Há bairros com terminal de ônibus próprio. Há outros com menos de 1 km² de extensão. O Couto Fernandes pertence a este segundo grupo, e vai além: é o menor bairro de Fortaleza em dimensão territorial. São 0,32 km² de área e de vivências de todo tipo. De gente que nasceu no território; de gente que apenas trabalha nele; ou, como em alguns casos, de pessoas que preenchem as duas categorias. Afinal, fomos saber: como é viver no menor bairro da Capital?
“É muito bom, muito tranquilo”, conta Roberta da Silva Oliveira. Aos 40 anos, nunca saiu do lugar onde a família de origem criou raízes. Hoje, além de ter formado o próprio lar no espaço, atua como serviços gerais em uma das lanchonetes mais conhecidas do local, a “Vim da Roça”. Nas últimas quatro décadas, percebe, o Couto Fernandes cresceu.
“As ruas estão melhores, sinto que ele está se desenvolvendo. Antes tinha o trem no lugar do metrô, e a gente sempre pegava pra se locomover. Também tinham alguns colégios… O que eu estudei, por exemplo, já não existe mais”, recorda.
De igual modo, lembra não sentir falta de nada no cotidiano, embora o bairro careça ainda hoje de serviços mais especializados. No fim das contas, Roberta é feliz no Couto Fernandes. “Pra torná-lo ainda melhor, acho que colocaria mais escolas e creches”.
Aos 70 anos, Francisco Assis Monteiro, conhecido apenas como Monteiro, concorda: pelo fato de o bairro estar próximo a uma das principais vias da Capital, a Avenida José Bastos, pouca coisa falta ali. Lugar para se alimentar? Tem. Para trabalhar? Também.
Ele mesmo sai todos os dias do Conjunto Ceará para chegar à loja onde é prestador de serviços, nessa outra parte da cidade. Convive de 7h às 17h no Couto. “Acho que é um bairro igual aos outros, talvez até um pouco melhor que certos bairros mais elevados, principalmente por estar perto de uma via movimentada”, percebe.
“Durante a semana, a rotina é intensa, atendemos muitas pessoas… No fim de semana, é mais tranquilo. Apesar de morar em outro lugar, a receptividade que encontro aqui é muito boa. Passo, e todo mundo fala comigo. Em muitos locais, não acontece isso”.
A história do Couto Fernandes
Essa convivência miúda e fácil, de conversa na calçada e vizinhos que parecem família, dão o tom do Couto Fernandes desde a origem do bairro. Ele se formou em torno da estação ferroviária de mesmo nome, inaugurada em 1º de agosto de 1940 em homenagem ao engenheiro maranhense Henrique Eduardo Couto Fernandes – inspetor de estradas de ferro e administrador da Rede de Viação Cearense (RVC) entre 1915 e 1922.
Demolida em 2009 para construção do metrô de Fortaleza, a estação não apenas deixou lembranças, como cravou na Capital a identidade do lugar. Uma curiosidade interessante é que, durante muito tempo, o Couto Fernandes foi conhecido como Quilômetro 8 devido à distância em linha reta da linha ferroviária à Estação João Felipe, no Centro.
Muito da ocupação do território deu-se, não sem motivo, por famílias de operários e pessoas ligadas a trabalhadores na ferrovia. Na plataforma Fortaleza em Bairros, da Prefeitura de Fortaleza, é possível saber mais dados sobre o recanto.
O Couto Fernandes foi criado em 1956, pertence à Regional 11 e tem população de 4.645 pessoas, conforme o Censo Demográfico de 2022. Além disso, soma alguns números:
- 997 unidades habitacionais;
- 475 unidades habitacionais em apartamento;
- 15 condomínios;
- 25 quadras;
- 1 praça, a Praça das Costureiras;
- 1 assentamento precário;
- 0,92% de cobertura vegetal urbana.
Apesar disso, no mesmo levantamento, consta que há apenas uma estação do Bicicletar, nenhum ponto de ônibus e nenhuma unidade de espaços como equipamentos de saúde, escolas municipais e estaduais, equipamentos culturais municipais, templos religiosos, ecopontos, areninhas, microparques e wi-fi público.
Os principais pontos de referência do local são mesmo a sede da Casa da Mulher Brasileira do Ceará, a estação de metrô Couto Fernandes e a proximidade com o prédio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) – apesar de este ser categorizado como pertencente ao bairro Bela Vista.
No livreto sobre o Couto Fernandes no box “121 - Fortaleza em Bairros” – projeto da Prefeitura de Fortaleza – consta ainda que um dos primeiros moradores do território, Josimar Fernandes, era um paraibano que gostava de ir ao Clube dos Ferroviários vender churrasquinho. Ele ficou famoso por também comercializar espetos de laranjas descascadas. Segundo ele, “faziam muito sucesso”.
'Não ter nada e ter tudo'
Uma das melhores definições de como é viver no Couto Fernandes vem de Nirvando Júnior, administrador de um autoshopping localizado no bairro – embora com localização documentada no bairro Bela Vista. Hoje morador do Demócrito Rocha, viveu dos oito aos 17 anos de idade no Couto, e alega: é um bairro que “não tem nada e tem tudo”.
“Por ser um bairro pequeno, não existe shopping aqui, por exemplo, nem um grande supermercado. Mas você consegue ir a vários pontos que dão acesso a lugares assim pela proximidade com avenidas como a José Bastos e a João Pessoa. Isso é muito bom”, comemora o jovem de 25 anos, cujas memórias mais fortes da infância são de brincadeiras na rua e de uma vizinhança parceira e amiga.
Ele não chegou a acompanhar o tempo em que o trem passava na estação do bairro. Mas gosta de falar o nome das ruas que ocupam a cartografia do bem-querer, da Rua Ceará à Teles de Sousa. “O metrô alterou a dinâmica do bairro. O que temos hoje é uma escadinha que dá acesso da estação ao bairro. Fica perigoso passar por ela após às 18h. Antigamente não, era muito bom passar ali, muito tranquilo”.
Outra testemunha ocular das tantas transformações é Francisca Sousa Silva, a dona Neném. 81 anos de existência, 45 apenas no Couto Fernandes após chegar a Fortaleza de Reriutaba, município do Sertão de Sobral. Reside na mesma casa até hoje e recorda do início. “Era um bairro pobrezinho, com casas de taipa. Primeiro comprei a minha assim, de taipa também, depois fiz de tijolos”.
Atualmente, a residência onde mora fica em frente à estação de metrô, e protagonizou a mesma dona Neném indo em direção ao antigo trem. Dirigia-se ao Centro da cidade, resolver burocracias. Não troca o ruído dos outros bairros por nada.
“Aqui no Couto é muito tranquilo, bom de morar. Graças a Deus nunca passei por uma situação difícil”, comemora. “Construí minha família aqui, tenho até bisneto de 20 anos. É uma vida boa”.