Após sete meses do crime, o motorista Thiago Greenhalgh de Melo Braun ainda não foi denunciado à Justiça pela morte do entregador Darlei Alves Mesquita. A família pede Justiça pelo caso e denuncia impunidade, pois o homem foi solto em março deste ano, justamente pela falta da peça acusatória do Ministério Público do Ceará (MPCE). Thiago, de carro, atingiu Darlei, de moto, em alta velocidade, e ainda derrubou um muro e matou animais, em dezembro de 2025.
Nessa última segunda-feira (6), o advogado que representa os interesses da família da vítima entrou com uma Queixa-Crime Subsidiária contra o motorista, solicitando que ele seja julgado por homicídio doloso, quando se assume o risco de matar. Há provas, inclusive laudos periciais, segundo o advogado da família, que apontam que Thiago estava sob efeitos de drogas, como a substância ketamina, além de estar a 140 km/h em seu carro de luxo.
A Queixa-Crime Subsidiária é um direito constitucional garantido no art. 5º, inciso LIX da Constituição, e serve para que a família assuma o papel de acusadora quando o Estado, por meio do MPCE, por exemplo, "falhe em agir oportunamente". O documento denuncia que o órgão acusatório teve acesso aos autos em seis ocasiões desde 15 de dezembro de 2025.
"Não se trata de mero excesso de velocidade, mas de condução em regime físico em que a colisão com qualquer obstáculo produz desfecho fatal", diz texto da queixa, assinado pelo advogado José Francisco de Oliveira Júnior.
Os prazos legais para que a denúncia fosse ofertada foram excedidos por mais de uma vez, segundo o advogado.
O Diário do Nordeste solicitou esclarecimentos sobre o caso ao MPCE, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
Thiago teve a prisão relaxada pela Justiça e atualmente cumpre medidas cautelares em liberdade, como uso de tornozeleira, recolhimento noturno e suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
Inquérito já foi concluído
O caso estava sendo tratado como acidente de trânsito fatal, mas sem o dolo. Em nota, a Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) informou "que concluiu um inquérito policial que apurou um acidente de trânsito fatal, ocorrido em dezembro de 2025, no bairro Jangurussu".
"O procedimento foi instaurado e concluído pela unidade policial responsável pelo caso, sendo posteriormente remetido ao Poder Judiciário. No momento, não há diligências em andamento no âmbito da Polícia Civil referentes ao caso", informou a PCCE.
Conforme o advogado, o MPCE chegou a pedir que o inquérito retornasse à PCCE algumas vezes, para pedidos de laudos. Todos os laudos, conforme o documento da Queixa-Crime foram concluídos e, mesmo assim, não houve denúncia.
O advogado solicita que seja decretada uma nova prisão de Thiago Braun, além de mais oitivas e novas produções de provas. É solicitada ainda a intimação do MP do Ceará.
A defesa de Thiago Braun não foi localizada pela reportagem. O espaço está aberto para manifestações.
'Sobrevivendo um dia após o outro', diz irmã do entregador
A irmã de Darlei, Daiane Mesquita, relatou a dor da família e disse que eles estão "sobrevivendo um dia após o outro". "Não tem como mensurar essa dor", disse, em entrevista ao Diário do Nordeste.
Para mim, isso foi um assassinato. A gente está vivendo um dia de cada vez. Meus pais já tinham problemas cardíacos, minha mãe não ficou bem, meu pai teve que ir embora daqui, de onde morava. Era meu único irmão e o que desgasta não é nem a dor, é essa luta constante para se fazer justiça, porque parece que mataram um bicho. Nada é feito, a gente vai vivendo um dia de cada vez. Sem acreditar no amanhã, sem acreditar no que pode ser feito e tentando entender a falta que ele nos faz
Para Daiane, a família "vai só tentando sobreviver um dia após o outro". "Ele era apenas um jovem de 26 anos que vinha do trabalho e teve covardemente a vida tirada", diz.
Relembre o crime
No dia 5 de dezembro de 2025, a vítima estava em sua motocicleta, com a qual fazia entregas para uma farmácia no bairro Jangurussu, quando foi atingida pelo carro Range Rover conduzido em alta velocidade por Thiago. Darlei não resistiu e morreu no local.
Na colisão, o motorista ainda atingiu o muro de dois estabelecimentos comerciais, "causando o desabamento de parte da estrutura", segundo nota da Polícia Militar do Ceará. Parte do muro caiu em cima de cinco gatos e um cachorro, que não resistiram aos ferimentos.
No carro, estavam seringas, Viagra e dois vidros de Ketamina, uma espécie de anestésico dissociativo.
Thiago já tinha dado perda total em outro carro. Em depoimento à polícia, ele afirmou que não era a primeira vez que "perdia um veículo". Ele também já tem uma condenação na Justiça, por esfaquear um jovem de 18 anos, quando ele tinha 17. O homem se envolveu em uma discussão durante uma festa de aniversário em um condomínio no bairro Aldeota, quando atingiu a vítima com um canivete na região do tórax.