Guillain-Barré: doença rara faz cearenses perderem movimentos após sinais no cotidiano

Síndrome pode levar à perda repentina da força.

Escrito por Nathália Paula Braga* producaodiario@svm.com.br
10 de Outubro de 2026 - 08:00
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Legenda: Conforme o Ministério da Saúde, a SGB é um distúrbio autoimune. Isso significa que o sistema imunológico do próprio corpo ataca parte do sistema nervoso.
Foto: Shutterstock.

Uma aula de atividade física online foi o último momento de normalidade vivido pela psicóloga cearense Leila Machado, de 63 anos, quando, ao executar atividades rotineiras, começou a sentir os primeiros sintomas de uma condição até então desconhecia: a Síndrome de Guillain-Barré (SGB).

O primeiro sintoma, a perda súbita de força, apareceu em junho de 2023. Ao tentar se servir, Leila deixou uma garrafa de café deslizar da mão.

“Eu achei estranho, era como se eu não tivesse tido força para segurar a garrafa”, explicou em entrevista ao Diário do Nordeste.

A psicóloga tentou seguir a rotina, mas a falta de coordenação voltou a aparecer ao escovar os dentes. Ela lembra que "era como se algo dentro do meu corpo não estivesse funcionando direito".

O médico neurologista Luís Edmundo Furtado explica que a Síndrome de Guillain-Barré é uma doença rara neurológica e de natureza autoimune. Isso significa que o sistema imunológico do próprio corpo ataca parte do sistema nervoso – correspondente aos nervos que conectam o cérebro com outras partes do corpo. A explicação, na prática, remete à fraqueza muscular sentida pela psicóloga.

Leila não esperou outros sintomas para perceber que tinha algo errado em seu organismo. Ela se dirigiu a um hospital por conta própria, chegando a pé e pegando a própria ficha. Horas depois, veio o diagnóstico: SGB.

Rapidamente, a doença se agravou, fazendo a psicóloga perder a capacidade de respirar e precisar até ser intubada.

De acordo com o neurologista, o diagnóstico é fundamentalmente clínico, mas exames complementares são importantes para sustentar a hipótese de SGB e excluir outras doenças.

“A investigação geralmente inclui a análise do líquido cefalorraquidiano, obtido por meio de punção lombar, além da eletroneuromiografia, exame que auxilia na identificação do padrão de comprometimento dos nervos periféricos e na caracterização dos diferentes subtipos da síndrome”, explica Furtado.

Conforme o relato de Leila, o processo de descoberta da doença passou por várias etapas, desde a suspeita inicial de acidente vascular cerebral (AVC) até a confirmação do diagnóstico. No hospital, ao se engasgar enquanto tentava beber água, ela chamou a atenção dos médicos da emergência, que, diante do sintoma, levantaram a possibilidade de que se tratasse da síndrome de SGB.

Como é feito o diagnóstico da SGB? 

O diagnóstico foi confirmado oficialmente por meio da eletroneuromiografia. Leila ressalta que o seu caso foi considerado "fulminante", pois a perda de força e a necessidade de intubação ocorreram em poucas horas. 

No momento mais crítico da doença, o corpo de Leila não respondia a estímulos e a equipe médica chegou a suspeitar de possível morte cerebral. "Mas isso foi só uma suspeita grave. E aí foi indo... e um belo dia eu acordei", relata.

Mesmo com a paralisia total, Leila afirma que a cognição permaneceu preservada: ouvia e percebia tudo ao redor, sem conseguir reagir fisicamente.

Apesar de raro, o diagnóstico de Leila não é um caso isolado no Ceará. A reportagem do Diário do Nordeste solicitou à Secretaria de Estado da Saúde do Ceará (Sesa) um levantamento de casos ocorridos nos últimos anos.

Em nota, a Pasta informou que, entre os anos de 2025 e 2026, dois casos da doença foram identificados nas unidades de saúde do Estado.

No entanto a Secretaria explica que a doença não é de "notificação compulsória", ou seja, não exige comunicação obrigatória por parte dos profissionais ou estabelecimentos de saúde às autoridades sanitárias. Isso pode dificultar o levantamento real sobre a quantidade de pessoas no Ceará desenvolveu a doença.

Sequelas para o dia a dia

A reportagem encontrou outra cearense que teve a rotina interrompida pela perda repentina de força provocada pela Síndrome de Guillain-Barré. Natural de Tianguá, na Serra da Ibiapaba, Francisca Vanda, de 38 anos, recebeu o diagnóstico há quatro anos e ainda convive com sequelas.

Assim como Leila, os primeiros sintomas da SGB surgiram com a perda da força motora. Vanda sentiu os dedos “estranhos” e não conseguiu abrir um elástico de cabelo. No dia seguinte, perdeu a força ao segurar uma garrafa; ao tentar pegá-la, caiu e não conseguiu se levantar sozinha.

Após buscar atendimento em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), foi encaminhada para a Santa Casa de Sobral. Os primeiros exames não apontaram alterações, enquanto Vanda perdia força e dependia de ajuda para realizar funções básicas.

Francisca Vanda de 38 anos  internada na Santa Casa de Sobral.
Legenda: Francisca Vanda de 38 anos internada na Santa Casa de Sobral.
Foto: Arquivo Pessoal.

O diagnóstico de SGB veio apenas no nono dia de internação, após uma nova punção lombar. O tratamento com imunoglobulina humana trouxe resultados rápidos: no terceiro dia, ela já conseguia pentear o cabelo. Após receber cinco doses, Vanda teve alta para iniciar a fisioterapia.

Nas redes sociais, outro caso da SGB ganhou repercussão nacional e chamou atenção pela longa batalha contra os efeitos da doença. Aos 15 anos, a fisioterapeuta goiana Roberta Rodrigues começou a perceber os primeiros sintomas da SGB.

Hoje, aos 33 anos, ela conta sua trajetória nas redes sociais. Ao longo desse período, passou por 10 internações na UTI e enfrentou cinco episódios graves, que a deixaram tetraplégica. Em quatro deles, conseguiu recuperar os movimentos.

Roberta Rodrigues aos 15 anos se recuperando da primeira crise de SGB.
Legenda: Roberta Rodrigues aos 15 anos se recuperando da primeira crise de SGB.
Foto: Arquivo Pessoal / Roberta Rodrigues.

A última crise aconteceu em abril de 2025 e a deixou paraplégica. Desde então, ela luta, mais uma vez, para voltar a andar.

Diferentemente das cearenses Leila e Vanda, a síndrome de Roberta é crônica, ou seja, uma condição de saúde de longa duração ou indefinida.

Segundo o médico que acompanha Roberta, o neurologista Daniel Graciano Costa, "a gente tem a fase subaguda, que são as polirradiculoneuropatias inflamatórias agudas, e a mais comum delas é o próprio Guillain-Barré, que é quando o seu próprio corpo começa a produzir anticorpos contra, tipicamente, a bainha de mielina, essa camada de gordura que o neurônio tem".

Recentemente, Roberta ganhou uma autorização do plano de saúde para receber uma nova dose de medicamento para evitar que as crises aconteçam. A cada seis meses, ela toma uma medicação chamada Rituximabe. Mesmo com as diversas crises que já teve, a fisioterapeuta contou que se recuperou totalmente.

*Estagiária sob supervisão do jornalista Nícolas Paulino.

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