Caatinga registra 3ª maior redução de áreas desmatadas do País

A queda foi de 90% no total de hectares de área natural suprimidos. Apesar da melhora no cenário, biólogos apontam que a redução está mais ligada à fuga da exploração para outros biomas do que a instituição de boas políticas públicas

Legenda: Segundo o IBGE, 36,2% do bioma ainda sofrem pela ação humana.
Foto: Alex Pimentel

O bioma Caatinga, no qual o Ceará está totalmente inserido, registrou o 3º maior decréscimo de áreas desmatadas nas últimas duas décadas, entre 2000 e 2018, segundo dados do IBGE, divulgados nesta semana. Os biomas Amazônia e Cerrado lideram. Nos 18 anos, a Caatinga teve uma redução de 90% do total de hectares de área natural suprimida: de 17.165 km² para 1.604 km².

O secretário do Meio Ambiente (Sema) do Ceará, Artur Bruno, explica a importância da preservação desse ecossistema, que concentra a presença de pecuária extensiva, agricultura e mineração.

“Fizemos projetos, por exemplo, de plano de manejo da madeira, já que a lenha ainda é muito utilizada no Ceará como combustível. Tratamos de orientar agricultores sobre a melhor forma do aproveitamento sustentável”. Bruno também ressalta que, ao longo dos últimos seis anos, foram plantadas mais de 100 mil árvores nativas no Estado, o que contribui nesse processo de reflorestamento.

A pesquisa apresenta o estado atual de conservação dos ecossistemas brasileiros, com base em dois intervalos: 2000-2010 e 2016-2018. 

Recuperação

O titular da Sema destaca ainda que, a partir do fomento à educação ambiental e parceria com Prefeituras, ONGs e universidades, as medidas que estão sendo tomadas tendem a diminuir ainda mais o ritmo de desflorestamento no Ceará. Segundo ele, o processo é fundamental, já que a exploração ao bioma ocorre desde o século XVII e que ações pontuais fazem a diferença

“O Código Florestal, de 2012, determinou que todo proprietário de terras na Caatinga pode utilizar até 80% da propriedade e 20% tem que ser de vegetação nativa que tem que ser preservada, criando um projeto de preservação”.

O Assessor Estadual de Irrigação, Nizomar Falcão, explica que, na produção, "as políticas de convivência sustentável com a Caatinga se dão de diversas formas, sendo as principais aquelas destinadas a conservação dos recursos naturais: solo e água". "A ampliação das áreas de Caatinga no Ceará se deram por conta do Cadastro Ambiental Rural, ao qual o agricultor reserva parte de sua propriedade para preservação da flora e fauna".

"A distribuição de mudas de espécies nativas silvestres e de frutíferas adaptadas ao semiárido, como as plantas do gênero Spondias (cajá, umbu cajá, siriguela), além de plantas da família botânica das Anonáceas, maior representatividade nos Núcleos de Irradiação de Tecnologia (NITs), tem sido uma política importante de preservação da Caatinga".

Legenda: O Ceará está integralmente incluído no bioma, segundo o IBGE.
Foto: Eraldo Pereira

Cenário adverso

Apesar da melhora, ambientalistas apontam que o cenário de redução está mais ligado à fuga da exploração para outros biomas do que atribuído a políticas públicas. Artur reconhece que ainda há muitos desafios. “Vastas áreas foram ocupadas pela pecuária extensiva e depois pelo algodão. Houve o empobrecimento do solo, causando, em algumas áreas, a desertificação, como acontece nos Inhamuns, Irauçuba e Médio Jaguaribe”

A bióloga e integrante do Instituto Verdeluz, Liana Queiroz, acrescenta que a “redução no desmatamento tem mais a ver com acontecimentos externos, como secas, crise política, do que com políticas públicas de proteção da Caatinga”. Conforme a pesquisadora, mesmo em áreas não desmatadas, a vegetação pode estar “potencialmente degradada” pelo acúmulo de ações crônicas.

“É um desafio, muitas vezes, definir o que é um ambiente de vegetação primária. O uso constante do fogo, da retirada de lenha e do pastoreio modificam a fisionomia da vegetação, sendo desafiador definir qual era a vegetação original”, explica.

Exploração no Ceará

Queiroz analisa que a exploração, no Ceará, “é de subsistência, mas não chega a ser sustentável. É apenas em menor escala”, explica a especialista. “Ao invés de ser um desmatamento de grandes áreas (impacto agudo), se torna algo crônico (fogo, pastagem, corte para lenha), que nem sempre remove toda a cobertura vegetal, mas ainda assim adoece o ecosistemas”.

Segundo o IBGE, 36,2% do bioma ainda sofre pela ação humana.

Queiroz reconhece que, “no Ceará, vão existir propriedades menores se pensarmos nos tamanhos de latifúndios da Amazônia e Cerrado, por exemplo”, porém, “existe uma concentração de grandes áreas de terras, muitas vezes sendo mal exploradas, principalmente na pecuária extensiva”, alerta. “A Caatinga também tem menores áreas de Unidades de Conservação de Proteção Integral em termos percentuais, comparada a outros biomas".

Existe uma invisibilidade histórica na preservação do bioma. As áreas de Caatinga mais preservadas costumam estar no Piauí”.

Para ela, “é preciso criar grandes áreas de proteção integral, investir nos avanços de conhecimento ambiental, com inventários ambientais, levantamento de dados, e criar programas de uso sustentável do semiárido, dar soberania energética para as comunidades, com painéis solares comunitários, investir em agroecologia, proteção de nascentes e rios. Estratégias existem muitas, falta apenas vontade política”.

Danos e compensações

Estudo da Superintendência Estadual do Meio Ambiente aponta que 50% da vegetação nativa cearense já foi perdida.

Para mitigar estes impactos, Artur Bruno destaca algumas ações em curso. “Estamos reconstruindo nove viveiros regionais para fazer o reflorestamento”. O Estado já conta com dois: em Caucaia e Pacoti. Nos últimos seis anos, foram distribuídas mais de 500 mil mudas produzidas nos equipamentos. “Vamos aumentar com os nove viveiros regionais, que vamos inaugurar no início de 2021”.

Nos últimos seis anos, segundo Bruno, o estado distribuiu 500 mil mudas produzidas nos dois equipamentos. “Vamos aumentar com os nove viveiros regionais, que devemos inaugurar no início do próximo ano”, destaca o secretário, ressaltando que ainda existe muito a ser feito. “Temos procurado fazer um trabalho forte de educação ambiental, parcerias, mas reconheço que ainda precisa ser feito muito mais para preservação das nossas florestas"

Municípios que receberão os viveiros:

  • Acopiara;
  • Campos Sales;
  • Croatá;
  • Cruz;
  • General Sampaio;
  • Jardim;
  • Ocara;
  • Tauá; e
  • Ubajara.
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