Como audiolivros podem impactar na aprendizagem em sala de aula e fora dela

Para especialista, tecnologia pode tornar a escola mais acessível e inclusiva.

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
09 de Outubro de 2026 - 08:00
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Legenda: Audiolivros têm ganhado a preferência dos brasileiros e podem auxiliar o processo de aprendizagem de crianças.
Foto: Fósforo Filmes/Divulgação.

Mais da metade dos brasileiros não leem livros. O dado – correspondente a 56% da população, revelado na última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil pelo Instituto Pró-Livro, em 2024 – emplaca um desafio: como driblar a estatística e formar leitores começando pela base, ou seja, entre as quatro paredes de uma sala de aula? 

Autor juvenil mais lido do País, com mais de 17 milhões de exemplares vendidos ao longo da carreira, Pedro Bandeira aponta caminhos para melhor aproveitamento do potencial de audiolivros nas escolas. Ele participou de um painel na programação da Audible Brasil na 28ª Bienal do Livro de São Paulo, em setembro, no qual falou para famílias e crianças. Pedro credita a tecnologia de ler com os ouvidos uma “invenção maravilhosa”.

“Antes você tinha que ter um disco ou uma fita para ouvir histórias. Hoje, pela internet, consegue fazer isso com muita facilidade. São livros de teoria, de romance, o que você quiser... É uma coisa fantástica”, vibra o escritor que, aos 84 anos, lança a nova obra, “Papo de Sapato”, com ilustrações de Ziraldo, pela editora Melhoramentos. O título foi narrado pelo próprio autor, num processo que durou duas horas.

Um dos autores mais importantes da literatura infantojuvenil brasileira, Pedro Bandeira é amplamente conhecido por obras marcantes que estimulam o hábito da leitura e o pensamento crítico entre crianças e jovens.
Legenda: Um dos autores mais importantes da literatura infantojuvenil brasileira, Pedro Bandeira é amplamente conhecido por obras marcantes que estimulam o hábito da leitura e o pensamento crítico entre crianças e jovens.
Foto: Fósforo Filmes.

O incentivo dele é para que a prática da leitura não apenas com os olhos, mas por meio de outras vias, comece no próprio ambiente escolar – algo que pode despertar protagonismo e criatividade nos pequenos.

“O audiolivro pode acionar outros conhecimentos para além da leitura de histórias. Ele prende você. Por que não pegar uma aula de Ciências, de Geografia ou de História e adaptar para o áudio? Começando de forma bem simples, para os próprios alunos narrarem as histórias da forma como entendem e, com o tempo, poderem acompanhar, no livro físico, enquanto escutam o áudio. Tem mil coisas que o audiolivro pode proporcionar”, sugere.

Outra que ilumina ideias é a escritora Andrea Del Fuego, participante da mesa “Escrever para ouvir: como o áudio está mudando a forma de contar histórias”. Para ela, o audiolivro ocupa importância inclusive para a educação de pessoas em situação de privação de liberdade.

“Pessoas estão nos presídios, muitas vezes, porque não tiveram oportunidade. São muitas questões que se cruzam para alguém desembocar em uma situação feito essa, e uma delas é não ter tido Educação e a possibilidade de ter aprendido a ler, na maior parte dos contextos. Um audiolivro em um ambiente feito esse é uma imersão narrativa. A Literatura, por sinal, começa com uma tradição oral. Saímos da oralidade para a Literatura chegar até aqui”.
Andrea Del Fuego
escritora

Diretora geral da Audible, o serviço de audiolivros e podcasts da Amazon, no Brasil, Adriana Alcântara explica que ainda não há pesquisas segmentadas sobre o consumo de audiolivros por estudantes, especificamente em sala de aula. Lembra, porém, que existem projetos que criam oportunidades para que o áudio esteja presente em diferentes momentos da rotina. 

Um deles, o “Ouvindo Histórias”, foi criado para levar narrativas e conhecimento a pessoas durante o deslocamento diário, de forma gratuita. Ela também cita colaborações com empresas de transportes e comunicação que oferecem audiolivros gratuitos durante trajetos.   

“Além disso, acabamos de lançar o Perfil Infantil, que permite às famílias criar uma biblioteca separada, voltada ao público infanto-juvenil. Na Bienal do Livro de São Paulo, lançamos mais de 25 títulos de Ziraldo – os primeiros de uma coleção de cerca de 170 – no nosso catálogo, com narração de Pedro Bandeira, Hélio de La Peña, Giovanna Nader e Marco Ribeiro”, afirma.

Acesso à literatura

De igual forma, Adriana acredita que o audiolivro amplia as possibilidades de acesso à literatura e ao conhecimento. 

Segundo ela, na sala de aula a ferramenta pode ser utilizada como recurso complementar à leitura tradicional, apoiando atividades de interpretação de texto, desenvolvimento da escuta, ampliação de vocabulário, contato com diferentes formas de narração e aproximação dos estudantes com escritores e obras relevantes.

Mais: a experiência auditiva também pode favorecer alunos com diferentes perfis de aprendizagem, além de contribuir com o aspecto da acessibilidade ao conteúdo. 

“O professor pode trabalhar com a obra em áudio paralela ao livro impresso ou digital, criando atividades de comparação entre as linguagens, análise de personagens, ritmo, ambientação e escolhas interpretativas do narrador”, enumera.

Tecnologia e intenção pedagógica

É bom deixar claro, porém: o audiolivro não substitui a leitura nem o professor, mas amplia possibilidades quando existe planejamento e uma mediação que considera as necessidades dos alunos. A perspectiva é de Rosane Serra, pedagoga, psicopedagoga e coordenadora de Tecnologia Educacional.

Segundo ela, a tecnologia só ganha sentido quando conectada a uma intenção pedagógica. "Quando o audiolivro é bem utilizado, pode aproximar, despertar o interesse e favorecer novas formas de aprender. É essa integração entre tecnologia e pedagogia, com o professor como designer da aprendizagem e mediador desse processo, que considero mais valiosa na Tecnologia Educacional", percebe.

No projeto social Lumiar, focado em atendimento psicopedagógico, por exemplo, a estudiosa teve oportunidade de utilizar o audiolivro como recurso multissensorial, envolvendo escuta, imaginação e aproximação de crianças para a leitura de forma significativa. O potencial da ferramenta para inclusão se sobressaiu.

Isso porque estudantes não aprendem da mesma maneira e, para alguns, a escuta pode ser uma importante porta de entrada para o conhecimento, especialmente quando existem barreiras no contato com o texto escrito. "Vejo a Inteligência Artificial como uma possibilidade muito interessante e viável. Não considero que seja uma tecnologia distante; ela já faz parte da nossa realidade e pode ser incorporada de forma gradual e planejada, especialmente na criação de recursos como os audiolivros", diz.

Alguns caminhos são essenciais para isso. Rosane lista os seguintes:

  • Formação de professores;
  • Escolha criteriosa de plataformas;
  • Análise dos termos de uso;
  • Verificação da adequação para crianças e adolescentes;
  • Cuidados com proteção de dados, direitos autorais e qualidade dos conteúdos produzidos.

"É importante observar também as imagens, as vozes e os demais recursos gerados, avaliando se são apropriados para crianças e adolescentes", completa a pedagoga.

Expansão de audiolivros e a Educação

Rosane Serra ainda observa que o mercado de audiolivros no Brasil amplia as próprias possibilidades e alcança públicos cada vez mais diversos. Esse crescimento, ela crê, abre oportunidade para a Educação, uma vez a capacidade do audiolivro de chegar a públicos que nem sempre encontram facilidade ou disponibilidade para acessar a leitura pelo formato tradicional.

"Ele é um recurso potente para fortalecer a escuta atenta, estimular a imaginação e construir vínculos e encantamento com os livros".

Ela utiliza ferramentas como o Storybook, recurso do Gemini, ou o Canva, em algumas formações com professores, para a criação de audiolivros. A partir de uma história ou de um texto, é possível transformar o conteúdo em uma narrativa em áudio, tornando a experiência mais envolvente.

"Acho muito potente também pensar nos alunos como protagonistas das próprias histórias. Eles podem criar o roteiro, imaginar os personagens, participar da produção das imagens e transformar essa criação em um audiolivro com o apoio da Inteligência Artificial. Nesse processo, cada aluno pode participar de acordo com suas possibilidades e habilidades".
Rosane Serra
Pedagoga, psicopedagoga, coordenadora de Tecnologia Educacional.

Não à toa, percebe que o potencial do audiolivro na Educação vai além de oferecer alternativa ao livro impresso. Ele pode ampliar formas de acesso ao conhecimento e contribuir para uma escola que ofereça diferentes caminhos para que estudantes possam aprender.

"O audiolivro tem potencial para chegar a muito mais pessoas, mas, para isso, precisamos avançar principalmente no acesso. Não basta produzir bons conteúdos se parte da população ainda não tem dispositivos, internet ou condições para utilizá-los. Na Educação, vejo também a necessidade de políticas públicas que garantam infraestrutura e ampliem o acesso aos recursos digitais nas escolas, junto à formação dos professores para uso pedagógico. Esse é um caminho que depende de acesso, investimento e políticas públicas que garantam essas condições".

O Marco de Competências em IA para Professores, desenvolvido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), reforça a importância de desenvolver tais competências para que educadores possam utilizar tecnologias de maneira consciente, crítica e pedagógica.

Por isso mesmo, Rosane não considera a expansão do consumo de audiolivros em sala de aula uma realidade distante. "A tecnologia já está presente na Educação. O que precisamos é criar condições para que ela esteja presente de forma mais acessível, planejada e significativa, garantindo infraestrutura, formação e intencionalidade pedagógica", conclui.

*O repórter viajou a São Paulo a convite da Audible Brasil.

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