Reeleição de mulheres na Alece é 17,19% menor que de homens e nenhuma teve mais de três mandatos

Desde 1974, ano em que a primeira deputada foi eleita, apenas 68 cargos tiveram representatividade feminina na Casa.

Escrito por Milenna Murta* milenna.murta@svm.com.br
23 de Setembro de 2026 - 06:00
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Legenda: Somente 41 mulheres, entre eleitas e suplentes, ocuparam cadeiras no Legislativo cearense.
Foto: José Leomar/Alece.

A maior bancada feminina da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) foi estabelecida neste mandato, com um total de nove mulheres eleitas para o cargo de deputada estadual. Entretanto, elas equivalem a apenas 17,3% das cadeiras na Casa em 2026 – o percentual é 2,5% menor devido à renúncia, em 2024, da parlamentar Gabriella Aguiar.

Após o “rodízio partidário” no início de agosto, as oito deputadas estaduais eleitas permanecem exercendo seus respectivos mandatos dentro da Assembleia. Para Juliana Lucena (PDT), Larissa Gaspar (PT) e Luana Régia (PSD) este será o último semestre à frente do cargo, uma vez que optaram por não disputar a reeleição.

No caso de Juliana, sua licença para assumir a Secretaria das Mulheres inviabiliza a possibilidade de participar do pleito. Já as demais parlamentares estão candidatas à Câmara dos Deputados. Elas, portanto, juntam-se a outras 22 mulheres que não retornaram à Alece para um segundo mandato efetivo.

Na verdade, em meio século de presença feminina na Casa Legislativa, apenas três deputadas estiveram à frente do cargo por três mandatos efetivos, enquanto outras nove se elegeram para duas legislaturas. Os homens, por outro lado, reelegeram-se com facilidade, com alguns chegando a assumir por seis, sete e até oito mandatos.

Conforme levantamento realizado pelo PontoPoder, existe uma disparidade de 17,19% entre homens e mulheres quando observadas as reeleições, uma vez que 49,62% dos deputados retornaram para novos mandatos desde 1974, enquanto apenas 32,43% das mulheres registraram o mesmo feito.

Para a docente e pesquisadora de pós-doutorado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Maria Eduarda Gonçalves, há uma “herança histórica” que explica a baixa representatividade das mulheres na política.

“O espaço público, político e decisório sempre foi associado aos homens na nossa cultura, enquanto às mulheres se atribuiu prioritariamente o espaço doméstico e do cuidado”, explicou a especialista. A entrada tardia de figura femininas no Legislativo cearense é apenas uma das consequências dessa organização de papéis sociais.

50 anos de história

Eleições de 1974. Há 52 anos, a tabeliã Maria Zélia Mota se tornou a primeira cearense eleita para um mandato na Assembleia Legislativa, após vencer o pleito pela Aliança Nacional Renovadora (Arena). À época, a sigla representava o governo ditatorial instaurado no Golpe Militar (1964-1985).

Paula Vieira, socióloga e cientista política, chama atenção justamente para o período da história em que se deu essa conquista. Antes de ser parlamentar, Zélia era conhecida por sua atuação como tabeliã em Itapajé, no interior do Ceará, e por ser irmã de outros dois deputados estaduais, Raimundo e José.

Nós não estamos diminuindo a proporção, a validação e a legitimidade dela, mas estou considerando que também foi conveniente para o partido utilizar o capital social e político que ela tinha por ser conhecida. [...] Então, o Arena pega e consegue capitalizar isso em uma forma de candidatura competitiva, para ali ter uma aliada na base institucional.
Paula Vieira
Socióloga e cientista política

Como deputada, Zélia ocupou o cargo de 3ª secretaria da Mesa Diretora, chegou a presidir sessões na Casa Legislativa e teve suas propostas voltadas a pautas sociais. A legislatura de 1975 a 1978 foi a única em que exerceu mandato. Assim, a tabeliã deu início à pavimentação da presença feminina dentro da política legislativa cearense.

41
mulheres ocuparam cadeiras na Assembleia Legislativa do Ceará desde as eleições de 1974, sendo que quatro delas assumiram apenas como suplentes.

Ao todo, são 68 mandatos femininos em meio século de presença na Casa. Destes, 52 são de deputadas eleitas para o cargo, enquanto os demais são de suplências.

Confira quantas deputadas exerceram mandato por legislatura:

  • 19ª legislatura (1975-1978): 1 deputada;
  • 20ª legislatura (1979-1982): 2 deputadas;
  • 21ª legislatura (1983-1986): 2 deputadas;
  • 22ª legislatura (1987-1990): 2 deputadas;
  • 23ª legislatura (1991-1994): 2 deputadas;
  • 24ª legislatura (1995-1998): 3 deputadas;
  • 25ª legislatura (1999-2002): 5 deputadas;
  • 26ª legislatura (2003-2006): 13 deputadas;
  • 27ª legislatura (2007-2010): 4 deputadas;
  • 28ª legislatura (2011-2014): 10 deputadas;
  • 29ª legislatura (2015-2018): 8 deputadas;
  • 30ª legislatura (2019-2022): 6 deputadas;
  • 31ª legislatura (2023-2026): 10 deputadas.

Apesar das mulheres terem conquistado a maior quantidade de cadeiras na Alece em 2022, com nove deputadas eleitas, a legislatura com mais presença feminina ainda é a de 2003 a 2006. Isso porque, além de eleger oito parlamentares, outras cinco suplentes chegaram a assumir mandatos.

Para Maria Eduarda, o fato do recorde de participação feminina na Casa ter ocorrido há mais de 20 anos, enquanto os debates quanto à paridade de gênero vêm crescendo pelo mesmo período, dá-se pois um avanço social não significa um avanço político.

“O crescimento do debate sobre igualdade de gênero tem aumentado a visibilidade do problema e impulsionado a popularização da pauta, mas não necessariamente alterado as estruturas e as condições de eleição das mulheres", pontuou a docente.

Presença nominal e ‘efeito de retroalimentação’

O índice de reeleição de deputadas estaduais é baixo ao ponto que, das oito deputadas que exercem mandato atualmente, apenas Drª Silvana (PL) já atuou na Assembleia Legislativa outras vezes. Ou seja, apesar de 2022 ter sido o ano que mais elegeu mulheres na Casa, apenas Silvana foi reeleita.

A baixa tendência de reeleições femininas vem desde o século XX. Entre as possíveis razões para o fenômeno, Paula Vieira analisa que sua presença no Legislativo, por vezes, limita-se a um caráter nominal.

“A gente não tem muitos avanços, porque nós não temos a representação, seja substantiva ou descritiva, dessas mulheres no parlamento estadual. A presença é diminuta", observou a socióloga. Isso acontece uma vez que suas imagens acabam sendo “engolidas” por lideranças maiores, geralmente masculinas.

Entre essas figuras dominantes, a especialista também exemplifica os grupos políticos que se consolidam no Estado através de gerações familiares, que passam a inserir as mulheres dentro dessa esfera como uma maneira de “manter um mandato ativo”.

Em 2026, apenas a deputada Larissa Gaspar não possui família previamente inserida na política. As demais sete parlamentares em exercício são esposas ou filhas de políticos cearenses. O perfil também pode acabar inclinando para a presença nominal dessas mulheres durante o mandato.

Com isso, “a tendência é que elas saiam da vida política”, caso a atuação passe a ser meramente simbólica e impeça a parlamentar, inclusive, de construir um capital político agregado. As cadeiras são renovadas, dessa maneira, com novas figuras femininas.

Esse fenômeno leva ao “efeito retroalimentação”. Conforme Maria Eduarda Gonçalves, se são poucas as mulheres que permanecem nesse tipo de cargo, então são poucas capazes de consolidar carreiras longas, o que leva novas parlamentares a continuarem lidando com o mesmo impasse quanto à dominância masculina.

Candidaturas femininas em 2026

Conforme o portal Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais, gerido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 126 mulheres disputam uma cadeira na Assembleia Legislativa. Esse valor, entretanto, equivale a apenas 35,1% das candidaturas.

Dos 21 partidos que registraram postulantes a deputado estadual, 14 estão trabalhando com o quantitativo mínimo exigido pela Lei das Eleições, que determina um percentual de pelo menos 30%, e máximo de 70%, de candidaturas de cada gênero.

Há, segundo Paula, um “esvaziamento de candidaturas e de candidaturas competitivas”, característica considerada fundamental para a atual esfera política. Isso leva a socióloga a entender que, para um próximo pleito, a representatividade não deve aumentar:

Ou a gente mantém o número de mulheres, porque elas vão absorver a base eleitoral de outras mulheres que já estavam; ou a gente diminui, porque essas bases eleitorais vão quebrar e vão se fragmentar em direção a candidaturas masculinas.
Paula Vieira
Socióloga e cientista política

*Estagiária sob supervisão da jornalista Jéssica Welma.

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