Ceará

Por que criar uma vacina contra a dengue é tão difícil e como está sua produção no CE?

Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
21/08/2026 - 06:00

Passaram-se quatro décadas e sete epidemias de dengue até que o Ceará pudesse contar, de forma efetiva, com uma vacina contra a doença. O imunizante QDenga foi incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) em 2024, mas só em janeiro de 2026 chegou a todos os 184 municípios do Estado, seguindo planejamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa).

A demora para fabricar e disponibilizar gratuitamente uma vacina contra um problema histórico é multifatorial. Envolve negligência de doenças tropicais, falta de investimento para pesquisa, o próprio tempo da ciência e, neste caso, a complexidade do vírus da dengue, que impõe desafios ainda maiores aos pesquisadores.

Se não há remédio possível e o tratamento de base da dengue consiste em hidratação e repouso, como evitar casos graves que levam à hospitalização e óbitos? Para especialistas, a resposta, assim como o problema, envolve uma rede de atenção. A vacina é apenas uma delas, mas ainda necessita da colaboração da população para se tornar realmente eficaz.

Esta é a quinta e última reportagem do especial “Dengue - 40 anos”, do Diário do Nordeste, que relembra os primeiros casos da virose que já infectou mais de 885 mil pessoas no Ceará, investiga por que o mosquito ainda é uma ameaça à saúde pública e quais as tecnologias disponíveis para combater a doença.

Dengue

Como está a vacinação no Ceará?

Primeira dose da vacinação imunizou apenas 33% das crianças.
Legenda: Primeira dose da vacinação imunizou apenas 33% das crianças.
Foto: Fabiane de Paula.

O infectologista Ivo Castelo Branco, professor e coordenador do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade Federal do Ceará (UFC), destaca que a vacina da dengue é uma proteção importante tanto para quem já teve algum dos tipos da doença quanto para quem nunca teve contato com o vírus.

Até o momento, o único imunizante aplicado no SUS é a Qdenga, produzida pelo laboratório japonês Takeda com aplicação em duas doses. O público-alvo é de crianças e adolescentes de 10 a 14 anos de idade.

No Ceará, a vacinação contra a dengue começou em maio de 2024, com estratégia focalizada em apenas quatro municípios – Fortaleza, Aquiraz, Itaitinga e Eusébio. Apenas em janeiro deste ano todos os 184 municípios foram incluídos no plano de imunização.

De maio de 2024 até 19 de agosto deste ano, 202.664 crianças na faixa etária estabelecida foram vacinadas com a 1ª dose da vacina, segundo a coordenadora de Imunização do Estado, Ana Karine Borges. O número corresponde a 33% do público-alvo da campanha. Porém, apenas 78.337 dessas crianças (13% da faixa etária indicada) tomaram a 2ª dose do imunizante.

De acordo com Ana Karine, não houve notificações de eventos significativos em relação à vacinação. Mesmo com a confiabilidade do imunizante, a cobertura vacinal ainda está “abaixo do desejado”, pontua a gestora.

Suspensão da vacina Butantan-DV 

Aplicação da Butantan-DV está suspensa temporariamente.
Legenda: Aplicação da Butantan-DV está suspensa temporariamente.
Foto: Divulgação/Instituto Butantan.

Fabricada no Brasil pelo Instituto Butantan, a vacina Butantan-DV foi aplicada em 500 mil pessoas nas fases de testes e poderia ser incluída no SUS ainda neste ano, mas sua aplicação foi suspensa temporariamente em 8 de junho deste ano, após 42 casos de reações severas à vacina e dois óbitos. Entre os efeitos considerados graves estavam sintomas como dor abdominal, vômitos persistentes e sangramentos.

A cidade de Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), foi uma das primeiras a receber a vacinação com a Butantan-DV no País, mas não registrou eventos graves.

O infectologista Ivo Castelo Branco foi um dos pesquisadores escolhidos para liderar o estudo no Ceará. Segundo ele, a suspensão ocorreu “por uma questão ética e metodológica”, mas não põe em descrédito a segurança do imunizante

Ainda que não haja uma previsão do retorno da imunização com a Butantan-DV, Castelo Branco afirma que a vacina tem um potencial ainda maior de combate à dengue que a Qdenga, por ser uma vacinação de dose única que demonstrou, em testes, mais de 65% de proteção contra a doença. 

Ele ainda destaca que a capacidade de fabricação da vacina é superior à do laboratório japonês e que o Instituto Butantan poderia fabricar até 60 milhões de doses no próximo ano, caso a vacinação com o imunizante seja retomada.

O médico ainda aponta um aspecto importante sobre essa vacinação: a necessidade de o calendário de aplicação ser diferente do calendário nacional de imunização. Isso porque, a exemplo da vacinação contra a influenza e a Covid-19, a vacinação contra a dengue não leva em conta fatores regionais, como a constante acumulação de água em locais mais quentes com menos acesso à rede de água, por exemplo.

“A dengue vai chegar agora no Sudeste. Mas no Ceará e no Nordeste, de uma forma geral, onde não tem distribuição rotineira de água, tem [dengue] o ano todo, porque as pessoas armazenam água o ano todo. Aí tem mais criadouros”, aponta.

Universidade cearense lidera estudo de nova vacina

Na luta pela imunização contra a dengue, diversas pesquisas empreendem na busca por novos imunizantes que possibilitem mais proteção e acesso à população. O estado do Ceará sedia, há 20 anos, um desses estudos. 

Desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará (Uece), o projeto de produção de uma nova vacina contra a dengue começou oficialmente em 2006, mas surgiu de uma pesquisa mais antiga, que visava “compreender a resposta imunológica contra o vírus da dengue e desenvolver ferramentas para o diagnóstico sorológico”, explica Izabel Florindo, bioquímica, professora da instituição e coordenadora da pesquisa.

“A partir dessas experiências, fomos consolidando uma linha de pesquisa baseada no que atualmente denominamos agricultura molecular, ou molecular farming, que utiliza plantas como biofábricas para a produção de proteínas recombinantes e outros insumos biotecnológicos”, completa Izabel. 

Ao longo dos mais de 20 anos dedicados à linha de pesquisa, com novas ferramentas de biologia molecular disponíveis, o estudo foi aprofundado e passou a produzir, em laboratório, uma planta denominada Nicotiana benthamiana L

A candidata vacinal contra a dengue baseada na Nicotiana benthamiana tem como hipótese a inserção de uma proteína que pode induzir anticorpos capazes de reconhecer e neutralizar os quatro sorotipos conhecidos da dengue. 

Porém, ainda não é possível afirmar que ela terá capacidade de proteger contra todos eles, já que o imunizante apenas passou por estudos pré-clínicos com camundongos, mas ainda não chegou na etapa de estudos em seres humanos. 

“Nossa proteína recombinante candidata vacinal permanece em fase pré-clínica e ainda necessita de diferentes etapas de validação antes que possa avançar para ensaios clínicos”, pontua Izabel Florindo.

Segundo a pesquisadora, as próximas etapas da pesquisa incluem “aprofundar a caracterização da resposta imunológica humoral e celular, confirmar a capacidade neutralizante contra os quatro sorotipos, avaliar a duração da resposta imunológica e realizar estudos adicionais de segurança e proteção”. 

Para Izabel, há possibilidade de o estudo avançar significativamente na etapa pré-clínica nos próximos dois anos, mas ainda não é possível afirmar quando a vacina estará pronta para utilização em seres humanos, tanto pelos altos investimentos necessários para o desenvolvimento dos estudos quanto pelo rigor das questões metodológicas.

“O desenvolvimento de uma vacina envolve etapas rigorosas de estudos pré-clínicos, ensaios clínicos de fases I, II e III, além da avaliação pelas autoridades regulatórias. Nosso objetivo nos próximos anos é gerar evidências científicas suficientemente robustas para permitir que essa tecnologia avance para etapas posteriores de desenvolvimento”, conclui a pesquisadora.

Dengue

Por que é tão difícil fazer uma vacina contra a dengue?

Vacina é aplicada em duas doses, com intervalo de três meses entre a primeira e a segunda.
Legenda: Vacina é aplicada em duas doses, com intervalo de três meses entre a primeira e a segunda.
Foto: Reprodução/Sesa.

Segundo Izabel Florindo, a dengue “apresenta desafios imunológicos particularmente complexos” em relação à imunização, por ter quatro sorotipos distintos – DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4 –, que se relacionam entre si, mas possuem diferenças antigênicas. 

“Quando uma pessoa é infectada por determinado sorotipo, desenvolve uma resposta imunológica que pode proporcionar proteção duradoura contra este sorotipo. Entretanto, essa proteção não é necessariamente equivalente contra os outros três”, contextualiza Izabel.

Isso ocorre porque, em determinadas condições, anticorpos podem até reconhecer um sorotipo heterólogo (ou seja, diferente), mas não tem capacidade de neutralizá-lo, o que faz com que a entrada do vírus no hospedeiro – no caso, o ser humano – seja facilitada.

“Outro desafio importante é a disponibilidade de modelos experimentais que reproduzam adequadamente a doença humana. Primatas não humanos, como o macaco-rhesus, podem apresentar viremia e desenvolver resposta imunológica após a infecção, mas geralmente não reproduzem todo o espectro das manifestações clínicas observadas em seres humanos”, explica a professora. 

Outro ponto levantado sobre a dificuldade de se encontrar um imunizante eficiente contra a dengue é a possibilidade de a doença ser negligenciada por ocorrer majoritariamente em países menos ricos. 

Contudo, para o secretário executivo de Vigilância em Saúde do Ceará, Antonio Silva Lima Neto, o Tanta, a dengue já ganhou um alcance mundial, o que faz com que ela não se encaixe no padrão das demais doenças negligenciadas. 

"A dengue está na Flórida, está na Europa Mediterrânea toda. Você tem mosquito nos metrôs de Paris, de Londres. Você tem casos em Portugal, na Espanha, na França, autônomos, não importados", contextualiza.

Assim como Izabel Florindo, o secretário acredita que o maior desafio é a complexidade viral da doença, que impede que as vacinas combatam da mesma forma os quatro sorotipos do vírus. Segundo ele, mesmo as vacinas existentes não garantem a mesma proteção para os diferentes tipos de dengue.

“A fisiopatologia da dengue classicamente diz que a segunda infecção pode ser pior do que a primeira. Então, uma vacina é uma infecção. Eu tenho uma replicação viral, tenho o vírus atenuado. Como é que eu garanto que a segunda – se eu quiser vacinar você, que nunca teve – como é que eu garanto que se você tiver não vai ser pior?”, questiona o especialista.

Dengue

Assistência médica é fundamental para evitar hospitalização e óbitos

A vacina contra a dengue não evita a doença, mas é essencial para reduzir o índice de hospitalização e de casos mais graves de dengue. Apesar de sua importância, a vacina é vista como uma ferramenta complementar de cuidado, que precisa estar aliada a tecnologias e estratégias coletivas de combate ao mosquito, inclusive na identificação correta dos casos de dengue e das necessidades médicas de cada um deles.

O secretário executivo de Vigilância em Saúde do Ceará, Antonio Silva Lima Neto, destaca que existem três tipos de dengue: a dengue comum, a dengue com sinal de alarme e a dengue grave (antigamente chamada de hemorrágica). 

“O dengue com sinal de alarme não pode estar em posto de saúde, ele tem que estar no mínimo numa UPA, semi-internado ou internado. Dengue grave tem que estar, eventualmente, até em UTI”, destaca Tanta. A atenção deve ser redobrada em casos em idosos, que possuem especificidades quanto à hidratação adequada. 

Como identificar sinais de alerta da dengue?

Se em muitas doenças o fim da febre significa alívio e a melhora do quadro do paciente, a lógica na dengue é outra: quando a febre passa, é hora de ficar ainda mais atento, reforçar a hidratação e o repouso e acompanhar os possíveis sinais de agravamento. 

Ainda que a maioria das pessoas evolua bem após os cinco primeiros dias, quando a febre tende a passar, algumas podem apresentar uma reação inflamatória significativa, que altera a integridade dos vasos sanguíneos, explica o infectologista Ivo Castelo Branco.

O principal aspecto que agrava a dengue é a ocorrência de vazamento vascular, que faz com que surjam as dores abdominais, sensação de desmaio, vômitos e, em alguns casos, sangramentos.

Feita corretamente, a hidratação pode reverter a disfunção na parede dos vasos, afirma Ivo. “Se eu deixar passar e essa desidratação continuar, nós vamos ter alterações da oxigenação que faz com que as paredes dos casos se lesem, aí nós vamos ter hemorragias”, destaca.

Entenda os principais sintomas da dengue e da dengue grave

Créditos

Ana Beatriz Caldas, Repórter | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Louise Dutra, Arte/Animação | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

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