Apesar de avanço do PL no Parlamento, Lula enfrentou oposição mais forte no 1º mandato

Mudanças constitucionais na força Legislativa transformaram a relação entre deputados e senadores com o presidente.

Escrito por Milenna Murta* milenna.murta@svm.com.br
08 de Novembro de 2026 - 07:00
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Legenda: O Partido Liberal (PL) é a principal oposição para o quarto mandato do petista.
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil.

O Congresso Nacional será mais conservador em 2027. O Partido Liberal (PL), principal oposição do Governo e detentor da maior quantidade de parlamentares nas Casas, cresceu 36 cadeiras com as eleições. A partir do próximo ano, a sigla, sozinha, irá abarcar 25% do Parlamento Federal.

A nova composição segue uma vertente política diferente da que foi eleita para assumir a Presidência da República. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito para o quarto mandato com 51,79% dos votos válidos, tomará posse junto a um Congresso numericamente desfavorável.

São 121 deputados federais eleitos pelo PL, 22 a mais que nessa legislatura, contra 70 do Partido dos Trabalhadores (PT), que emplacou apenas dois políticos a mais na Casa. Já no Senado, a sigla oposicionista dobrou os representantes e passará a ocupar 28 cadeiras, enquanto a legenda governista se manteve com nove parlamentares.

Os números não favorecem o presidente reeleito. Porém, essa não é a primeira vez que o petista enfrentará uma alta oposição legislativa.

Ao longo de quatro mandatos, Lula apenas tomou posse com maioria no Congresso durante o segundo governo, iniciado em 2007, quando teve quase 47% de parlamentares aliados. Destes, entretanto, apenas 15% eram petistas.

A oposição de 2027 sequer será a maior, em números, entre os governos de Lula, apesar do PL concentrar a maior fatia de um partido de oposição em ambas as Casas.

Veja a distribuição do Congresso no início de cada governo Lula (PT)

Lula 1 (2003)

  • Base: 33,83% (PT, PL, PCdoB, PMN, PSB e PTB)
  • PT: 17,67%
  • Oposição: 46,96% (PSDB, PMDB e PFL)
  • PSDB: 13,46%

Lula 2 (2007)

  • Base: 44,10% (PT, PRB, PCdoB, PP, PR, PSB e PTB)
  • PT: 15,99%
  • Oposição: 26,59% (PSDB e PFL)
  • PSDB: 13,29%

Lula 3 (2023)

  • Base: 22,55% (PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede, PSB, SD, Avante e PROS)
  • PT: 12,96%
  • Oposição: 35,35% (PL, PP e Republicanos)
  • PL: 19,02%

Lula 4 (2027)

  • Base: 23,40% (PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede, PDT e PSB)
  • PT: 13,29%
  • Oposição: 25,08% (PL).

Os dados foram levantados pelo PontoPoder e consideram apenas a distribuição partidária no Congresso Nacional no primeiro ano de cada legislatura, que coincide com o início dos mandatos de Lula.

Para classificar base e oposição, a reportagem contabilizou apenas as siglas que integraram as disputas à Presidência, seja lançando o candidato a vice, seja se aliando à coligação da época; ou que compuseram os blocos governista e opositor durante o primeiro ano de Parlamento.

Em 2026, o PL realizou uma chapa pura, lançando o nome dos filiados Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar para presidente e vice-presidente, respectivamente, e não formou coalizão com outras legendas. Com isso, levou-se em conta apenas o partido como oposição direta ao Governo.

Desafios para Lula 4

As eleições do próximo Congresso Nacional levaram especialistas a classificarem o Poder Legislativo como um forte obstáculo para o bom cumprimento do Lula 4, devido ao elevado percentual de cadeiras conquistadas pelo PL. Gabriella Bezerra, entretanto, destaca que ainda é cedo para fazer tais afirmações.

Cientista política e pesquisadora do Cebrap e do Lepem/UFC, ela lembra que as primeiras análises e previsões também foram desfavoráveis para o terceiro mandato do petista, "prevendo quase uma ingovernabilidade, e não foi o que vimos".

Apesar de ter apresentado dificuldades, Lula 3 conseguiu preservar a "capacidade de negociação e de influência sobre a agenda legislativa", segundo a especialista. Entre as aprovações, ela lembra do novo arcabouço fiscal, da regulamentação e posterior proibição das bets e da ampliação de isenção quanto ao Imposto de Renda (IR).

Os obstáculos com o Legislativo no atual governo, para além da distribuição do Congresso Nacional, partem da reconfiguração de poder que o Legislativo sofreu em relação a quinze anos atrás, quando o petista concluía seu segundo mandato. O principal deles se trata da chamada emenda impositiva.

Relação Legislativo-Executivo

Pedro Barbosa, cientista político e diretor do Instituto Opnus, destaca que a aprovação da Emenda Constitucional 358/2013 trouxe uma mudança na correlação de forças entre o Legislativo e o Executivo. O texto tornou obrigatória a indicação de recursos feitos pelo Congresso através de emendas parlamentares.

Nos dois primeiros mandatos de Lula, o Legislativo era muito mais dependente do presidente para obtenção e liberação de recursos. Já no governo Lula 3, com as emendas impositivas, a capacidade de negociação do presidente diminuiu, pois o Parlamento passa a controlar com certa independência uma fatia maior do orçamento público.
Pedro Barbosa
Diretor do Instituto Opnus

A principal viga de governabilidade, então, permaneceu bastante dependente da relação com os partidos de centro, ou seja, aqueles que não estão declaradamente nem na base, nem na oposição.

Apesar de, historicamente, eles tenderem "mais à adesão do Governo do que à oposição", o especialista aponta uma menor possibilidade para negociações com essa ala do Parlamento em 2027, devido às emendas impositivas e às posições mistas dentro de cada legenda.

Além disso, sua presença nas Casas foi reduzida pelo avanço do PL. Conforme Pedro, o número de cadeiras perdidas pelo centro coincide com o crescimento obtido pelo partido bolsonarista.

Agora, resta a eles decidirem sobre qual aliança lhes será mais benéfica, sem deixar de considerar fatores estaduais e "vínculos de fidelidade", como bem explica Gabriella Bezerra.

Se compreenderem que o bolsonarismo vai reduzir seu espaço, podem buscar composição com o governo, para não ampliar ainda mais o território político, conformando-o ao espaço de oposição. Esses partidos [de centro], inclusive, parecem já ter sinalizado que desejam Ministérios no Governo. [...] A manutenção desse pacto não é definitiva, pode oscilar com os resultados favoráveis ou desfavoráveis da avaliação do Governo e da proximidade com a própria eleição.
Gabriella Bezerra
Cientista política

O 'entusiasmo' do bolsonarismo

Antes de ser conhecido como a legenda "bolsonarista", o Partido Liberal (PL) já esteve vinculado à base nos dois primeiros mandatos de Lula. O vice-presidente do petista, José Alencar, inclusive, era filiado do partido nas eleições de 2002.

À época, a legenda apoiava o Governo "em troca de espaço", conforme Pedro Barbosa, atuando em um eixo mais voltado ao centro. Com a ascensão política do sobrenome Bolsonaro e sua filiação ao partido em 2021, entretanto, iniciou-se um novo caminho, que levou à atual configuração política.

Em 2026, apesar do candidato da sigla perder a disputa presidencial contra Lula, os postulantes ao Legislativo conquistaram grandes trunfos. O diretor do Opnus destaca a presença no Senado que, com pouco mais de um terço das cadeiras, tem um número de assinaturas capaz de abrir Comissões e ficar próximo de barrar emendas.

Essa será a maior presença de um único partido na Casa Alta durante um Governo Lula. Ainda assim, a oposição de 2003 registrou maior número de parlamentares, devido à soma dos filiados do PSDB, PMDB e PFL. O que muda, porém, é o contexto em que ambas as oposições assumem os mandatos.

O pleito de 2002 não foi de grande popularidade para o PSDB, como aponta Gabriella Bezerra. A sigla, que tinha o então presidente Fernando Henrique Cardoso como filiado, não obteve um voto "tão entusiasta" devido à avaliação negativa de seu segundo governo.

Com o PL, a situação passa a ser outra. "No cenário atual, há entusiasmo pelo bolsonarismo. Ele é capitaneado pelo antipetismo, mas tem suas pautas, e há intensidade nas suas preferências, o que lhe permite um espaço, uma "voz" de oposição", explica a cientista política.

Mesmo numericamente menor que outras oposições, a presença do PL parece pesar de maneira diferente de como se media o PSDB. A especialista destaca, porém, não haver como elencar suas diferenças de comportamento legislativo apenas com o resultado eleitoral de 2026.

Já Pedro Barbosa entende que, nesse cenário de maioria, o Senado será o eixo de maior dificuldade no Lula 4. Além disso, com essa conjuntura, as antigas fórmulas de negociação com o centro também se tornarão "insuficientes para formar e manter a base", diferente dos primeiros governos petistas.

*Estagiária sob supervisão do jornalista Wagner Mendes.

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