Entre a década de 1980 e início dos anos 2000, transitava pelas ruas do Ceará um veículo que pulverizava uma substância inseticida, conhecido como “fumacê”. A estratégia era usada nacionalmente para frear a proliferação do mosquito Aedes aegypti — vilão histórico da saúde pública nacional por transmitir arboviroses como dengue, zika e chikungunya.
Com o passar do tempo, os pesquisadores descobriram que o método não era o mais eficaz devido à resistência adquirida pelo mosquito ao inseticida. Com a modernização das tecnologias de enfrentamento ao vetor, o fumacê foi sumindo das ruas cearenses e passou a ser usado somente em situações extraordinárias.
Embora o Ministério da Saúde coordene as estratégias de combate às arboviroses, são os municípios que as executam. No Ceará, algumas cidades apostam em medidas como estações larvicidas para eliminar ovos do inseto, e outras hospedam novos métodos que podem impedir que o Aedes aegypti transmita doenças.
Para descobrir quais tecnologias são adotadas hoje para enfrentar o mosquito, a reportagem acompanhou a visita de um agente de combate às endemias (ACE) em Fortaleza e conversou com especialistas sobre a trajetória tecnológica de combate ao vetor, além de apurar quais são os próximos avanços na “guerra” contra a doença.
Esta é a quarta reportagem do especial “Dengue - 40 anos”, do Diário do Nordeste, que relembra os primeiros casos da virose que já infectou mais de 885 mil pessoas no Ceará, investiga por que o mosquito ainda é uma ameaça à saúde pública e como se proteger e prevenir a doença.
Da erradicação do mosquito à ascensão do fumacê
Nos anos 1950, as autoridades utilizavam pesticidas em massa para exterminar o Aedes aegypti. Uma das mais usadas era o diclorodifeniltricloroetano, conhecido como DDT, que era aplicado nas paredes e nas superfícies das casas.
O objetivo da época era eliminar o inseto adulto, como explica o secretário executivo de Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), Antônio Silva Lima Neto, o Tanta.
“O Aedes aegypti foi, praticamente, eliminado das Américas, o mosquito em si. Mas isso foi à custa de muitos impactos ambientais que a gente sofre até hoje”, disse o gestor em entrevista ao Diário do Nordeste.
Por serem altamente persistentes e poderem permanecer no solo por muitos anos sem se decompor, além de causar câncer, transtornos reprodutivos, infertilidade, malformações congênitas, distúrbios do neurodesenvolvimento e puberdade precoce, esses compostos químicos foram restritos e banidos do uso agrícola.
Só que o relaxamento das medidas e a resistência do mosquito ao DDT levaram ao retorno dos vetores, e as autoridades tiveram que recorrer a outra alternativa: no fim do século XX e início do XXI, surgiu o fumacê, que se tornaria o principal método de combate ao Aedes aegypti e entraria na rotina das cidades brasileiras durante surtos epidêmicos.
A tecnologia de borrifação de Ultra Baixo Volume (UBV) — nome técnico para o fumacê — consistia na dispersão de inseticida no ar para também atingir o mosquito adulto. O método elimina apenas o inseto voador, no momento em que entra em contato com ele, mas não impede novos nascimentos.
Hoje ainda se utilizam inseticidas, mas com baixa toxicidade, sendo à base de piretroides ou outros produtos permitidos em concentrações mínimas.
No entanto, o uso indiscriminado da ferramenta resultou num Aedes aegypti mais resistente. Tanta explica que, para tentar manter o UBV, as classes dos inseticidas eram trocadas. “Atualmente, estamos na sétima geração de inseticidas”, diz.
Além disso, a exposição prolongada aos pesticidas utilizados pela tecnologia pode desencadear problemas respiratórios em humanos e matar outros insetos importantes para os ecossistemas, como abelhas e borboletas.
O pessoal pede muito, todo mundo quer fumacê. [Mas ele] é uma arma de guerra, só é utilizado quando tem um surto ativo. Fumacê só mata mosquito que voa, não faz nada com a larva, com a pupa, com o ovo. Quando faço fumacê, se não estiver toda a equipe do município envolvida na eliminação dos focos, serve pouco.”
Conforme o secretário executivo, a tecnologia antiga ainda é utilizada em momentos específicos. Por exemplo, neste mês de agosto, o município de Sobral, no Norte do Ceará, iniciou um novo ciclo de aplicação de inseticida com o carro fumacê, visando reforçar o combate ao mosquito e reduzir os casos de arboviroses.
Ao Diário do Nordeste, a Prefeitura da cidade esclareceu que essa é uma medida complementar, com foco em interromper a circulação do inseto, e que a participação da população é fundamental para eliminar focos de mosquitos e reduzir o risco de novos casos.
Com essas desvantagens, a atenção mudou para a eliminação mecânica dos criadouros de Aedes aegypti e para o uso mais direcionado dos larvicidas, tudo isso aliado ao trabalho dos agentes de endemias. “Continuamos tendo a necessidade de fazer o tratamento focal, a busca dos focos intradomiciliares, porque eles representam 80% das origens ou mais”, explica Tanta.
Quando o próprio mosquito se torna uma arma
Para o epidemiologista e superintendente da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP-CE), Luciano Pamplona, a população deve entender que o ambiente residencial precisa ser protegido e cuidado semanalmente. A abordagem de erradicar os focos de mosquito é fundamental para controlar o vetor.
Um dos atores responsáveis por essas ações são os agentes de combate às endemias, profissionais exclusivos do Sistema Único de Saúde (SUS) tidos como essenciais na promoção da saúde pública. A profissão surgiu no início do século XX em meio às campanhas de controle de endemias rurais, como a febre amarela e a doença de Chagas.
Entre as atribuições dos ACEs, estão a inspeção em casas, estabelecimentos comerciais e outros locais para identificar e eliminar focos de vetores; conscientização da comunidade; aplicação de larvicida em pontos de proliferação e registro de informações para controle e monitoramento.
A equipe do Diário do Nordeste acompanhou uma equipe de agentes durante visita a uma residência no bairro Parque Santa Maria, em Fortaleza, na manhã de 6 de agosto, para a instalação de uma das mais recentes tecnologias de combate ao mosquito: as Estações Disseminadoras de Larvicida (EDLs).
A estratégia é uma espécie de armadilha que “envenena” o mosquito e utiliza o comportamento do inseto contra ele próprio. O funcionamento consiste em atrair o mosquito fêmea com a armadilha (um balde preto) com a intenção de depositar seus ovos. Suas patas ficam então cobertas por micropartículas do veneno.
Quando ela voa para outros criadouros, até mesmo locais de difícil acesso para os agentes de endemias, transporta e deposita o larvicida nesses novos pontos. “O mosquito passa a ser um agente de controle de endemias”, afirma Tanta.
Essa estratégia é realizada em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Ministério da Saúde. Josete Malheiro, coordenador da Vigilância em Saúde da Capital, afirma que essas ferramentas são implantadas em Fortaleza desde abril de 2026, mas que já eram testadas pela instituição de pesquisa desde os anos 1990.
“Nossa Capital é uma das cidades que está implantando isso de forma mais adensada. São mais de 12 mil unidades aqui. O bairro Parque Santa Maria é um dos quatro primeiros com que estamos trabalhando”, completa.
As unidades também estão sendo dispostas no Conjunto Palmeiras, no Jangurussu e no Barroso, em locais onde há mais propensão de acúmulo de água em pequenos ou médios reservatórios, como em oficinas e sucatas.
Malheiro esclarece que as armadilhas são tecnologias “relativamente baratas” e recentes nas capitais. Por essa razão, ainda é preciso investir em outras maneiras de prevenir e combater o mosquito.
Em Fortaleza, quinzenalmente, as equipes de ACEs visitam residências para verificar se existem pontos de infestação e, então, aplicar larvicida ou fazer a pulverização química. “Temos observado que, onde tem as EDLs, tem havido uma limitação da reprodução do mosquito”, revela.
Malheiro também conta que os ACEs trabalham conectados aos agentes de saúde, de forma que, ao ter a informação de uma possível transmissão de dengue em uma comunidade, logo entram em ação.
“Quando na comunidade tem alguém que circula, que uma família ou outra adoeceu, os nossos agentes de saúde, os agentes de endemias se comunicam, buscam informação e aí a gente já vai mobilizando esforços nessa ideia de identificar no perímetro as ações necessárias de bloqueio”, conta.
‘O acúmulo de água faz parte da essência do cearense’
Além das EDLs, os agentes de combate às endemias utilizam ovitrampas, tecnologia responsável por monitorar e sinalizar para a vigilância em saúde onde está tendo maior concentração do mosquito adulto ativo. De baixo custo, ela consiste em um pequeno recipiente preto com uma palheta de eucatex, fibra de madeira porosa que atrai as fêmeas para depositar os ovos.
As ovitrampas permitem que os ACEs contabilizem a quantidade de larvas naquele perímetro. “É uma solução de tecnologia simples e barata, mas que possui uma limitação. No Ceará inteiro, não temos nem 40 cidades utilizando”, afirma Malheiro.
A gente às vezes tem uma posição muito autoritária em relação às pessoas. Porque você tem que dizer para a pessoa: ‘derrame essa água, acabe com os focos’. Sendo que elas vivem muitas vezes com intermitência de abastecimento de água. O acúmulo de água é algo que faz parte da essência do cearense. Há décadas, séculos. Porque todo mundo que tem intermitência tem que guardar água.”
Existem locais da cidade em que, mesmo no período de estiagem e com a quadra chuvosa reduzida, enfrentam certa irregularidade da frequência do abastecimento de água. “Por isso, acabam precisando armazenar água em reservatórios de médio porte. Tudo isso favorece, portanto, a proliferação”, detalha Josete.
Aposta está no mosquito que não transmite dengue
Embora já tenha sido possível erradicar o Aedes aegypti no passado, as ferramentas atuais de enfrentamento, como as EDLs e o fumacê, visam reduzir a população dele. Porém, como ressalta o secretário executivo, a administração pública não possui capacidade suficiente para garantir o controle da reprodução do inseto.
Já que não é viável eliminar o mosquito, será que é possível impedir que ele transmita doenças? Em 2009, pesquisadores da Escola de Ciências Biológicas, da Universidade de Queensland, na Austrália, descobriram que bactérias chamadas Wolbachia, ausentes no Aedes aegypti, mas comuns em muitos mosquitos, poderiam ser aliadas.
Quando inoculadas na espécie, poderiam reduzir a capacidade dela de transmitir a dengue, conforme a World Mosquito Program (WMP), que detém a tecnologia desenvolvida a partir desse achado.
Após anos de pesquisa e de testes, surgiu o Método Wolbachia, que, além de ter o potencial de transformar o inseto em algo incômodo, mas inofensivo — como uma muriçoca ou pernilongo —, ainda demonstrou que as fêmeas de Aedes aegypti inoculadas com a Wolbachia podem transmitir as bactérias para a prole naturalmente.
A capacidade promissora da nova tecnologia chamou a atenção do Brasil, que passou a conduzir pequenos testes desde 2014, com a soltura de mosquitos inoculados com o microrganismo. O método passou a integrar as diretrizes nacionais de controle e prevenção das arboviroses em 2025.
No território nacional, a técnica foi introduzida pela Fiocruz, em parceria com o WMP. Ao Diário do Nordeste, o pesquisador e antigo coordenador da instituição no Ceará, Carlile Lavor, explica que os resultados promissores no país representam uma esperança para o controle da dengue e demais doenças transmitidas pelo mosquito.
Em testes realizados na cidade de Niterói (RJ), o método reduziu 89% dos casos de dengue, além de ter diminuído expressivamente os de outras arboviroses, conforme estudos publicados.
Para a entidade, isso demonstra o potencial da ferramenta em controlar as transmissões, principalmente “quando integrada às demais estratégias de vigilância e controle já adotadas pelos serviços de saúde”.
Mosquito com Wolbachia chegará em breve ao território cearense
O Ceará é um dos personagens dessa introdução da tecnologia no Brasil. Ano passado, a partir de critérios técnicos, três municípios foram contemplados pelo Ministério da Saúde para a implantação do método Wolbachia: Eusébio, Crato e Maranguape.
Os mosquitos utilizados no Método Wolbachia não são geneticamente modificados e são visualmente idênticos aos demais Aedes aegypti. A única diferença é que eles carregam a Wolbachia, uma bactéria naturalmente presente em cerca de 60% dos insetos na natureza.”
Atualmente, eles estão na fase de engajamento e comunicação, etapa em que a população é informada sobre a técnica e pode tirar dúvidas. Em paralelo, a Fiocruz está construindo um insetário em Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza, que servirá como base de apoio para o desenvolvimento e produção local dos mosquitos com Wolbachia.
Com a conclusão dessa parte, terá início a liberação dos insetos inoculados com a bactéria nas localidades. A Fundação informa que ainda não há uma data definida para o início desta fase.
“Antes da liberação, porém, os insetos passam por reprodução com mosquitos locais para garantir que apresentem características compatíveis com a população de Aedes aegypti da região, favorecendo seu estabelecimento no ambiente”, detalha.
Além do insetário, a Fiocruz iniciou a instalação de uma biofábrica de mosquitos Wolbachia em Eusébio. Contudo, no momento, as obras estão suspensas e não há previsão de retomada.
Apesar de todas as tecnologias de enfrentamento citadas neste material, nenhuma delas é suficiente para controlar o mosquito, destaca o epidemiologista Luciano Pamplona. “Nada disso vai fazer efeito, mais uma vez, se eu não controlar a oferta de criadouros de depósito com água no ambiente domiciliar."
Além das estratégias de controle do mosquito, existe outra forma de prevenção contra a doença: a vacinação. Na próxima reportagem, entenda como funciona a imunização contra a dengue, quem pode receber a vacina e os desafios para ampliar a proteção.
Na próxima e última reportagem da série "Dengue - 40 anos", você entende por que a criação de uma vacina contra a doença é tão complexa.
Créditos
Carol Melo e Clarice Nascimento, Repórteres | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Louise Dutra, Arte/Animação | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo