Carri Costa sonha com a reabertura do Teatro da Praia: "enquanto eu estiver em pé, ele estará"

Em novo endereço, equipamento precisa de recursos financeiros para abrir as portas em 2022

Ator e diretor cearense Carri Costa sonha com o Teatro da Praia de portas abertas para a cidade
Legenda: Ator e diretor cearense Carri Costa sonha com a casa de espetáculos de portas abertas para a cidade
Foto: Fabiane de Paula

Na Avenida Monsenhor Tabosa, 177, está em reconstrução o sonho do ator e diretor cearense Carri Costa. Ali, onde hoje é apenas um vão pouco iluminado e com alguns entulhos, ainda veremos um café, uma galeria de arte, as arquibancadas e o palco do Teatro da Praia, erguidos sob as quase três décadas de história caiadas na cultura cearense.

Pelo menos é assim que o artista vislumbra a nova fase do equipamento, de portas abertas, dia e noite, para toda a cidade. Esta semana, ele é um dos que revelam ao Diário do Nordeste, por meio do especial "Eu Tenho um Sonho", aspirações para 2022.

Desenhar esse projeto na mente ainda é desafiador, pois os dois últimos anos não foram nada fáceis. Em fevereiro de 2020, antes mesmo do primeiro caso de Covid-19 ser confirmado oficialmente no Brasil, Carri recebeu um ultimato dos proprietários do antigo galpão, na Rua José Avelino, 662: ou comprava por R$900 mil ou cedia a outra pessoa que pudesse pagar esse preço. Para quem não sabia nem como quitar o aluguel de R$2.800 do mês seguinte, a proposta foi desestruturante.

“Ali foi a primeira vez que eu desmoronei legal. Não tem como você trabalhar tanto tempo num espaço, mais de duas décadas, sem sentir que os dois se pertencem. Eu sempre trabalhei nessa perspectiva de que um dia a gente ia ter ele pra gente. Eu acho que esse era meu sonho individual. Eu já me sentia um pouco dono, senão como é que eu ia estar seguro para sonhar? Até pra sonhar você tem que ter um pouco de segurança, né?”, entende, na maturidade dos 55 anos vividos.

Teatro e liberdade

Aos 27, no dia em que vislumbrou o primeiro Teatro da Praia, em um espaço da Rua Senador Almino, não era tudo tão complexo assim. Quatro anos depois, precisamente em 1993, já estava de mudança para o endereço onde mais tempo ficou, e cujas últimas caixas precisam ser retiradas até 28 de dezembro próximo. A pandemia adiou a saída, mas não assegurou a sustentabilidade financeira do equipamento.

“Eu não poderia existir de outra forma. Com muitos erros, com muito acerto, com muita prepotência, no bom sentido, de querer fazer do nada um espaço cultural para a cidade. Esse teatro não se chama Carri Costa. A minha ideia de coletividade, que é originária da época do meu envolvimento com as Comunidades Eclesiais de Base, Pastoral de Juventude, Pastoral Operária… Isso aí criou um Carri que pensa muito no coletivo, livre, liberto, sem nenhum tipo de amarras. Isso foi bom? Foi. Isso foi ruim? Foi. Porque essa liberdade tem um preço muito doido”, reflete.

Carri sentando na arquibancada do antigo galpão do teatro da praia
Legenda: Até 28 de dezembro, Carri esvaziará o antigo galpão do Teatro da Praia
Foto: Fabiane de Paula

Manter esse movimento sem apoio direto, público ou privado, lhe custou muitos anos com o “pires na mão”. Realizar 20 edições do Festival de Esquetes de Fortaleza (Fesfort), que apresentou e formou gerações de atores na cidade, foi outro grande desafio. Sem nunca cobrar preços abusivos ou colocar limites de público para uma apresentação, Carri já abriu a casa para 200 quando só cabiam 180, mas também para uma pessoa só. 

“E isso é resultado de sonho. E é um sonho diário, insistente, fascinante, relutante, e que bate de frente com muita coisa. Eu não quero que a gente seja considerado como exemplos ou não exemplos. A gente só existe. E existir é maravilhoso, fantástico. A gente proporcionou um local em que vidas, ao cruzarem-se, criaram. Foram criativas, foram arte”, reconhece.
Carri Costa
Ator e diretor do Teatro da Praia

Incontáveis foram as vezes em que o artista se viu viajando para o Sudeste, por conta própria, para lotar as casas de lá com sua comédia e trazer recursos para cá. Ou que direcionou recursos da oficina de arte que administra, com o mesmo propósito. E, nesse processo, presenciou espaços culturais abrirem e fecharem na Praia de Iracema, engolidos pela insegurança, pela especulação imobiliária e pelo diálogo mínimo das gestões públicas.

“Só que as minhas comédias sempre deram respostas muito maravilhosas a isso tudo. Eu não acredito na comédia como entretenimento somente. Ou eu faço pensar ou então não me interessa fazer rir. Sempre fui um cara que não me calei, independentemente de quem estivesse no poder, porque o mais importante pra mim era a arte. E é a arte, indiscutivelmente”, pontua.

carri sentado entre as caixas do antigo galpão do teatro da praia
Legenda: O acervo histórico do Teatro da Praia seguirá com Carri para o novo espaço alugado
Foto: Fabiane de Paula

Casa nova, história antiga

Foram essas crenças de Carri que lhe deram sustentação mesmo quando o telhado do Teatro da Praia desabou, em maio de 2021, dificultando ainda mais a permanência no velho galpão. Com a ajuda de amigos, artistas e do público frequentador do espaço, conseguiu reunir R$ 60 mil para reformas, mas os proprietários insistiram na venda do terreno. Já cansado, ele anunciou a saída definitiva do espaço em setembro último.

“Desde o acontecido aqui, eu tenho pensado muito, sentido muito, refletido muito, chorado muito, me emocionado muito, porque é uma ruptura. Poderia ser de outra forma? Claro que poderia. O Estado poderia adquirir esse galpão, as secretarias de cultura poderiam ter entendimento da importância disso aqui. Esse não entendimento de que esse imóvel é importante, ainda me machuca, ainda me dói”, confessa.
Carri Costa
Ator e diretor do Teatro da Praia

Mas a angústia não o paralisa. É tanto que, com as doações arrecadadas até agora, já está de mudança para o prédio em que antes funcionava um banco, na Avenida Monsenhor Tabosa, mesmo sem saber ao certo como vai pagar os R$ 6 mil de aluguel mensais, entre outras despesas que elevam a manutenção a R$10 mil por mês.

Carri Costa no novo teatro da praia, em reforma
Legenda: O novo Teatro da Praia terá 550 metros quadrados de extensão
Foto: Fabiane de Paula

“Muita gente me dá força. Eu tenho escutado muito isso: Carri, vai ser um tempo novo, um teatro novo… Não. Vai ser o Teatro da Praia, que tem 28 anos e vai fazer 29. E vai fazer 30. Ah, porque você não coloca outro nome? Que loucura! Algumas pessoas não acreditam que a história é importante. Não acreditam que é interessante você fazer parte dessa história”, reflete. 

“Eu vou pra outro local? Claro que vou. Eu vou porque não acredito que o Teatro da Praia tem que acabar, não acredito. Enquanto eu estiver em pé, ele vai estar em pé. Eu queria que fosse diferente, que eu passasse e o Teatro da Praia permanecesse, dentro de um espaço cultural no qual a história fosse preservada... Eu esperava mais do poder público”, sentencia.
Carri Costa
Ator e diretor do Teatro da Praia

Sonho em gestação

Com a reserva de R$60 mil praticamente esgotada com a mudança e as primeiras reformas estruturais do novo prédio, Carri aguarda a promessa de um recurso estadual de R$250 mil para dar continuidade aos processos e, quem sabe, reabrir a casa no primeiro semestre de 2022. “Quando a gente começa a fazer uma coisa, a gente não sabe aonde vai, como vai, a gente vai”,  sinaliza, ciente de que esse valor pode demorar muito a chegar.

Ao Diário do Nordeste, a Secult informou que a minuta de Projeto de Lei (PL) que prevê este recurso de revitalização para o Teatro da Praia está em apreciação na  Secretaria do Planejamento e Gestão do Ceará (Seplag-CE). Após a aprovação, o PL seguirá para a Procuradoria-Geral do Estado do Ceará (PGE-CE), e, em seguida, para a Assembleia Legislativa. Mas não há nenhum prazo previsto para cada uma dessas etapas.

“Isso me deixa numa situação de vulnerabilidade, de incerteza. Eu já vi processos mais ágeis, então é estressante”, lamenta, prestes a iniciar nova vaquinha on-line para seguir com o sonho que, para ele, é uma casa de acolhimento, a cuidar e ser cuidada por quem fizer ela acontecer.

carri sonha com o novo teatro
Legenda: De olhos fechados, Carri vislumbra o novo espaço do Teatro da Praia lotado pelo público
Foto: Fabiane de Paula

Quando fecha os olhos em meio a tudo isso, ainda consegue sorrir feito aquele jovem de 27 anos, prestes a iniciar a maior empreitada de sua vida.

“Vejo isso aqui cheio de gente, andando de um lado para o outro, aprendendo, entendendo, pensando. Eu vejo o público rindo, se emocionando, comendo nossas coisas, vendo nossas coisas, porque eu sou bairrista ao extremo. Esse teatro é um teatro na cidade de Fortaleza, na Praia de Iracema, no Estado do Ceará, e vai ser sempre assim, a cara da gente”, acredita.
Carri Costa
Ator e diretor do Teatro da Praia

Como ajudar

Doações para a Revitalização do Teatro da Praia
Pix da Associação dos Produtores Teatrais do Ceará: CNPJ 05.461.443/0001-01

 
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