Sob suspeita de lavagem de dinheiro, a Polícia Federal prendeu em flagrante na tarde dessa quarta-feira (30), na saída de uma agência bancária no bairro Aldeota, em Fortaleza, Douglas Queiroz Farache. Com o homem foram encontradas duas mochilas cheias de dinheiro em espécie divididos em notas de R$ 5 a R$ 100 totalizando R$ 350 mil.
Antes da captura houve perseguição policial. A reportagem do Diário do Nordeste obeteve documentos da investigação que indicam que o suspeito tentou fugir após avistar a viatura da PF "por portar vultosa quantia de origem suspeita, causando colisão contra três veículos de terceiros e contra um poste".
Documentos obtidos pela reportagem revelam que um relatório de inteligência financeira indicou que a movimentação de quantias expressivas e provisionamento de saques de valores milionários são aparentemente incompatíveis com a capacidade financeira de Douglas e de outro homem investigado.
Mais R$ 750 mil estavam previstos para ser sacados em agências na Aldeota e no Cocó nesta quinta (1º) e sexta-feira (2).
[ATUALIZAÇÃO às 16h41]
A defesa de Douglas, que já respondia a processos por estelionato e furto, foi procurada pela reportagem e diz que "as alegações da Polícia Federal não procedem e nega qualquer relação com políticos e campanhas. O dinheiro é absolutamente lícito, tanto de origem como de destino", segundo o advogado Renato Araújo.
A PF pediu à Justiça a conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva, mas até o início da tarde desta quinta-feira (1º), o suspeito ainda não havia passado por audiência de custódia.
A Polícia requereu também que a Justiça autorize acesso a todos os dados de três telefones apreendidos com o suspeito. Os policiais querem ter acesso a chamadas, conteúdos das comunicações via aplicativos do tipo Whatsapp, Telegram ou SMS; vídeos; áudios; fotos e informações de georreferenciamento existentes nos telefones celulares apreendidos na posse dos investigados.
CARRO ADESIVADO
A Polícia investiga uma suposta relação dos saques expressivos nas vésperas da Eleição 2026 às campanhas de dois políticos, candidatos a deputado federal e estadual. Os nomes dos políticos serão preservados nesta matéria porque, segundo a própria PF, ainda não há indicativos de uma relação direta entre eles.
A investigação aponta que não há indício que demonstre, neste momento, "vínculo entre o numerário e campanha eleitoral, sendo necessário o aprofundamento investigativo".
No veículo de luxo onde o suspeito estava eram transportados aproximadamente R$ 350 mil em espécie.
Foram apreendidos R$ 70 mil em cédulas de 100, R$ 200 mil em cédulas de R$ 50, R$ 52 mil em cédulas de 20, R$ 25 mil em cédulas de R$ 10 e mais R$ 3 mil em cédulas de R$ 5.
Conforme os documentos obtidos pela reportagem, Douglas realizou o saque na agência bancária na Aldeota e foi abordado nas ruas próximas. "Apesar de estarem na viatura da Polícia com sirene ligada, Douglas tentou evadir-se do local com o carro e provocou um acidente de transito envolvendo três veículos. Douglas só parou porque no acidente o carro que estava dirigindo bateu em um poste".
O veículo Haval H9 estava adesivado com propagandas de dois candidatos, mas não foi encontrado na posse de Douglas qualquer outro material de campanha eleitoral.
Na versão do investigado, aquele dinheiro era seu e ele trabalha com compra e venda de carros.
No momento da prisão, o suspeito estava em posse de três celulares e em ligação.
"A locução dos fatos, como apresentada, além de sua gravidade intrínseca, revela disposição concreta de subtrair-se à ação estatal ao custo do risco a terceiros, circunstância relevante para a análise do perigo que a liberdade do conduzido representa à aplicação da lei penal"
Para os investigadores, "a atividade informada variou entre autônomo, revendedor de veículos e empresário, mas as instituições reiteradamente classificaram a movimentação como incompatível com a capacidade financeira declarada".
INVESTIGAÇÃO EM ANDAMENTO
Douglas teria dito aos policiais que o carro que ele dirigia foi emprestado por um amigo. O veículo está em nome de um comerciante de Itapipoca, com histórico de participação na política local, tendo concorrido ao cargo de vereador em pleitos anteriores.
Consta ainda no nome do proprietário do veículo passagem por porte ilegal de arma de fogo e um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) por transporte irregular de eleitor no ano de 2012.
O Diário do Nordeste também apurou que estavam provisionados cerca de R$ 2,4 milhões para serem sacados nos próximos dias, com justificativas, como: 'pagamento ao fornecedor' e 'não desejo informar' motivo para o saque expressivo.
De 2021 até agosto de 2025, o investigado, segundo relatório, movimentou quase R$ 2 milhões no crédito e mais outros R$ 1,8 milhão no débito, em diversos bancos.
"Como circunstância ratificadora do flagrante, destaca-se que a disposição das notas sacadas... que revelam grande probabilidade de intenção de pulverização, já que a concentração em notas com valores normais maiores certamente diminuiria o volume a ser carregado".
Para a Polícia, o cenário financeiro contemporâneo, "caracterizado pela ampla disponibilidade de meios eletrônicos de pagamento instantâneo, rastreável e de reduzido custo operacional, a opção pela retirada e transporte de expressivos valores em espécie produz, objetivamente, a diminuição da rastreabilidade dos fluxos financeiros".