Foram duas décadas de silêncio, incertezas e buscas incessantes por locais que Evanildo Albino dos Santos costumava frequentar em Fortaleza. Até que em 18 de junho de 2022, a família recebeu a notícia tão esperada: o patriarca foi encontrado. Evanildo estava há cerca de 12 anos na Toca de Assis, uma unidade de longa permanência para pessoas idosas. Uma das filhas, a doméstica Silvia Helena de Albuquerque, conseguiu o tão sonhado reencontro com o pai, e pôde se despedir dignamente, pois somente quatro meses depois, seu Evanildo morreu em decorrência de um câncer.
“O que eu mais pedi a Deus é que eu reencontrasse ele e que não deixasse ele partir sem eu encontrar ele com vida, e Deus atendeu o meu pedido", relatou Silvia, em entrevista ao Diário do Nordeste.
O momento foi possível após intermédio do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (PLID) do Ministério Público do Ceará (MPCE), que cerca de um ano antes, em 2021, também mediou o reencontro de Antônia do Nascimento Araújo, uma mulher que estava sem contato com a família há cerca de 25 anos e foi localizada em Fortaleza. Ela conversou virtualmente com parentes que estavam vivendo atualmente em Roraima.
Nesta quinta-feira, você confere a última reportagem da série especial 'Onde está você?', publicada no Diário do Nordeste. Nesta matéria, abordamos histórias de quem já reencontrou, de alguma forma, um ente querido no Ceará.
O REENCONTRO
A última vez que Silvia Helena havia visto o pai antes do seu desaparecimento, foi quando ela tinha entre 17 e 18 anos. Apesar da longa espera, a família permaneceu morando na mesma residência, mantendo o mesmo endereço em uma esperança silenciosa de um eventual retorno.
Diagnosticado com câncer e recebendo cuidados paliativos na Toca de Asssis, Evandro hesitava em autorizar a procura por seus familiares, um receio que a equipe técnica que o acompanhava atribuía à vergonha ou ao medo de uma possível rejeição.
Contudo, à medida que o câncer avançava, a assistência social da Instituição de Longa Permanência sensibilizou o idoso. À época, a assistente social Ana Maria da Silva Lima articulou o contato com o MPCE. “Queríamos trazer uma melhoria para sua qualidade de vida com esse reencontro”, pontuou.
pessoas desaparecidas foram localizadas no Ceará em 2026
De posse de informações do histórico de vida de Evanildo, uma assistente social do PLID, Rejane Sales Rodrigues, foi até o bairro Sapiranga, em Fortaleza, local onde a família dele costumava morar.
Ao se aproximar da comunidade, a equipe localizou uma cunhada de Evanildo e tia de Silvia Helena. A confirmação de que o idoso estava vivo despertou uma forte emoção nos parentes.
Silvia Helena passou a visitar o pai semanalmente, para aproveitar todo o tempo possível, já que o câncer do pai era, infelizmente, terminal. Nos encontros, a família promoveu comemorações de aniversário e do Dia dos Pais ao lado do idoso.
"Eu pude abraçar, pude olhar nos olhos dele. Mesmo ele debilitado, a gente pôde fazer tantas coisas. Pude fazer aniversários para ele, comemorar o Dia dos Pais, ainda consegui levar meus sobrinhos para vê-lo", relembra Silvia Helena.
Evanildo conheceu oito netos e sobrinhos, que até então não sabiam da existência do avô vivo.
Foi maravilhoso tanto para mim, quanto para a minha mãe, para o meu irmão e para os netos, que ele já tinha e nem sabia. Ele conheceu os netos. Foi um sentimento de gratidão por toda essa oportunidade que a gente teve de se despedir dele ainda em vida
DIREITO AO LUTO
Quando Evanildo morreu em outubro de 2022, os parentes puderam prestar as últimas homenagens e realizar um sepultamento digno no jazigo da família. A oportunidade de se despedir trouxe paz e consolo profundo aos filhos, aliviando a dor que uma possível notícia tardia traria.
"Ele está em um lugar que é da minha família, da família da filha dele. Então, ele está entre família. Ele não ficou em um lugar que, se a gente tivesse descoberto depois que ele já tivesse falecido, não seria junto de nós", celebrou Silvia.
Quem também teve direito ao luto, e adicionalmente, à verdade sobre o que aconteceu com o pai foi Heitor Nobre, assistido pela Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPCE).
O pai dele, José Adilson desapareceu em 2022 e acabou falecendo, mas a família só soube efetivamente em dezembro de 2025, após terem deixado amostras de DNA na Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) três anos antes.
A descoberta veio após Heitor ser acionado pelo Núcleo de Direitos Humanos e Ações Coletivas (NDHAC), que realizou um trabalho conjunto com a Pefoce, que conseguiu identificar o corpo de Adilson, que havia sido sepultado como "não identificado".
Em janeiro deste ano, Heitor e a família receberam a certidão de óbito de Adilson. No dia do recebimento, o filho que procurou por três anos pelo pai falou sobre o desfecho triste, mas digno, para a história.
"A esperança é a última que morre. Infelizmente, ao mesmo tempo é uma alívio e ao mesmo tempo uma dor. Não pensei que ia chegar a um ponto de segurar o atestado de óbito dele na mão. Fiquei agoniado porque devido ao desaparecimento dele, a gente ficava naquela esperança, aquela correria. Sempre tinha aquela notícia de falar, 'ah, ele tá aqui', 'ah, eu vi o teu pai ali,' 'ah, eu vi o teu pai no metrô'". comentou.
NA LINHA DE FRENTE
Há quatro anos, a Defensoria Pública do Ceará ampliou sua atuação em casos de desaparecimentos para além da assistência jurídica, e está diretamente com famílias na busca por seus parentes desaparecidos. De acordo com a supervisora do Núcleo de Direitos Humanos e Ações Coletivas (NDHAC) do órgão, Mariana Lobo, a mudança ocorreu após a identificação de possíveis falhas nas investigações, especialmente fora de Fortaleza.
"A realidade que chegava era a de pessoas que faziam um B.O relatando o desaparecimento e, muitas vezes, não existiam diligências de busca. Então, a Defensoria passou a acompanhar essas diligências", explica.
Mariana explica que Fortaleza conta com uma delegacia especializada em pessoas desaparecidas, uma situação que é diferente na Região Metropolitana e no interior do Estado.
Quando essa pessoa desaparece na Região Metropolitana ou no interior do Estado, não existe, na maioria dos casos, um procedimento padrão. Não existem diligências de busca porque ainda não existe um serviço especializado
Diante desse cenário, a Defensoria passou a atuar como elo entre as famílias e os órgãos responsáveis pelas investigações, acompanhando procedimentos, sugerindo diligências e orientando parentes sobre o andamento das buscas. Paralelamente, a instituição também intensificou a interlocução com a Perícia Forense do Ceará (Pefoce).
Foi nesse trabalho que surgiram casos de pessoas consideradas desaparecidas que, na verdade, já haviam sido localizadas sem identificação pelo próprio Estado. “Nós nos deparamos com diversos casos de pessoas que tinham BO de desaparecimento, mas que já tinham dado entrada na Pefoce e já tinham sido, inclusive, sepultadas”, relata.
famílias de pessoas desaparecidas no Ceará são acompanhadas pela Defensoria
O objetivo desse acompanhamento é oferecer suporte tanto na tentativa de localização quanto na garantia de direitos dos familiares. “A gente trabalha não só na tentativa de localizar essas pessoas, mas também para dar assistência jurídica e garantir os direitos dessas famílias e dessas pessoas desaparecidas”, destaca.
A defensora também ressalta a importância do Comitê Estadual de Pessoas Desaparecidas, que reúne instituições como Defensoria Pública, Ministério Público, Tribunal de Justiça e órgãos das áreas de segurança e saúde. Para ela, o grupo tem contribuído para a criação de políticas públicas voltadas à busca e ao atendimento das famílias.
Entre as iniciativas está uma caravana que busca expandir para o interior e para a Região Metropolitana práticas já adotadas em Fortaleza. “Se a pessoa desaparece em Fortaleza, nós temos uma atuação positiva da Delegacia de Pessoas Desaparecidas, com protocolos. Mas, se essa pessoa desaparece na Região Metropolitana ou no interior do Estado, a realidade é que, muitas vezes, é feito apenas um B.O. e essas diligências de busca não ocorrem”, afirma.
A supervisora do Núcleo também chama atenção para os casos de desaparecimento voluntário. Segundo ela, quando a pessoa é encontrada, mas manifesta o desejo de não restabelecer contato com parentes, a decisão deve ser respeitada. “A voluntariedade da pessoa tem que ser respeitada”, afirma.
Por meio do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), o projeto EntreLaços é outra iniciativa do tipo que escuta e acolhe quem enfrenta perdas, entre elas, a do desaparecimento. No dia 8 de setembro, em uma parceria com o Centro Especializado de Apoio às Vítimas (Ceav), o primeiro encontro da iniciativa debateu todos os tipos de perda e o que pode vir com elas.
"A proposta está fundamentada nos princípios da Justiça Restaurativa, que considera não apenas os danos e impactos vivenciados, mas também as necessidades, os sentimentos, as experiências e os caminhos possíveis de cuidado, reparação e ressignificação", informou o Poder Judiciário.
O EntreLaços é fundamentado pela Justiça Restaurativa, como explica a advogada Adriana Barbosa, integrante da Comissão de Justiça Restaurativa do TJCE.
"Na vida, existem momentos muito desafiadores e, nesses períodos, precisamos encontrar espaços de autocuidado, de escuta e de compartilhamento. Quando contamos nossas histórias e ouvimos as histórias dos outros, conseguimos olhar para a vida com um pouco mais de esperança. O círculo proporciona justamente isso: a possibilidade de falar, ouvir e ressignificar experiências”, conta Adriana.
Créditos
Emanoela Campelo de Melo, Repórter | Matheus Facundo, Repórter | Criação SVM, Louise Dutra | Emerson Rodrigues, Editor de Segurança | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo