Televisão e rádio funcionando a bateria e lamparina iluminando a casa. Uma cena comum em décadas atrás ainda faz parte do dia a dia e é motivo de muito incômodo para comunidades rurais como Roça Velha, em Granja, e São Damião, em Massapê. Os exemplos das duas comunidades não são os únicos na região, segundo representantes comunitários. A espera por energia elétrica se estende há anos.
As visitas à Coelce também já foram muitas e, mesmo com pedidos e projetos enviados, as comunidades não receberam nenhuma resposta além de promessas, que Maria do Socorro Alexandrino, de Roça Velha, comunidade do distrito de Parazim, em Granja, já cansou de escutar. “Fui duas vezes ao escritório da Coelce em Camocim, mas já tive muita raiva e desisti de lutar por isso. Não acredito mais que a energia chegue aqui”, lamenta. A menos de um quilômetro da comunidade que reúne 50 casas, existe postes e energia, mas os moradores não entendem porque as obras não chegaram às casas restantes, todas à beira da estrada.
No lugar, não existe geladeira em nenhuma residência, algumas vazias, pois os moradores decidiram só voltar quando houvesse luz. As lamparinas são a única luz que se vê durante as noites. Já televisão, “se conta nos dedos”, diz Socorro, as casas que têm, “são menos que dez”. Quem tem o luxo de possuir esses aparelhos só utilizam à noite, para economizar. “Aqui em casa, a gente só assiste de dia quando tem alguma coisa importante no jornal que a gente quer saber. Mas a bateria já tá velha e tá acabando mais rápido”, revela. Cada recarga, custa por volta de R$ 2,00. Na casa de Maria do Socorro, por exemplo, a bateria está durando cerca de 15 dias no máximo. A compra de uma nova, custaria uma média de R$ 180.
A comunidade sobrevive basicamente da agricultura, principalmente da produção de farinha de mandioca. Com a energia, seria possível instalar motores para moer, sistemas de irrigação e poços profundos com motor, melhorando até mesmo a qualidade da água para beber. Esse é também um dos maiores problemas da comunidade de São Damião, em Massapê, que recorre ao uso da água de um cacimbão. No local, construído em meio a Serra da Meruoca, vivem 104 famílias e um total de 764 habitantes. Apesar de difícil acesso, o presidente da Associação Comunitária dos Moradores, José Mazenir de Sousa, afirma que comunidades abaixo de São Damião, como Riacho Fundo, e depois da localidade, como Socorro, já têm eletricidade.
Mais uma vez, o representante diz ter ouvido promessas na Coelce que a “luz ia sair”, mas depois de duas vezes que foi ao escritório em Sobral fazer o pedido e de três medições que técnicos da empresa fizeram no local, nenhuma resposta foi dada. Segundo Mazenir, a espera pela energia elétrica já está com mais de dez anos.
A falta desse verdadeiro privilégio tem como conseqüência casas iluminadas com velas e lamparinas, duas geladeiras a gás em toda comunidade, televisão e rádio só com bateria e em horários restritos. Na pequena escola municipal, as aulas da turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA) à noite, são iluminadas com lampião. Segundo a professora, Antônia Olinda, os alunos reclamam muito das dificuldades na visão e a situação está difícil. A agente de saúde Elizete Ricardo dos Santos revela que as consultas da equipe do Programa Saúde da Família (PSF) poderiam ser melhores se houvesse energia. Segundo ela, os médicos poderiam trazer material necessário ao trabalho de prevenção das mulheres e um dentista acompanharia a equipe. Hoje, as consultas são feitas na capela da comunidade, por falta de um posto equipado e com energia.
Cristiane Vasconcelos
sucursal Sobral