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Por que o buggy sumiu das ruas? Ceará foi de 14 fábricas a uma e tem 365 veículos emplacados

Paulo Roberto Maciel paulo.maciel@svm.com.br
14/10/2026 - 06:00 (Atualizado em 14/10/2026)

Símbolo de status entre os jovens das décadas de 1980 e 1990, o buggy sumiu do trânsito urbano de Fortaleza e hoje é apenas instrumento de trabalho no litoral e item de luxo em condomínios. O Ceará tem 365 buggies emplacados em 2026, segundo o Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE).

Atualmente, a única fabricante em atividade, a Fyber, produz quatro unidades por mês, a R$ 115 mil cada. Nos anos 1990, o Estado tinha 14 fábricas.

Em 2004, segundo reportagem do Diário do Nordeste da época, o número de fabricantes em atividade no Ceará caiu de 14 para seis: Cia. do Buggy, Marinas, Equus, Fibravam, Convert e Fyber.

O começo dos anos 2000 trouxe uma mudança brusca ao cenário nacional de buggies. A produção em massa e o uso urbano diário despencaram devido a leis de segurança mais rígidas, ao fim de componentes mecânicos baratos e a mudanças no mercado automobilístico. 

O declínio coincidiu com o fim das peças baratas e dos chassis fáceis de adaptar que abasteciam quase todo buggy. O Fusca saiu de produção no fim dos anos 1990, e a Kombi, em 2013. Os modelos 4x4 também tomaram espaço no mercado.

Os buggys mais populares no Ceará eram construídos com fibra de vidro e montados sobre chassis de Fusca 1.300.
Legenda: Os buggys mais populares no Ceará eram construídos com fibra de vidro e montados sobre chassis de Fusca 1.300.
Foto: Arquivo DN.

A partir da década de 2010, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran), por meio da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), passou a exigir padrões de segurança já adotados nos Estados Unidos e na União Europeia, como freios ABS, airbags frontais duplos, controle de estabilidade e testes de impacto.

As regras eram de difícil aplicação aos buggies, por causa da carroceria de fibra de vidro e do motor de Fusca. Até 2017, os órgãos federais tratavam o veículo como artesanal e fora de série.

O economista e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), Ricardo Coimbra, avalia que a perda de espaço do buggy no Ceará foi impulsionada pela abertura do mercado e pela baixa competitividade dos fabricantes locais de pequeno porte.

"Ao longo do tempo, o consumidor encontrou outros carros com potência similar, mas com mais segurança, conforto e utilidade em outros tipos de terreno, características que o buggy não conseguiu alcançar totalmente", afirmou.

Coimbra observa ainda que o aumento do custo de aquisição e a falta de renovação da frota restringiram o uso quase exclusivamente ao turismo no litoral.

"O crescimento no valor dos veículos deixou certa parte da população de lado. Ficou mais complicado obter esse carro, sem ser para o trabalho ou turismo. Assim, o mercado fica muito direcionado para um só lado e resulta em uma renovação pouco significativa da frota", finalizou.

Novo perfil de consumidor 

O atual detentor da marca Fyber, Hiderlandson Peixoto, ex-funcionário da empresa, afirma que a base de clientes mudou. Segundo ele, as vendas no Ceará são sobretudo para bugueiros de polos como Jericoacoara, Paracuru e Majorlândia.

Também houve vendas para Praia, capital de Cabo Verde. Peixoto estima que cerca de 15 mil veículos tenham sido vendidos no auge da montagem no Estado.

"Antes, vendíamos os buggies para os jovens das décadas de 1980 e 1990. Para eles, era o principal símbolo de status da época, o carro ideal para ir à faculdade e às festas. Hoje, é instrumento de trabalho", afirmou.

Os buggys são tadicionalmente construídos sobre a plataforma ou chassi encurtado de um Volkswagen Fusca, utilizando motor boxer traseiro e tração traseira
Legenda: Os buggys são tadicionalmente construídos sobre a plataforma ou chassi encurtado de um Volkswagen Fusca, utilizando motor boxer traseiro e tração traseira
Foto: Camila Lima / Arquivo DN.

Atualmente, a Fyber emprega 15 funcionários, segundo Peixoto. O modelo atual usa motor Volkswagen AP 1.8, mais potente que o motor a ar do Fusca. O montador atribui o preço à durabilidade da carroceria de fibra de vidro, que exige manutenção mais barata que a de quadriciclos, 4x4 e UTVs.

"Já vendemos para entusiastas em Morro Branco e no Cumbuco e nenhum apresentou grandes problemas. Mesmo os modelos antigos são reformados e continuam rodando. Por isso estão valorizados", disse.

Item de luxo em condomínios

Peixoto afirma ter vendido muitos veículos a um público de alto padrão, como entusiastas da Região Sul e moradores de condomínios fechados. "Se o buggy não é usado pelo trabalhador, é considerado um objeto premium", disse.

Para ele, o custo de produção e o preço de compra elevados tornaram o veículo um item elitizado.

"Hoje é difícil ver um carro particular desses rodando pelas ruas das cidades, como víamos antigamente. Os buggies passaram a ficar em locais fechados. Há condomínios em Flecheiras e em Fortim cheios deles. Também pela mecânica, que é melhor que a dos modelos mais antigos e baratos", afirmou.

Matéria do Diário do Nordeste de 2000, anunciando a criação de mais uma fábrica de buggy no Estado. Nesse período, outras várias haviam fechado, inclusive a Fyber.
Legenda: Matéria do Diário do Nordeste de 2000, anunciando a criação de mais uma fábrica de buggy no Estado. Nesse período, outras várias haviam fechado, inclusive a Fyber.
Foto: Arquivo DN.

A história do buggy no Ceará

O buggy foi criado em 1964 por Bruce Meyers, nos Estados Unidos, e chegou ao Brasil em 1968. A adaptação ao trânsito em dunas atraiu as montadoras do Nordeste. Pela legislação, é considerado automóvel comum pelo Contran, o que permite emplacá-lo.

Em 1974, os irmãos cearenses Agilberto e Rogério Farias fundaram em Fortaleza a Fyber Indústria e Comércio, inicialmente voltada a peças de fibra de vidro. A empresa passou depois à montagem de veículos, sobretudo buggies, e se tornou a maior e, hoje, única montadora do tipo no Estado.

Em 1981, lançou o Dunas, primeiro modelo anfíbio do Nordeste. O Fyber 2000, de 1983, chegou a ter 80% do mercado brasileiro, segundo estimativa da própria empresa.

No início dos anos 1990, veio o Fyber Star, com painel digital e rodas de liga leve. Em 2004, a empresa lançou o Fyber 2000w, fabricado e licenciado pela Peixoto Veículos, com chassi ampliado e motor AP 1.8 refrigerado a líquido.

Antigo anúncio de jornal da Fyber, destacando o empresário Hiderlandson Peixoto (proprietário da Peixoto Veículos) no 1º lugar.
Legenda: Antigo anúncio de jornal da Fyber, destacando o empresário Hiderlandson Peixoto (proprietário da Peixoto Veículos) no 1º lugar.
Foto: Divulgação.

Fonte de renda no litoral

Em Paracuru, na Região Metropolitana de Fortaleza, a frota de buggies usados no turismo passou de 20, entre 2017 e 2018, para 87. O "buggy-turismo" não era legalizado pela gestão municipal até 2022.

Um passeio de duas horas custa, em média, R$ 300, com visitas aos Lençóis Paracuruenses e à praia de Pedra Rachada. O bugueiro Gabriel dos Santos Cavalcante, 32, natural da cidade, afirma que a atividade gera renda para diversas famílias e movimenta o comércio e a hotelaria locais.

Ainda hoje o Manx, primeiro modelo de buggy feito nos anos 1960, é fabricado e tem seguidores.
Legenda: Ainda hoje o Manx, primeiro modelo de buggy feito nos anos 1960, é fabricado e tem seguidores.
Foto: Reinaldo Jorge / Arquivo DN.

"Demorou para pensarmos em fazer dinheiro com o buggy. Há muitas praias bonitas, e faltava quem fizesse passeios para mostrá-las aos turistas. Hoje o mercado está tomando forma. Há dias em que falta buggy na cidade", disse.

Cavalcante também observa mais pessoas usando o carro por conta própria, fora das dunas e dos bancos de areia, pelas ruas e pelo centro comercial do município.

"Muita gente tem buggy e o deixa na casa de praia. Só usa quando vem passar as férias. Eu mesmo uso pouco fora do trabalho, só para um passeio diferente com minha esposa e meu filho", afirmou.

Fábrica alemã não saiu do papel

Com o fechamento das fábricas no Ceará, a Fyber, sob controle de Agilberto (Bill) Farias, foi a única que seguiu em atividade, produzindo sob encomenda para entusiastas de várias regiões do país.

Os buggys são tadicionalmente construídos sobre a plataforma ou chassi encurtado de um Volkswagen Fusca, utilizando motor boxer traseiro e tração traseira
Legenda: Os buggys são tadicionalmente construídos sobre a plataforma ou chassi encurtado de um Volkswagen Fusca, utilizando motor boxer traseiro e tração traseira
Foto: Camila Lima / Arquivo DN.

Em 2019, a Axxola GmbH, empresa alemã de investimentos, firmou acordo com Farias e a Peixoto Veículos para comprar os ativos de fabricação e os direitos da marca.

Em 2021, começou a ser instalada uma fábrica em Paracuru, com investimento estimado entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões. A previsão era produzir 300 veículos a partir de julho daquele ano e mais 3 mil até 2023.

O investimento não se concretizou. O grupo alemão reduziu a produção aos poucos, até encerrá-la. Hoje, não há montagem de buggies em larga escala no Ceará.

Peixoto trabalhava na área de vendas e acompanhou a mudança de planos. Segundo ele, a linha seria dedicada ao modelo com motor de Fusca.

"O fim do contrato não foi bem explicado. Soube que os alemães consideravam Paracuru muito distante de Fortaleza. A administração foi se desanimando, até a produção ser encerrada", disse.

Depois disso, Peixoto voltou a Fortaleza, recuperou o nome Fyber e passou a produzir os buggies com 15 funcionários. 

Indústria automotiva no Ceará 

Recentemente, o Ceará deu um passo importante para a retomada da indústria automobilística com o Polo Automotivo, em Horizonte, onde era a fábrica da Troller. 

Inaugurado em dezembro do ano passado, o polo iniciou as atividades com a produção de dois modelos de carro elétrico da General Motors (GM): o Chevrolet Spark e o Chevrolet Captiva. 

O investimento da Comexport, empresa responsável pelo empreendimento, foi de R$ 400 milhões. Voltada para veículos de novas tecnologias, elétricos ou híbridos, a planta funciona no modelo multimarcas. A mesma infraestrutura será compartilhada para a montagem de carros de diferentes marcas.

Em junho deste ano, a planta foi escolhida pela MG Motor para fabricar, no Brasil, o MG4 Urban e do S5, carros elétricos feitos na antiga fábrica da Troller. A expectativa da montadora é produzir cerca de 50 mil veículos ao longo dos próximos quatro anos na região.

Créditos

Paulo Roberto Maciel Cavalcante, Repórter | Louise Anne Dutra, Artes e Diagramação | Bruna Damasceno e Hugo R. Nascimento, Editores de Negócios | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | André Melo, Gerente de Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo do Diário do Nordeste, Verdinha e TV Diário | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte

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