Aluguel de R$ 5 mil, cadeados e correntes: o que se sabe sobre a ‘fazenda da maconha’ em Acopiara

O agricultor João Holanda Neto, de 59 anos, alega ser inocente.

Escrito por Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
03 de Julho de 2026 - 13:30

A prisão do proprietário do terreno onde foram encontrados 290 mil pés de maconha, em Acopiara, vem repercutindo nas redes sociais desde que a defesa do suspeito pelos crimes de tráfico de drogas e associação para o tráfico apontou quem seria o arrendatário da fazenda.

O agricultor João Holanda Neto, de 59 anos, alega ser inocente e diz que não sabia que o arrendatário, um amigo da família dele há 15 anos, plantava maconha no local.

A reportagem apurou junto aos advogados Maria Lopes e Itael Nunes que João recebia mensalmente, com pagamento em espécie, o valor de R$ 5 mil pela locação do terreno.

De acordo com a defesa, em agosto de 2025 o suspeito se afastou do trabalho no campo depois de ser diagnosticado com câncer de pele e em outubro recebeu proposta do amigo da família (no momento com identidade preservada) para arrendar o espaço.

PLANTIO SUSPEITO

Na época, o arrendatário teria dito que desejava utilizar o terreno para plantar sorgo e milho para silagem, além de feijão, extração de madeira (estaca de sabiá) e produzir carvão.

"Do local onde ficava na entrada até esse plantio de maconha, que até então não sabia, a distância era de 9 quilômetros. A coisa era tão bem articulada que o pagamento da locação do terreno era feito em dinheiro (espécie) para nem deixar comprovante"
Defesa de João Holanda

Os advogados afirmam que o arrendatário colocou cadeados e correntes nas cancelas que davam acesso ao local.

'ALUGUEI PORQUE ELE ERA 'DE CASA'

Antes de se apresentar à Polícia e ser preso preventivamente, João gravou vídeos com a família e fez um apelo ao arrendatário para que ele se entregasse às autoridades e prestasse esclarecimentos sobre a plantação de drogas.

“Eu peço até pela alma da sua mãe, de seus filho… Você fazer isso comigo? Com minha família? Eu pensando que você era uma pessoa boa... Tomava café na casa da minha mãe… eu aluguei porque você era de casa, fiz contrato” (sic).

“Se eu soubesse que uma coisa dessa ia acontecer comigo jamais eu alugava, por dinheiro nenhum. Mesmo que eu não pudesse trabalhar, eu deixava a mata tomar de conta lá… Criei meus filhos trabalhando, se entregue por amor de Jesus Cristo”.
Proprietário do terreno em Acopiara.

Os advogados afirmam que, após a descoberta da droga por parte da Polícia, a família de João chegou a ligar para este 'amigo da Polícia', que não atendeu as ligações e nem respondeu as mensagens.

João já responde a um outro processo, pelo crime de receptação. A reportagem apurou que ele foi preso em flagrante, em Acopiara, trafegando em uma moto sem placa.

O veículo era fruto de um roubo e, na versão do suspeito, foi repassado a ele como parte de pagamento de um terreno. 

SOBRE A OPERAÇÃO.

A PCCE localizou no dia 25 de junho de 2026 a plantação de maconha com cerca de 290 mil pés da planta, escondida em uma área isolada no município de Acopiara.

Parte da plantação foi destruída pelos policiais no local da apreensão.
Legenda: Parte da plantação foi destruída pelos policiais no local da apreensão.
Foto: Divulgação/SSPDS.

A plantação se estendia por uma área de aproximadamente três hectares, o equivalente a quatro campos da Arena Castelão.

Durante a investigação, aeronaves e drones da PCCE tiveram que sobrevoar o local para medir a área total da plantação. Ao todo, foram encontrados no local cerca de 160 mil pés de maconha em fase de cultivo e outros 130 mil pés já colhidos, totalizando uma estimativa de 290 mil pés da planta.

DENÚNCIA

Três dias depois, o deputado federal André Fernandes esteve no local e publicou vídeos que mostravam diversos pés de maconha ainda preservados, quando a lei obriga a custódia e incineração da droga.

Pelas possíveis falhas, o tema virou pauta política.

Nesta semana, o governador Elmano de Freitas foi presencialmente na última segunda-feira (29) ao local onde a droga foi encontrada, em uma fazenda de Acopiara, para supervisionar o terreno e a destruição da droga. 

"Houve uma denúncia e, no meu entender, a denúncia é muito grave, de que, aqui, teria havido negligência para que o crime pudesse atuar e até levar algum bem daqui. Nós vamos apurar absolutamente tudo. Não vamos passar a mão na cabeça de ninguém. E quero pedir ao deputado que ele tenha a honra de poder, em depoimento, dizer que autoridade teria ligado para suspender o trabalho da Polícia Civil aqui. [...] Nossa determinação é enfrentar o crime de maneira implacável", disse Elmano.

O governador disse, no dia, que a "Polícia não sai daqui enquanto não destruir toda essa plantação”.

APURAÇÃO INTERNA

Dois delegados de Polícia Civil se tornaram alvos de Procedimento Administrativo Disciplinar (PAD) que visa apurar a conduta dos agentes na possível falha de custódia da plantação de 290 mil pés de maconha encontrados em Acopiara, no interior do Ceará. O Diário do Nordeste solicitou um posicionamento à CGD, mas não obteve retorno. 

Nessa quinta-feira (2), o governador Elmano de Freitas confirmou a investigação e disse que a CGD vai "apurar responsabilidades". "Se o delegado tem responsabilidade ou não, quem vai dizer é a apuração", pontuou, em coletiva de imprensa na sede da Delegacia Geral, durante evento de entrega de celulares furtados e roubados. 

Censo de justiça exige prudência e serenidade para apurar fatos, para a gente julgar com justiça. Evidentemente que nós temos questões a serem apuradas; elas serão apuradas, elas serão esclarecidas e, se tiver, claro, o responsável por algum ato ilegal, será punido por isso
Elmano de Freitas
Governador do Ceará

Além disso, o governador defendeu que eventuais condutas erradas de alguns agentes não devem "macular a imagem da instituição". Ele reforçou ainda "absoluto apoio" às forças de segurança e destacou resultados recentes positivos dos indicadores criminais. 

A Assessoria Jurídica da Associação dos Delegados de Polícia Civil do Ceará (Adepol-CE) informou, em nota, que solicitou acesso aos autos. "Não nos pronunciaremos sobre a questão de fundo enquanto não obtivermos amplo acesso, mas adiantamos estranhar que se tenha instaurado já um processo administrativo-disciplinar ao invés de uma sindicância, que, na nossa percepção, seria mais adequada. A apuração ainda está numa fase germinativa e compreendemos que o PAD representa, data venia, uma precipitação, afinal, não se deve meramente se encontrar um culpado, mas esclarecer o fato em toda sua amplitude sob todos os seus ângulos. Não admitiremos que transformem determinado associado no para-raio do evento em apuração", disse o advogado Leandro Vasques, assessor Jurídico da Adepol.

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