível porque as vítimas ainda estavam sendo socorridas, ele tinha bons antecedentes e o crime era tratado apenas como uma infração de trânsito. Somente depois da morte de Kauã e do avanço do inquérito é que foi decretada a prisão preventiva do empresário, que está detido, efetivamente, desde novembro do ano passado.

As vítimas foram socorridas e levadas com vida para o Instituto Dr. José Frota (IJF), no Centro da Capital, mas Kauã não resistiu aos ferimentos e morreu no dia seguinte à colisão. Já Igor sobreviveu a mais de dois meses internado, inconsciente, só que vive com sequelas nas mãos, nas pernas, além de dificuldade de locomoção.

Na última quinta-feira (10), a Justiça manteve integralmente a pronúncia de Rafael proferida em agosto, mantendo a acusação de homicídio consumado, contra Cauã, e tentado, contra Igor. Os crimes têm a qualificadora de uso de recurso que dificultou ou tornou impossível a defesa das vítimas. A data do júri, porém, ainda não foi definida.

O empresário continuará recolhido na Unidade Prisional Vasco Damasceno Weyne (UP Itaitinga 5) enquanto aguarda o julgamento. O Diário do Nordeste não localizou a defesa dele.

Direção perigosa e omissão de socorro

Em documentos da investigação do caso, obtidos pela reportagem, consta que Rafael trafegava em ziguezague pela rua quando passou o carro por cima da motocicleta de Kauã. Isso, somado à alta velocidade empregada e aos indícios de que o empresário dirigia sob efeito de álcool e, possivelmente, outras drogas, fez com que a Polícia Civil o indiciasse por homicídio doloso (com dolo eventual), ou seja, quando se assume o risco de matar.

"Ele poderia, consciente de que estava embriagado, optar por não dirigir em pleno bairro de Meireles, onde há sempre grande fluxo de automóveis, motocicletas e transeuntes; ele poderia ter guiado com cuidado e parcimônia; ele poderia ter sido cauteloso; procurar manter o veículo em linha reta; frear nos cruzamentos, mas não o fez", concluiu a investigação.

O veículo do réu colidiu contra uma árvore.
Legenda: O veículo do réu colidiu contra uma árvore.
Foto: Reprodução.

Já na denúncia apresentada à Justiça, o Ministério Público do Ceará (MPCE) acrescentou que Rafael ainda se negou a fazer o "teste do bafômetro", que mede a quantidade de álcool no sangue, e não prestou nenhum suporte às vítimas, tendo tentado se proteger de um possível linchamento social em um condomínio residencial próximo.

Defesa sustenta que réu sofre de 'pânico' e 'sensação de perseguição' 

No decorrer do processo, a defesa do empresário apresentou diferentes argumentos para tentar moderar as acusações. Um dos primeiros foi dizer que a conduta do réu não configurou dolo eventual, apenas "imprudência" no trânsito. 

Também foi alegado, e reforçado pelo próprio acusado, que, no momento dos fatos, ele se sentia perseguido e teria entrado em um estado de desespero e ansiedade que o fez perder o controle do veículo. Além disso, ele sustentou que faz tratamento psiquiátrico e psicológico e uso contínuo de medicamentos controlados.

Sobre a omissão de socorro e possível tentativa de fuga do local do crime, Rafael afirmou que buscou abrigo no condomínio por medo de ser agredido ou linchado pelos moradores da região, que ficaram revoltados com o episódio, e ressaltou que permaneceu no local até a chegada dos policiais e se identificou como o condutor do veículo envolvido na colisão.

Também ponderou que entregou voluntariamente sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH) à Justiça, que acionou o próprio seguro veicular para cobrir os prejuízos da motocicleta atingida e que tentou oferecer suporte financeiro às famílias das vítimas. Por fim, destacou ser réu primário, de bons antecedentes, sem histórico de violência no trânsito.

Sobrevivente negou que réu ofereceu suporte ao tratamento

Em depoimento à Polícia prestado em janeiro deste ano, Igor, sobrevivente do atropelamento, afirmou não lembrar do momento da colisão. Segundo ele, sua última lembrança foi estar saindo de uma lanchonete com Kauã. Depois disso, acordou no hospital.

Kauã morreu com apenas 18 anos de idade.
Legenda: Kauã morreu com apenas 18 anos de idade.
Foto: Arquivo Pessoal.

Ele relatou ainda que ficou internado por pouco mais de dois meses no IJF e que foi submetido a três cirurgias devido às fraturas que sofreu nos braços e em uma das pernas. Pontuou ainda que ficou com limitações físicas e dores diárias, precisando do auxílio de muletas para andar.

Além disso, ele garantiu que nem Rafael nem qualquer familiar dele prestou suporte financeiro ou qualquer auxílio para custear medicamentos e fisioterapia.

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