Mulheres elogiam vagões femininos do metrô de Fortaleza, mas homens ainda questionam medida

Iniciativa completa duas semanas de atuação nesta sexta-feira (17) e recebe até 220 passageiras por viagem, segundo a Metrofor.

Escrito por Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
17 de Julho de 2026 - 16:40
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Legenda: Mesmo com sinalização visível, homens ainda utilizam vagões femininos.
Foto: Reprodução/Ana Beatriz Caldas.

Implantados no início do mês nos trens da Linha Sul do metrô de Fortaleza, os vagões exclusivos para mulheres já fazem parte da rotina de várias cearenses há duas semanas. Segundo a Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos (Metrofor), estima-se que de 100 a 220 passageiras ocupem os dois vagões femininos de cada trem por viagem, a depender do horário.

Apesar de ter sido pensada para garantir mais segurança às mulheres, reduzindo o número de casos de importunação sexual no transporte público, a medida ainda enfrenta críticas de alguns usuários. Segundo a Metrofor, os canais de atendimento do órgão têm recebido “questionamentos pontuais de passageiros homens sobre o funcionamento do espaço reservado”. 

“Em contrapartida, a iniciativa tem sido amplamente elogiada pelas usuárias, que relatam maior sensação de segurança e privacidade”, ressalta a Metrofor, em nota.

Na prática, usuárias relatam que muitos homens desrespeitam a medida e tentam utilizar os vagões destinados apenas às mulheres, mesmo com sinalização visível nos dois vagões femininos de casa trem – localizados no início e no fim de cada veículo e separados dos demais apenas por agentes de segurança metroviários do sexo feminino e masculino.

Fiscalização é atuante, mas ainda insuficiente

Nesta quinta-feira (16), o Diário do Nordeste esteve em três estações do metrô da Capital para acompanhar a adesão das usuárias e a fiscalização nos vagões femininos. No momento da chegada de cada trem, foi possível perceber que muitas mulheres se direcionam imediatamente aos vagões femininos e, em muitas viagens, os espaços ficaram de fato reservados apenas a elas.

Em outros momentos, no entanto, homens tentaram ocupar os vagões femininos. Alguns deles, que pareciam desconhecer a norma, foram redirecionados aos vagões mistos pelos agentes metroviários ou pelas próprias passageiras, pedindo desculpas pelo equívoco. 

Em outro momento, porém, três homens entraram pelas portas sinalizadas com o símbolo dos vagões femininos, ignorando os avisos, e seguiram viagem sem que nenhum agente de segurança fiscalizasse o local. Em outro trem, ainda que o espaço tenha sido ocupado exclusivamente por mulheres, o vagão seguia sem nenhuma fiscalização – uma questão que se torna mais delicada já que não há separação entre os vagões.

Em cada trem, dois vagões são destinados unicamente às mulheres.
Legenda: Em cada trem, dois vagões são destinados unicamente às mulheres.
Foto: Romário Pinheiro/Metrofor.

Usuária de veículos sobre trilhos diariamente, a vendedora Vaniara Menezes dos Santos, 31, relatou à reportagem que a fiscalização tem sido insuficiente para garantir o direito dos vagões exclusivos às mulheres e disse não concordar com a presença de agentes homens nesses espaços.

“No meu ponto de vista, a fiscalização – principalmente nos vagões femininos – teria que ser feita por mulheres, não homens. Nisso está pecando muito, porque fica ‘ah, mas ali tem um segurança homem, por que eu, homem, não posso entrar?’, como eu já vi passageiros falando; Se tem vagão feminino tem que ser feminino, não pode ter segurança masculino”, pontuou.

Ela também afirma que a distância entre os vagões femininos facilita o acesso de homens aos espaços, já que eles ficam na ponta de cada trem. “Seria bom os dois primeiros ficarem só para mulheres e os outros mistos”, sugere. “Tá melhorando pra gente, mas teria que melhorar a visão nesse ponto”, completa.

Em resposta ao questionamento do Diário do Nordeste sobre as críticas em relação a agentes homens em espaços de uso exclusivo das mulheres, a Metrofor afirmou que os vigilantes “estão ali para garantir a integridade física de todas as passageiras e impedir a utilização do espaço por usuários masculinos”.

“Como o papel deles é estritamente de vigilância e orientação, sem qualquer necessidade de contato físico ou abordagem íntima, a presença deles cumpre perfeitamente o papel de proteção, sem violar a privacidade das usuárias”, segue a Metrofor.

A Companhia ainda destacou que a fiscalização é feita de “forma ativa e preventiva por meio de rondas dinâmicas e alternadas das equipes de segurança interna ao longo das viagens. Além disso, as estações contam com monitoramento por câmeras e presença de agentes nas plataformas para orientar o embarque correto”.

Usuárias relatam se sentir mais protegidas de situações de importunação sexual

Sinalização está presente na porta dos vagões e no interior dos veículos.
Legenda: Sinalização está presente na porta dos vagões e no interior dos veículos.
Foto: Romário Pinheiro/Metrofor.

A reportagem conversou com usuárias de metrô e VLT para ouvir suas opiniões sobre os vagões femininos. Em sua maioria, as mulheres destacaram a importância de um local que as proteja de situações de importunação sexual e outras violências. Quase todas relataram já ter passado por episódios desse tipo.

A estudante Yasmin Sousa, de 19 anos, lamentou não poder usar os vagões, já que a Linha Sul não faz parte de sua rota diária. “Acho que seria muito mais confortável. Infelizmente, hoje em dia acontecem muitos assédios, e eu já passei por vários, então, acho que ia me sentir mais protegida rodeada de mulheres”, afirmou.

A empreendedora Jacqueline Castelo, 54, também relatou ter passado por situações de importunação sexual, tanto no transporte público quanto na rua. “Essa semana mesmo eu vinha no metrô e um homem disse que isso [a necessidade de vagões femininos] era uma bobagem. Eu disse ‘não é, porque só sabe que o sapato aperta quem calça’”, destacou.

Usuária frequente do metrô, ela afirmou que tem visto fiscalização para garantir que homens não utilizem os vagões femininos, e que muitos usuários ainda se confundem, mas pedem desculpas e saem do local quando avisados.

A iniciativa de criar vagões somente para mulheres não é exclusiva da capital cearense. No Brasil, cidades como Salvador, Rio de Janeiro e Brasília já aderiram à medida como forma de reduzir casos de importunação sexual no transporte público.

Elane Silva, 52, que trabalha como auxiliar de administração, relatou que também tem visto, em sua maioria, homens respeitando os vagões – não só pela fiscalização dos agentes de segurança, mas porque as próprias mulheres já se acostumaram à medida e “policiam” os espaços. 

“Esse vagão feminino só nos trouxe benefícios: a comodidade, a gente está mais protegida, se sente mais livre, mais solta, mais à vontade de estar entre ‘as nossas’. A comodidade de não ter aquele entrave no passar, você tem aquele cuidado a mais de não esbarrar, de se sentir mais protegida e acolhida”, comenta. “Está sendo maravilhoso”.

Onde fica a Linha Sul?

Com 24,1 km e 20 estações, a Linha Sul do Metrô de Fortaleza liga Fortaleza a Maracanaú e Pacatuba e é a maior em extensão, número de estações e passageiros do Ceará. Diariamente, cerca de 34 mil pessoas utilizam os trens da linha, segundo a Metrofor.

As estações José de Alencar, Parangaba e Maracanaú são as unidades de maior fluxo de passageiros.

O que é importunação sexual e como denunciar?

Muitas vezes confundido com o crime de assédio sexual, a importunação sexual é hoje entendida pela legislação brasileira como um crime mais grave, por violar a liberdade sexual e acontecer, frequentemente, em espaços públicos. Para este crime, a pena é de 1 a 5 anos de prisão.

Casos de importunação sexual no transporte público podem ser denunciados pela plataforma SuperNINA, iniciativa idealizada por meio de uma parceria entre o Metrofor, a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor) e a Secretaria das Mulheres do Estado do Ceará.

As denúncias podem ser enviadas para o WhatsApp (85) 93300-7001, de forma sigilosa.

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