O Senado Federal, nos quatro últimos anos, contou com a presença de duas mulheres do Ceará exercendo atividades parlamentares, na qual ambas se revezaram na mesma função de suplência. Elas são as primeiras figuras femininas a ocuparem a bancada cearense desde 2011.
Após a desincompatibilização de cargos para o ano eleitoral, Camilo Santana (PT) deixou o Ministério da Educação (MEC) e retomou suas funções como senador. O Ceará, com isso, perdeu a presença feminina na Casa em 2026, representada ora pela primeira suplente, Augusta Brito (PT), ora pela segunda suplente, Janaína Farias (PT).
Juntas, as parlamentares entram na tímida lista das figuras políticas femininas do Estado que atuaram na Câmara Alta. Ao todo, apenas quatro mulheres registraram tal feito, sendo que três delas estiveram na função de suplência, enquanto somente uma conquistou um mandato efetivo de oito anos.
O cenário também não possui altos registros quanto aos postulantes:
das candidaturas ao Senado Federal foram femininas desde a redemocratização, há 40 anos. Esse valor se refere a 16 mulheres cearenses disputando uma vaga na Casa, contra 77 homens.
Entre as participações femininas nos órgãos do Poder Legislativo a nível estadual e federal, este é o âmbito que conta com a menor representação ao longo da história para o estado.
A Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) registrou 41 mulheres na Casa ao longo dos anos, enquanto a Câmara dos Deputados chegou ao total de 11 parlamentares no final desta legislatura.
Quem foram as cearenses no Senado?
Ano de 1989. O primeiro aniversário da atual Constituição Federal, promulgada em 1988. Fernando Collor de Mello era eleito presidente da República pelo voto popular no primeiro pleito direto em quase 30 anos. Já Alacoque Bezerra, enquanto suplente, tornava-se a primeira mulher a ocupar a bancada cearense no Senado Federal.
A senadora era conhecida como "madrinha de Juazeiro do Norte" e esteve à frente na Casa até 1990, como suplente de José Afonso Sancho, que havia assumido após o falecimento de Virgílio Távora.
Ela vinha de uma família com raízes políticas, tendo Adauto e Humberto Bezerra, ex-governador e ex-vice-governador do Ceará, respectivamente, como irmãos. No Congresso, defendeu pautas voltadas à Educação.
Após sua saída, a bancada cearense só receberia outra senadora passadas as eleições de 2002, quando Patrícia Saboya, atual Conselheira do Tribunal de Contas do Ceará (TCE), conquistou a segunda vaga disponível na Casa, com 24,15% dos votos.
Desde a redemocratização, a senadora foi a quinta mulher cearense que lançou candidatura para o cargo no Congresso Nacional. Suas antecessoras, postulantes nas eleições de 1986 e 1994, que também renovaram dois terços dos parlamentares, não obtiveram sequer 10% dos votos.
Assim como Alacoque, Patrícia também têm vínculos políticos na família. Além de ser neta de Plínio Pompeu, ex-senador e ex-prefeito de Fortaleza, ela foi casada com Ciro Gomes (PSDB), ex-governador do Ceará. Entre as pautas defendidas por ela na Casa, estiveram a Educação e os Direitos Humanos.
O cumprimento de seu mandato foi encerrado em 2011. Mais uma vez, a bancada cearense careceu da presença feminina pelas seguintes legislaturas. Apenas no último pleito, com o afastamento de Camilo Santana para assumir o MEC, suas suplentes assumiram no Senado.
Augusta Brito esteve à frente das decisões na maior parte desta legislatura, em exercício entre os anos de 2023 e 2026. Além de ter sido líder do PT dentro do órgão parlamentar, a senadora também assumiu a Procuradoria Especial da Mulher na Casa.
Segunda suplente na chapa de Camilo, Janaína Farias, por sua vez, tomou posse por quatro meses em 2024, devido à licença de Augusta. Passado seu tempo no Congresso, ela venceu as eleições municipais e assumiu a Prefeitura de Crateús.
As quatro senadoras cearenses representam uma fatia de 5,33% das parlamentares que já ocuparam o cargo. Em todo o País, contabilizando mandatos efetivos e de suplência, apenas 75 mulheres estiveram presentes na Câmara Alta.
Candidaturas femininas
Em 2026, o portal de Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apresenta o registro de duas candidaturas femininas para o Senado Federal pelo estado do Ceará: Luizianne Lins (Rede) e Catarina Matos (UP). Além delas, seis homens também disputam o cargo majoritário.
Para as mulheres, esse número vem se repetindo há mais de dez anos, com somente duas postulantes desde o pleito de 2010 – feito que se assemelha, também aos sufrágios de 1986 e 1994. Já em 2002 e 2006, houve somente uma candidata, enquanto 1990 e 1998 sequer trouxe essa presença nas urnas.
Se há quase um padrão para a quantidade de nomes femininos, o gênero masculino sofre com variáveis. Em anos com maior renovação do Senado, há registros que oscilam entre oito, nove, 11 e até 12 políticos lançados candidatos. Quando há apenas uma vaga em disputa, esse número cai para três, quatro e seis postulantes.
Os resultados de cada pleito também não apresentam indicativos elevados para essas figuras: com exceção de três candidatas, todas as apurações em urnas terminaram com menos de 10% dos votos válidos.
Confira os percentuais de votos válidos das candidatas:
- Cleide Bernal (1986): 0,93%
- Olga Nunes (1986): 0,28%
- Maria Luiza Fontenelle (1994): 9,84%
- Ana de Castro Lins (1994): 5,20%
- Patrícia Saboya (2002): 24,15% (eleita)
- Nair Fernandes (2006): 1,07%
- Marilene Torres (2010): 0,79%
- Raquel Dias (2010): 0,2%
- Raquel Dias (2014): 1,05%
- Geovana Cartaxo (2014): 1,67%
- Mayra Pinheiro (2018): 11,37%
- Anna Karina (2018): 4,09%
- Kamila Cardoso (2022): 26,22%
- Erika Amorim (2022): 3,98%
Desde 2002, somente a vereadora Kamila Cardoso (União Brasil) ultrapassou o percentual que concedeu vitória à Patrícia Saboya, finalizando o sufrágio, inclusive, com a segunda melhor colocação. Entretanto, seu pleito contava com a renovação de um terço do Senado, o que levou apenas Camilo Santana a ser eleito.
Cenário 2026
Em outubro, as porcentagens de Luizianne e Catarina serão definidas após o primeiro turno das eleições, previsto para o primeiro domingo do mês, no dia 4. Com duas vagas disponíveis na Casa, há a possibilidade de pelo menos uma delas ser preenchida novamente por uma mulher.
O último levantamento divulgado pela Quaest, que ouviu 900 eleitores cearenses com 16 anos ou mais entre os dias 19 e 22 de setembro, Luizianne está empatada tecnicamente na liderança, ao lado de Cid Gomes (PSB) e Capitão Wagner (União).
Já Catarina Matos aparece em quinto lugar, com 1% das intenções, numericamente empatada com outros dois postulantes.
Além disso, entre as oito candidaturas ao Senado Federal, apenas a primeira suplente de General Theophilo (NOVO), Drª Verônica Amaral, é mulher. Ele aparece com 0% nas intenções de voto.
É válido destacar que, como ocorre em levantamentos desse tipo, os resultados representam um retrato do momento e podem sofrer alterações até o dia da votação.
Com os dois nomes ao Senado Federal, totaliza-se apenas 233 candidaturas femininas para o Legislativo, com 126 postulantes à vaga de deputada estadual e as demais 105 para o cargo na Câmara dos Deputados. As mulheres cearenses representam apenas 36,46% desta disputa legislativa.
*Estagiária sob supervisão da jornalista Jéssica Welma.